Do amor e da guerra

Muitos livros foram já escritos sobre o efeito devastador da guerra e o surpreendente poder do amor que resiste entre destroços – de vidas, de sentimentos, de valores.
É impossível esquecer obras sobre a guerra e a condição humana como os excelentes “Por quem os sinos dobram” ou “Adeus às armas” de Ernest Hemingway, ou “O silêncio do mar”, o poderoso pequeno livro em que Vercors (pseudónimo do escritor francês Jean Bruller) narra a individualidade do ser humano em confronto com o absurdo da guerra, a resistência passiva que se transforma em relação silenciosa que nasce entre um oficial alemão e um francês e a sua jovem neta, em cuja casa ocupada se instala. E estes são, apenas, alguns exemplos, muitos outros poderiam ser citados.
Vem isto a propósito de um livro recentemente publicado que traz novamente ao contacto do leitor a reflexão sobre o poder de destruição (física e moral) do homem sobre o seu semelhante quando circunstâncias que não domina nem compreende se sobrepõem à sua vontade e desejo. Trata-se “Minha querida, queria dizer-te”, da inglesa Louisa Young.
Pelas suas quase quatro centenas de páginas perpassam a guerra, o amor, a condição de classe. O destino de dois jovens casais muito diferentes, que previsivelmente nunca se cruzaria, acaba por entrelaçar-se devido à guerra.
Riley Purefoy, filho de operários, cresce dividido entre duas classes sociais: a dos pais e a do mestre que o acolhe e lhe revela um mundo diferente, onde a pintura e a música são elementos fundamentais. Nesse mundo que não é o seu conhece a jovem Nadine, a paixão que o ajudará a suportar o absurdo da existência humana a partir do momento em que se oferece como voluntário durante a I Guerra Mundial.
Do lado oposto da escala social está Peter Locke, proprietário rural que por dever patriótico se alista no exército, deixando à sua espera a jovem e fútil mulher.
Nas trincheiras da Flandres, devastados pela morte e destruição que os rodeia, o comandante Locke e o soldado Riley desenvolvem uma forte cumplicidade só possível no pesadelo de transformações que o mundo (e os seus mundos) sofre.
Enquanto os homens combatem, em “casa” as mulheres não passam imunes à devastação da guerra. Além da separação e morte de familiares, amigos e vizinhos e da escassez de bens, algumas, como Nadine e Rose, prima de Locke, experienciam as consequências das batalhas enquanto voluntárias nos hospitais, onde diariamente chegam tantos jovens estropiados ou moribundos.
E quando a guerra termina e os casais se reencontram, elas percebem bem que os homens que voltaram já não são os que partiram.
“Minha querida, queria dizer-te” lê-se num fôlego e permanece no espírito do leitor por muito tempo.
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Louisa Young
Minha querida, queria dizer-te
Civilização Editora, 17,90€

Joana Roque: “Cozinhar é um acto de amor”

Depois do sucesso editorial de “Feito em Casa”, Joana Roque volta ao convívio dos amantes da culinária com “Cozinhar, Celebrar e Partilhar”, livro que está já no top de vendas de algumas livrarias. São mais receitas simples e saborosas, cuja confecção está ao alcance de todos quantos gostam de juntar família e amigos à volta de uma mesa… bem recheada de coisas boas.
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P – Este livro é uma continuação do “Feito em Casa” ou traz algo mais, além de novas receitas?
R – O “Cozinhar, Celebrar e Partilhar” é uma continuação natural do “Feito em Casa”, e também do blogue, onde se continuam a contar histórias e, principalmente, a partilhar receitas, sugestões e o prazer de cozinhar e de estar à volta de uma mesa a celebrar com aqueles que são importantes para nós.


P – Face a um mercado repleto de livros de chefes, a que atribui o sucesso dos seus livros, já que não é uma “profissional”?
R – Provavelmente deviam ser os “leitores” a responder a esta pergunta, mas acho que se deve à simplicidade das receitas, aos ingredientes básicos e à fácil execução. As pessoas identificam-se com aquilo que cozinho, porque utilizo os mesmos ingredientes que elas têm disponíveis nas suas casas todos os dias. Além disso, como não sou profissional, é muito mais fácil pensar que “se ela consegue fazer, eu também consigo”. E depois há sempre a proximidade com as histórias que partilho e com que é fácil identificarem-se.

P – A sua obra, tal como a anterior, é muito coloquial e até mesmo intimista. Considera que é esse o segredo do êxito?
R – Não sei se é o segredo do êxito, mas creio ser algo de que as pessoas gostam muito. Para mim era importante manter essas histórias e essa partilha, porque são elas que definem a maneira como eu gosto de cozinhar e as histórias por detrás das receitas que faço. E é isso que torna uma receita banal numa receita especial.

P – Um prato especial é realmente um “ingrediente” fundamental para uma boa celebração?
R – Não necessariamente um prato especial, mas sim o facto de que qualquer prato pode tornar-se especial apenas porque é cozinhado para comemorar algo, nem que seja o jantar de todos os dias, em que a família está reunida à volta da mesa. É essa a mensagem deste novo livro: fazer de todos os momentos uma partilha e uma celebração com receitas simples, e tornar assim essas receitas especiais, porque estão ligadas a momentos felizes.

P – A confecção de um prato é um acto de amor? A sua experiência confirma-o?
R – Para mim cozinhar é um acto de amor. É transmitir através da comida o quanto gostamos das pessoas, é fazer-lhes o prato favorito e depois, à volta da mesa, podermos comemorar o facto de estarmos juntos e gostarmos uns dos outros. É inevitável não haver amor em tudo isto.

P – Por que decidiu dividir o livro em ocasiões específicas, apresentando ementas completas, das entradas às sobremesas? Parece-lhe que a maioria das pessoas tem dificuldade em fazer essa conjugação?
R – Às vezes é difícil decidir o que fazer para um jantar de amigos ou de família. Andamos de volta das receitas e parece que não conseguimos decidir-nos. Esta divisão é apenas uma sugestão do que podemos fazer e que pode simplificar a tarefa a algumas pessoas. Faz sentido para mim, que começo sempre por decidir uma ementa completa antes de qualquer celebração. Então, porque não dividir assim o livro?

P – Dá novamente uma atenção particular à economia doméstica. Porquê?
R – Porque para mim é parte integrante da cozinha e das tarefas de casa. Sempre cozinhei a tentar otimizar ingredientes e recursos, sem desperdiçar nada. Foi assim que me foi ensinado e é assim que tento transmitir a minha forma de estar e de cozinhar. Além disso, acho que ao longo dos anos muitas pessoas se foram esquecendo destes simples ensinamentos das avós. Esta é apenas uma forma de reavivar as memórias e de mostrar como muitas vezes se pode fazer muito com pouco.

P – A que atribui o crescente interesse dos portugueses pela culinária?
R – Acho que começou como uma moda, mas aos poucos começa mais a ser um hábito. Algumas pessoas que não costumavam cozinhar perceberam que até têm muito jeito para a cozinha, outras aperceberam-se que é muito mais divertido e acolhedor receber os amigos e a família em casa do que num restaurante. Talvez tudo tenha começado porque o poder de compra das pessoas diminuiu, mas creio que muitas continuam porque descobriram o verdadeiro prazer de cozinhar para si e para os outros.

P – O prazer da boa mesa é compatível com os tempos de crise e de obsessão por dietas que marcam a actualidade?
R – Comer bem e ter uma mesa farta não significa comer alimentos caros ou gastar muito dinheiro em comida. Podemos ter o prazer da mesa com refeições mais económicas. Quanto às dietas, não posso falar muito porque também eu preciso muito de perder uns quilinhos e custa-me imenso ter de perder algum desse prazer da mesa…

P – Sente-se realizada com o rumo que a sua vida seguiu ou se recebesse uma oferta de trabalho na sua área de formação (Turismo) abandonava a culinária?
R – Sinto-me feliz e muito realizada, porque neste momento estou a fazer algo de que gosto muito. Mas não sei o que o futuro me reserva e por isso tento viver um dia de cada, vez sem fazer grandes planos. Não planeei dois livros de culinária e eles aconteceram. Não gosto de pensar em “se”.

P – Já ponderou abrir o seu próprio restaurante?
R – Não. Algo de que não gostava nada era de ter um restaurante. Gosto de cozinhar para os meus amigos e para a minha família, sempre numa perspetiva muito intimista e muito “homemade”. Um restaurante tirava esse encanto, partilha e celebração com aqueles de quem gostamos e para quem cozinhamos com amor.

P – Pensa continuar a cozinhar e a partilhar com os leitores as suas experiências?
R – O blogue mantém-se há quase seis anos com receitas diárias de segunda a sexta, e é algo que gosto muito de fazer. Nunca o fiz por obrigação. Adoro a partilha diária com os leitores e aprendo muito todos os dias e sempre pretendi mantê-lo desde o primeiro livro.

P – Para quando o próximo livro?
R – Nunca se sabe quando pode surgir um novo projeto… Mas para já há que saborear as coisas boas do “Cozinhar, Celebrar e Partilhar”.
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Joana Roque
Cozinhar, Celebrar e Partilhar
A Esfera dos Livros, 20€

Leia: Joana Roque no ARQUIVO da Novos Livros.

António Manuel Marques | A Imperfeição do Presépio



1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro "A Imperfeição do Presépio"?
R- Este livro inaugurou o meu investimento na ficção, pois a minha experiência editorial, até agora, tem sido exclusivamente de cariz académico e pedagógico. Apesar das características que distanciam esses tipos de escrita e de edição, vejo continuidade e complementaridade entre este livro e o meu trabalho anterior. Ainda que me agrade muito o rigor próprio da investigação e não tenha dificuldade em seguir os seus preceitos, fui sentindo, ao longo dos anos, que esse modelo restringia a minha vontade de questionar contextos, pessoas, pensamentos e vivências atuais e passadas. Por outro lado, como, desde 1987, tenho trabalhado em torno das questões da sexualidade, da saúde e, mais tarde, do género, tendencialmente, com recurso a entrevistas, fui acumulando memórias muito ricas acerca dos universos privados e públicos. Diria, portanto, que a escrita de ficção estimula a minha capacidade para imaginar e especular acerca do que ouço e observo, com liberdade total, algo que um trabalho académico sobre a mesma pessoa ou situação, em princípio, não permitiria.

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Escrevi a maior parte deste livro há mais de uma década e o contexto ilustra bem o que quis dizer na questão anterior. Estava a redigir a tese de mestrado em psicologia social, sobre as representações sociais do/a parceiro/a conjugal ideal [As Árvores de Deus e as Suas Flores. Psicologia social das relações amorosas. Lisboa: Fim de Século, 1998]. Ainda que estivesse muito satisfeito com os resultados e sem dificuldade em cumprir as normas que caracterizam esses trabalhos, senti necessidade de ter um documento em segundo plano, ao qual recorria em momentos de cansaço. Nele fui agregando memórias soltas da minha infância e, sem o ter planeado, assumindo uma voz no feminino e outra no masculino, sempre em torno da conjugalidade, da paternidade e da maternidade. Cedo me dei conta de que a ‘voz da mulher’ era bem mais rica e estimulante e foi essa quem predominou, passado a dominar a minha escrita e expressividade. Através dela pude recuperar muitas vivências diretas, mas também outras que me foram narradas, uma vez que o tempo da ação cobre praticamente todo o século XX. Através desse livro concretizo o desejo de dar voz e visibilidade àquelas e àqueles que, em geral, estão mais obscurecidos na produção literária atual, ainda que, felizmente, alguns autores lhe dediquem atenção. Não tenho a pretensão de fomentar um possível neo-neo realismo, por não ter qualidades para tal, mas defendo a necessidade de retratar a complexidade humana, num mundo desigual e injusto.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Com este livro não esgotei o meu interesse pelo passado nacional e por essas vozes anónimas. Por isso, tenho já bastante adiantado outro original, igualmente centrado no universo do feminino, desta vez com mais vozes/personagens, localizado em Lisboa, num tempo que considero fascinante: a primeira metade da década de 1970. Espero conseguir transmitir a quem queira ler a razão desse fascínio.
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António Manuel Marques
A Imperfeição do Presépio
Bertrand, 12€

Manuel Jorge Marmelo | Somos Todos um Bocado Ciganos


1- O que representa, no contexto da sua obra o livro "Somos Todos um Bocado Ciganos"?
R- É o meu 12º romance, mas é também uma espécie virar de página. Os últimos quatro (Os Fantasmas de Pessoa, Aonde o Vento me Levar, As Sereias do Mindelo e Uma Mentira Mil Vezes Repetida) eram livros que tinham no seu centro a própria literatura e uma reflexão sobre os seus limites e possibilidades. Somos Todos Um Bocado Ciganos é, nesse sentido, um regresso a uma forma mais desarmada de contar e a uma certa depuração estilística. A única coisa que se mantém é a investigação em torno dos fenómenos de intolerância e segregação.

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?

R- Quis explorar a possibilidade de contar o mundo a partir dos olhos de um miúdo cigano que vive num circo pobre e que vai descobrindo os impulsos da adolescência e a sua circunstância social; o modo como percebe a estranheza dos outros e a forma como percepciona aquilo que o rodeia.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- O lançamento de dois livros num curto espaço de tempo, com os compromissos que isto implica, somados aos que tenho habitualmente, não me têm permitido escrever grande coisa, se se exceptuarem as crónicas do autocarro que escrevo no meu blogue. Mas pretendo retomar dois projectos de há algum tempo, um livro de contos e uma ficção em torno da personagem do meu trisavô.
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Manuel Jorge Marmelo
Somos Todos um Bocado Ciganos
Quetzal Editores, 13,30€

LEIA: Manuel Jorge Marmelo no ARQUIVO da Novos Livros

Margarida Fragoso | Design Gráfico em Portugal


1- De que falamos, quando falamos de cultura visual?
R- Cultura, neste livro, é percebida numa interpretação sociológica e numa perspectiva complexa; É entendida como o conjunto complexo de conhecimentos e todas as demais capacidades adquiridas pelo homem como membro da sociedade; Cultura visual é entendida como o conjunto de conhecimentos, ideias, valores, costumes, manifestações intelectuais e artísticas entre outras, que caracterizam uma sociedade e que se manifestam na expressão visual.

2- Depois do estudo do design gráfico em Portugal no século XX, podemos dizer que esta primeira década do novo século apresenta novos rumos, novas abordagens, novas tendências?
R- Inseridos na sociedade, os designers exercem nela a sua actividade, mas o seu trabalho não é neutro ou alheio aos seus valores. Estes são, simultaneamente, autores e testemunhas do “espírito do tempo”. Verificámos que o mundo de grande «coerência» e estabilidade do final do século XIX foi fragmentado pela emergência de interrogações em múltiplos domínios. Ao longo do século XX, a busca de novos caminhos, a afirmação de novos princípios e conflito entre eles, as crispações e antagonismos foram configurando um estado de «sincretismo» em que aparentemente tudo é válido, tudo pode ser sustentado e defendido. Esta primeira década do novo século é reveladora de uma multiplicidade de valores que se manifesta em diversas e efémeras formas. A fusão entre os meios técnicos de difusão da imagem, do som e de dados permitida pelas tecnologias digitais vem alterando a noção de expressão visual limitada à expressão gráfica, impressa ou não; A «portabilidade» dos meios de acesso à informação visual e sonora integradas, com a decorrente modificação das escalas dimensionais e da sua percepção; O rápido desenvolvimento da imagem de síntese e da sua integração com a imagem captada do mundo real, cujas possibilidades abrem campos alargados à criatividade mas não deixam de criar problemas deontológicos, éticos e jurídicos ainda apenas entrevistos.  Estes são novos caminhos a que devemos estar atentos e abertos à sua compreensão!

3-Qual a principal ideia que pretendeu artilhar com os seus leitores ao escrever este livro?
R- Interrogar o sentido e fundamentos de uma prática profissional e repensar criticamente muito do “adquirido” convencional no pensamento sobre o Design. Por outras palavras: perante as questões que surgem diariamente, cabe reflectir. E ao interrogar, começa-se a dissecar o problema e a contribuir para a sua compreensão. Compreender as questões que nascem da prática quotidiana possibilita uma intervenção mais eficaz e consistente e é desta relação Saber para Fazer, Fazer para Saber que surge a ideia para escrever este livro.
Por outro lado, este livro resulta também da insuficiente análise crítica que existe sobre este tema. É preciso rever, alargar os horizontes, pôr em questão, problematizar, contribuir para a construção de uma consciência crítica, atitude cada vez mais premente no mundo visualmente diversificado da actualidade. A contribuição para o progresso do conhecimento requer uma atitude aberta ao entendimento do mundo e a uma disposição para se ser produtor, e não mero consumidor do pensamento alheio sobre os problemas que nos dizem respeito. 
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Margarida Fragoso
Design Gráfico em Portugal. Formas e Expressões da Cultura Visual do Século XX
Livros Horizonte

Rui Rocha | A Oriente do Silêncio


1- O que representa, no contexto da sua obra o livro "A Oriente do Silêncio"?
R- O livro “A Oriente do Silêncio” é o meu primeiro livro de poesia e a sua publicação surge por um acaso de vontades de pessoas amigas que entenderam que o livro mereceria ser publicado. Este livro será, porventura, a convergência de duas circunstâncias: uma, a minha proximidade e convivência,  desde muito cedo,  com a cultura e a poesia chinesa e japonesa e com a tradição poética do Chan (Zen), uma vez que descendo de uma família luso-chinesa do ramo materno e aí foram proporcionadas as condições para esse conhecimento; a outra, o ter tido a possibilidade de estender a minha vida profissional a Macau, onde vivo há 28 anos,  relançando-me, “por proximidade e entre vários orientes, ao oriente da China de Wang Wei e ao do Japão de Bashō”.
Em Macau, reli muito do que existe da poesia da dinastia Tang, na China (618-907), e dos grandes poetas como Wang Wei, Li Bai, Du Fu, Bai Juyi, Liu Yuxi e outros, e voltei à poesia japonesa haiku  do séc. XVII e seguintes, de Bashō, Buson, Issa, Shiki e outros, que são belos registos do instante, totalizante, intuitivo e, por isso mesmo, simples e conciso.

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- A ideia deste livro foi a de escrever poesia com um olhar e um sentido do lugar, a partir das tradições poéticas que me sensibilizam e me estão poeticamente mais próximas.  A proximidade é o próprio acto da escrita, a economia das palavras em relação ao sentido.  A natureza e os temas como a lua, os tempos de vida, os dias e as noites, o mar, o amor obviamente,  são a intermediação poética.  A poesia oriental  é, grande parte dela, uma poesia na natureza. Os pequenos instantes da natureza são vividos pelos poetas orientais com um sentimento reverencial e uma admiração sincera, contemplando-a na sua humildade, na sua beleza sem ostentação, no seu despojamento, na sua efemeridade até.
Diria que não é uma tradição poética exclusiva do Oriente mas predominante do Oriente. Num artigo sobre o Chan (Zen), a clara virtude do budismo chinês, que foi ou irá ser publicado na revista Letras com Vida do CLEPUL,  referia precisamente a existência de um chan poético universal em muitos poetas ocidentais como Wordsworth, Thomas Hardy, William Blake, Frost, Ezra Pound, Alberto Caeiro e tantos outros. Um sentimento que tem, de algum modo, um leve paralelo com a visão contemplativa cristã designada, o  acaso amor divino, em Mestre Eckhart, São João da Cruz e outros místicos da Igreja.
E nesta admiração/contemplação emerge um discurso do silêncio, uma eloquência do silêncio, ou se quisermos silenciosa eloquência, um mistério da enunciação que contrasta genericamente com a tradição poética ocidental que é fortemente discursiva que contém subjacente uma doutrina do logos, indutiva, conceptual, argumentativa, analítica. Se  tivesse de caracterizar estes dois diferentes mundos poéticos, em termos muitos gerais, diria que um é de uma estética da eloquência (o ocidental); o outro, de  uma estética do silêncio (o oriental).
Daisetsu Teitaro Suzuki, um conhecido professor japonês de filosofia e divulgador do pensamento Zen dos anos 60, no seu texto integrado no livro Zen e Psicanálise reporta estas duas diferenças culturais confrontando as duas tradições poéticas, ao apresentar dois poemas e duas atitudes poéticas contrastantes perante a observação de uma flor:

Quando olho atentamente
Vejo a flor da nazuna
Ao pé da sebe
Basho (1644-99)

Flor no muro fendilhado/ eu te arranco das fendas/seguro-te aqui, com raiz e tudo na minha mão/florzinha – mas se pudesse compreender/ o que és, com raiz e tudo e tudo em tudo/ conheceria o que são deus e o homem
Tennyson (1806-92)

Sinto um enorme prazer em ler Herberto Helder e Nuno Júdice, porventura  dois dos  maiores poetas contemporâneos portugueses mas depois... a nota, o relato sensível do aqui e agora do lugar, a apreensão do estar que, tal como se diz na apresentação do livro, transcende a dimensão do texto, reservando um espaço para o silêncio entre as palavras, está “filogeneticamente” mais próximo do que gosto de escrever.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Continuo a escrever poesia, independentemente de poder vir ou não a publicá-la. Mas a minha escrita reparte-se também por temáticas bem diversas: uma, clara e recorrentemente burocrática (planos de actividades e orçamentos); outras, sobre sociolinguística, teoria da escrita, tópicos da cultura chinesa (a simbologia dos signos chineses, por exemplo), alguns segmentos da historiografia dos portugueses na Ásia, e outros.
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Rui Rocha
A Oriente do Silêncio
Esfera do Caos

Porfírio Silva | Podemos Matar um Sinal de Trânsito?


1- De que trata este seu livro: "Podemos Matar um Sinal de Trânsito?"?
O subtítulo do livro é um princípio de resposta: “Um divertimento político-filosófico acerca da profundidade do quotidiano”. Com isto quero dizer duas coisas. Primeiro, que há um conjunto de factos da nossa vida em sociedade, que passam nos jornais e nas televisões como episódios anedóticos, mas que, se pensarmos um pouco, descobrimos serem muito mais enigmáticos do que parecem à primeira vista. Porque é que os autores do blogue 31 da Armada, quando, a 10 de Agosto de 2009, subiram à varanda dos Paços do Concelho de Lisboa e hastearam a bandeira azul e branca, não restauraram a monarquia, como disseram ter feito, reclamando que foi precisamente com esse gesto que em 1910 foi proclamada a República? O que explica que Obama tenha repetido o juramento como presidente, no dia seguinte à cerimónia de tomada de posse assistida por milhões de pessoas, desta feita sem anúncio prévio, num ambiente recatado e perante um restrito número de testemunhas? O que terá uma câmara municipal feito para ser acusada de colocar falsos polícias na rua? O que é uma greve de zelo? Há perguntas que parecem ainda mais corriqueiras e, contudo, suscitam respostas inesperadas: o que é que faz com que um casamento seja um casamento? Quando cai um sinal de sentido proibido, por esse facto desaparece a proibição de circular nesse sentido naquela rua? Depois, este livro é um divertimento, já que aproveita estas perguntas pouco habituais para colocar questões muito sérias sem se fazer de sério: com uma linguagem simples, como quem conta uma história que queremos saber como acaba, com uma boa disposição que não tira nada à excitação das questões que coloca.

2- De forma resumida, qual a principal ideia que espera conseguir transmitir aos seus leitores?
Nós somos, cada um de nós é, de grande importância para a beleza, ou fealdade, deste nosso mundo. Somo nós que fazemos, ou não, a qualidade da nossa vida em comum. Perceber isto não é apelar a qualquer forma pomposa ou severa de pensar no destino da humanidade, mas sim dar atenção à importância de pequenas coisas de todos os dias, de cujo valor nem sempre nos apercebemos. Este livro procura, sem tentar dar lições de moral, dar exemplos simples da participação e relevância que temos nos aspectos interessantes e até misteriosos da nossa vida comum e de todos os dias.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
Estou a montar um texto cujo título provisório é “De que falam as máquinas quando nós não estamos a ouvir?”. Humanos, máquinas e linguagem, portanto; uma combinação que toca directamente no coração da nossa identidade como humanos – e dos futuros possíveis dessa identidade.
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Porfírio Silva
Podemos Matar um Sinal de Trânsito?
Esfera do Caos

Maria Alice Caetano | Maçã de Zinco

1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro "Maçã de Zinco"?
R- “Maçã de Zinco” é o meu segundo livro editado. O primeiro, “Depois do Ninho, a Água” é um livro de poesia. “Maçã de Zinco” é um livro de prosa poética e, talvez, contenha alguns poemas pelo meio. Considerei que, escrever sempre da mesma maneira, não me interessava, afinal, está tudo escrito, então eu teria de reinventar. Reinventar na forma, pois alguns temas, alguns elementos, são recorrentes naquilo que escrevo, são o meu cunho! Particularidades da infância podem misturar-se com imagens de quadros, imagens observadas no quotidiano, vivências doces ou amargas. A questão das vidas femininas, o trabalho físico, certas inerências a um mundo campestre ou citadino. A morte presente em tudo, como uma estátua, contrariada pelo elemento sol, que se repete, bem como nomes de flores, porque existe uma força de antítese à morte que quer prevalecer. O negro dos metais, o barro, ou o corpo inserido num erotismo poético e sublime….
Que se descubra melhor lendo. “Maçã de Zinco” é um livro que se lê rapidamente, e é um livro que procurou despir-se de linguagem demasiado elaborada, que conta pequenas histórias ou realiza curtas metragens.

2-Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R-As pessoas que tinham lido “Depois do Ninho, a Água” e que me conhecem, estavam constantemente a perguntar-me quando é que eu lançava um novo livro. E eu, que durante anos fui esmerando e aperfeiçoando o meu estilo próprio para elaborar uma obra única, de repente senti-me impulsionada a escrever de novo, para publicar. Então resolvi desenvolver um projecto diferente, que não fosse repetir o que antes eu tinha considerado único. Daí o facto de “Maçã de Zinco” seguir a linha da prosa poética, para ser diferente e também, para surpreender quem já tinha lido o primeiro livro.
“Depois do Ninho, a Água” significava o «voo» dos escritos tantos anos guardados num ninho, que nasciam, como águas uterinas. Agora “Maçã de Zinco” teria der ser representativo das dualidades que nos compõem e compõem o mundo, e que me «atormentam». A simbologia do elemento “maçã” vai de encontro a tudo o que no livro é natural e belo, o elemento “zinco” significa a limalha do sofrimento, do vazio, do fim do tempo.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-Quem gosta de escrever, quem escreve desde sempre, ainda que não publique, penso que não perde esse hábito e, claro, eu pertenço a esse grupo de pessoas que gosta de escrever. Tenho um conto que já está começado. Lá volto eu, que amo a poesia, a não querer repetir-me no género, ainda que, tudo o que eu escreva contenha poesia, é impossível fugir-lhe, está entranhado na minha pele.
Esse conto divide cada capítulo numa casa. Cada casa é completamente diferente da anterior e a pessoa que habita as casas, o narrador, tem experiências e buscas de respostas conforme se muda de casa para casa. Afinal, as casas são o cenário, o elemento poético do conto. Neste momento não estou a escrever, por um lado, devido ao meu trabalho como professora que está a absorver-me muito tempo nesta fase do ano, por outro lado estou numa encruzilhada em relação à história, pois coloquei uma questão ao narrador à qual ainda não consegui dar resposta. Vou ter de utilizar algum tempo e disponibilidade para resolver essa questão e depois prosseguir.
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Maria Alice Caetano
Maçã de Zinco
Esfera do Caos

Uma vida exemplar num livro de amigos


Para quem não viveu em Espinho, o nome do Padre Manuel Henriques poderá não dizer muito. Mas, para muitos espinhenses ao longo de décadas foi uma referência. Fez parte da vida da cidade. Participou na vida de muitas pessoas como sacerdote, como amigo, como confidente, como (quase) um familiar.
Por tudo isso, não é de espantar a iniciativa do lançamento da sua fotobiografia, uma ideia de amigos que ganhou corpo e está agora disponível para uma leitura atenta.
Textos, fotografias e reflexões. Para evocar o homem, a sua obra e o seu exemplo. Um documento indispensável.
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AAVV
O Nosso Padre Manuel
Draft Books, 20€
(Encomendas: 227.347.599 ou geral@transnetica.pt)

Augusto Canetas | Verticalmente de Pé

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro “Verticalmente de Pé”?
R- Este livro foi concebido para interpretar o meu país contemporâneo, social, económico e político. A família e os afectos também estão presentes. No contexto geral da minha obra, este livro representa mais um passo, do mesmo tamanho que o primeiro. A diferença está somente em como coloquei o pé no chão; desta vez com mais firmeza. Não tenho dúvidas disso.

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Inicialmente e como processo criativo vou absorvendo pequenos flashes, fruto sobretudo de estímulos exteriores. Depois peneiro-os, aconchego-os, e, sem solipsismos, entendo que de alguma maneira devo os fazer chegar aos outros.

3-Pensando no futuro, o que está a escrever neste momento?
R- Actualmente estou com um romance e um conto, prontos a publicar. Fecundado, está outro romance.
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Augusto Canetas
Verticalmente de Pé
Grupo Criador Editora

Ricardo Tomaz Alves | A Devota


1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro "A Devota"?
R-  Foi o terceiro livro que escrevi e o primeiro a ser publicado. Não é melhor nem pior que os outros, apenas diferente e o escolhido para dar a conhecer a minha escrita aos leitores. Digamos que representa o ponto de arranque, o início de uma carreira que espero que seja longa, produtiva e inspiradora.

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R-  Sendo Portugal um país maioritariamente católico, não tendo a minha família fugido à regra, sempre ouvi, desde pequeno, que Deus vê e ouve tudo e que está sempre connosco, o que me levou a perguntar-me se estará presente nos nossos momentos mais íntimos e a que ponto será essa omnipotência e presença invasão e violação de privacidade, surgindo então a ideia de escrever uma história que abordasse este tema dramática e comicamente. “A Devota” conta uma história passada nos subúrbios e vila de Sintra, em locais secretos que desafiam a imaginação e que retratam a luta interior de uma jovem que terá de ultrapassar as difíceis fases da infância e adolescência enquanto enfrenta a luta interior de acreditar ou não no que lhe é dito e ensinado, enfrentando vários desafios à sua fé e psique.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Estou neste momento a escrever um novo romance intitulado “Intangível”. Retrata a vida de um jovem desempregado atormentado pelo futuro que para além de comparecer às mais estranhas e mirabolantes entrevistas de trabalho experiencia novas sensações e conhece novas pessoas, entre elas duas mulheres que vão dividir e confundir-lhe o coração.
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Ricardo Tomaz Alves
A Devota
Alfarroba Comunicação

O poder curativo do Havai

"Os descendentes" é o primeiro romance de Kaui Hart Hemmings, embora a autora tivesse anteriormente publicado o livro de contos "House of the Thieves" (ainda não foi publicado em Portugal), que lhe concedeu alguma notoriedade.
O romance foi nomeado para a categoria de Melhor Livro do ano pelo San Francisco Chronicle, traduzido em 14 línguas e, entretanto, adaptado para cinema.
A adaptação cinematográfica ficou a cargo de Alexander Payne, sendo o papel principal protagonizado pelo conhecido actor George Clooney; os papéis das filhas foram entregues às pouco conhecidas Shailene Woodley e Amara Miller. O filme ganhou um Óscar na categoria de Melhor Argumento Adaptado, tendo estado nomeado em mais quatro categorias.
Matthew King é advogado, um dos homens mais ricos do Havai, está bem casado e tem duas filhas preciosas – ou assim pensava até a sua mulher sofrer um acidente que a deixou em coma.
Perante esta nova situação familiar, Matt vê-se obrigado a desempenhar um papel que lhe é completamente estranho: cuidar das filhas e da casa. Além de todas as dificuldades que se esperava que enfrentasse com a mulher no hospital, a sua tarefa é ainda mais difícil porque Matt nunca dedicou tempo a conhecer as filhas. A sua vida dá uma volta ainda maior quando descobre que a mulher não era tão feliz como pensava e que tem um segredo que ele preferia não ter descoberto, muito menos agora.
Kaui Hart Hemmings apresenta-nos um romance com uma carga dramática muito alta, mas o leitor não a sente dessa forma. Não somos confrontados com um drama hospitalar, temos um equilíbrio perfeito entre os momentos que todos passam no hospital com a sua procura e redescoberta da vida numa viagem pelo encantador Havai.
As personagens são honestas e engraçadas, revelando ao mesmo tempo o seu receio e o quanto estão assustadas com a nova situação. É fácil uma pessoa gostar delas e torcer por elas. As raparigas mostram-se fortes, têm mecanismos de defesa pouco comuns em miúdas daquela idade, mas são também frágeis e só procuram um pai que toma conta delas.
Esta é uma história contada em camadas sobre a perda, a aceitação, a descoberta e os primeiros passos para uma nova vida. "Os descendentes" é um livro que se recomenda.
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Kaui Hart Hemmings
Os Descendentes
Editorial Presença, 16,50€



Segredos da vida íntima de uma mulher


“Vida Privada” valeu a Jane Smiley não só mais um prémio na sua carreira mas também a proeza de bisar o Pulitzer, galardão já conquistado em 1992 com “A Thousand Acres” (que será publicado este ano, igualmente pela Civilização).
Além de premiado, o livro foi bastante elogiado pela crítica – o “Guardian” considerou-o uma obra-prima –, e muito justificadamente. O romance entranha-se sub-repticiamente no espírito do leitor, provocando não propriamente uma leitura compulsiva mas reflexiva, obrigando a paragens para meditação e permanecendo na mente muito após o seu fim.
“Vida Privada” tem como balizas temporais o final do século XIX e a II Guerra Mundial. Espacialmente, a acção decorre sobretudo nos Estados Unidos, especificamente na Califórnia e em St. Louis, embora com saltos à Europa em guerra.
A história centra-se na vida íntima de Margaret Mayfield, uma solteirona “devoradora” de livros que só aos 27 anos recebe uma proposta de casamento, já as irmãs mais novas estavam casadas e com filhos. Parece uma dádiva dos céus, numa idade considerada na época já tardia, ainda para mais vinda do homem mais famoso da sua pequena vila do Missouri: o capitão Andrew Jackson Jefferson Early, oficial da marinha e astrónomo, com estudos realizados não só em universidades norte-americanas como europeias.
No entanto, o “golpe de sorte” que bafejou Margaret, nas palavras de sua mãe, cedo perde o brilho. Desde que o casal se instala na base naval onde Andrew está colocado, nas imediações de São Francisco, Margaret compreende que o marido não é quem ela julgou: o seu ego é do tamanho do Universo que estuda, e nada nem ninguém pode atrapalhar a ambição de provar as suas teses.
Como era norma na época, Margaret acompanha-o em todas as fases, abdicando de si, dos seus sonhos e aspirações, vivendo em função das suas obsessões. Mas com o eclodir da II Guerra Mundial, o comportamento de Andrew torna-se perigoso e as consequências acabam por ser dramáticas para terceiros, levando Margaret a pôr em causa o percurso de uma vida.
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Jane Smiley
Vida Privada
Civilização Editora, 17,90€

Ser mulher nos tempos modernos

Allison Pearson, autora do livro “Não sei como ela consegue”, é, além de escritora, uma conhecida jornalista britânica, tendo sido nomeada pelos British Press Awards nas categorias de “melhor crítica do ano” e “melhor entrevistadora do ano”. Este romance deu-lhe uma outra notoriedade, ao receber o Virgin Books Newcomer of the Year. A obra já foi traduzida em 19 línguas.
Kate Reddy é uma mulher moderna. Trabalha numa das mais prestigiadas empresas financeiras de Londres, é casada e tem dois filhos pequenos. Kate quer fazer tudo: ser a mãe perfeita, uma mulher dedicada e uma trabalhadora exemplar. O problema é que o tempo não dá para tudo, e Kate Reddy sente isso na pele.
As permanentes críticas dos sogros, das mães dos coleguinhas dos seus filhos (que não trabalham e têm muito tempo livre) e dos seus próprios colegas da empresa (são homens não têm que se preocupar com as crianças) só tornam a vida mais complicada e o sentimento de culpa maior.
Kate faz muita “ginástica” para conseguir dar um saltinho a cada campo da sua vida, mas as coisas tornam-se mais complicadas quando numa viagem de negócios a Nova Iorque arranja uma paixoneta.
Escrito de uma maneira simples e com uma história agradável, “Eu não sei como ela consegue” é um daqueles romances para ler numas férias em que estamos descontraídos e queremos um livro que nos mantenha dentro desse espírito.
“Eu não sei como ela consegue” chegou o ano passado aos cinemas portugueses, num filme com o mesmo nome. A película foi realizada por Douglas McGrath e interpretada pelos conhecidos actores Sarah Jessica Parker e Pierce Brosnan.
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Allison Pearson
Eu não sei como ela consegue
Editorial Presença, 16,90€

O primeiro livro de Záfon

“La trilogia de la Niebla” foram os primeiros romances escritos por Carlos Ruiz Záfon mas, como bem sabemos, as edições portuguesas nem sempre respeitam a ordem da produção literária dos autores. Por isso, só agora nos chegou o primeiro volume desta trilogia, que corresponde também ao primeiro livro do autor: “O Príncipe da Neblina”.
Zafón ficou conhecido mundialmente com “A Sombra do Vento”, a que se seguiu “O jogo de anjos”. As suas obras já foram traduzidas para mais de 40 línguas e valeram-lhe os mais diversos prémios literários.
Este é um livro despretensioso, mais virado para um público jovem, embora também possa agradar aos mais velhos. Torna-se uma leitura agradável e não exigente, mas cativante, ideal para os momentos em que uma pessoa quer uma boa história e não pretende pensar muito. Está longe de ter a primazia dos seus mais recentes romances, mas foi também o seu primeiro livro, o que nos leva mais uma vez à importância da ordem de edição dos livros.
Em “O Príncipe da Neblina”, o autor puxa por uma vertente que parece ser do seu especial agrado: o terror e o suspense. É o claro confronto entre o bem e o mal. A história começa com a mudança da família Carver para uma aldeia costeira remota, tentando fugir do epicentro da Segunda Guerra Mundial.
Max, o protagonista desta história, sente que a casa está cercada por um mistério, há algo que não bate certo. Desde a infeliz história dos anteriores inquilinos aos estranhos acontecimentos que afectam os vários elementos da família, até ao esquisito jardim de estatuas que Max observa da janela do seu quarto.
Quando Max e a sua irmã Alicia conhecem Roland, um rapaz da aldeia, que os põe a par das histórias da sua nova terra e do estranho caso do navio afundado junto à costa, os irmãos percebem que há mais nesta história do que o que lhes estão a contar. Perante os perturbantes acontecimentos de que vão sendo alvo e as histórias que ouviram, todos os caminhos apontam para uma personagem conhecida como o Príncipe da Neblina, e então as coisas começam a ficar interessantes.
Depois desta introdução ficamos curiosos para saber o que vem a seguir, que histórias trarão os outros dois volumes? Uma coisa é certa, o Príncipe da Neblina não parece disposto a desaparecer enquanto não lhe derem o que é devido.
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Carlos Ruiz Zafón
O Príncipe da Neblina
Planeta, 17,76€

A chave da (nova) vida

"Extremamente alto e Incrivelmente perto" é o mais recente livro de Jonathan Safran Foer editado no nosso país. O autor tem já publicado em Portugal os romances "Está tudo iluminado" e "Comer animais", tendo os seus livros sido já traduzidos em trinta e seis línguas. Recebeu o National Jewish Book Award e o Guardian First Book Award pela obra "Está tudo iluminado".
O livro "Extremamente alto e Incrivelmente perto" chega a Portugal na mesma altura da sua adaptação cinematográfica. O filme conta com as interpretações de Sandra Bullock, Tom Hanks, Max von Sydon e do pequeno Thomas Horn. A película foi nomeada para os Óscares na categoria de melhor filme e melhor actor secundário (Max von Sydon).
Oskar Schell não é o típico rapaz de nove anos. Auto-intitula-se inventor, francófilo, tocador de tamborim, actor shakespeariano, joalheiro e pacifista, características especiais que aumentam exponencialmente quando o rapaz perde o pai no atentado terrorista de 11 de Setembro.
Tudo começa quando Oskar descobre uma chave perdida no guarda-fatos do pai e se convence que esta foi deixada pelo pai como uma pista para as expedições que costumava organizar para ele. Assim, Oskar, parte numa busca que o levará a visitar todos os Black's que existem nas cinco zonas de Nova Iorque, com o intuito de descobrir a fechadura que a chave abrirá.
Jonathan Safran Foer cria uma história inspiradora e comovente que liga os atentados do 11 de Setembro ao sentimento de perda de uma criança. A maneira como é escrito é inovadora e somos frequentemente deparados com imagens que apoiam o desenrolar da história.
Sentimos com Oskar as suas incertezas, os seus receios, a sua revolta, o seu amor. Apaixonamo-nos pela maravilhosa história da avó de Oskar e do seu inquilino. Não ficamos indiferentes ao Senhor Black, que acompanha Oskar, nem a todos os outros Black's que o miúdo visita e que parecem ter uma história de vida tão interessante e comovente como a dele.
Como diz a crítica da The Oprah Magazine, "Extremamente alto e Incrivelmente perto" é «Um romance divertido, sábio, de uma profunda compaixão, que vai renovar a fé dos leitores no facto de o livro certo no momento certo ainda ter o poder de mudar o mundo».
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Jonathan Safran Foer
Extremamente alto e Incrivelmente Perto
Bertrand Editora, 16,50€

Nelson Ferraz | Não Me Ganhas

1- O que representa, no contexto da sua obra o livro "Não me Ganhas"?
R-Uma peça importante, um patamar fundamental.

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- O desafio. A loucura honesta. A inquietação permanente do autor em relação a coisas vulgares, complexas e questionáveis.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
Neste momento há, apenas, alguns esboços (uns mais adiantados que outros) à espera de se assumirem como a próxima obra.
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Nelson Ferraz
Não me Ganhas
Edium Editores

Uma aventura em 365 dias

Gabrielle Lord é uma das escritoras mais famosas, devido a coleção de livros juvenis com o nome “ Conspiração 365”. Esta coleção retrata a vida e a sobrevivência de um jovem cujo nome é Callum. Este jovem tenta desvendar um mistério sobre a sua família através de cartas e desenhos que o seu pai lhe deixou.
Durante 12 meses (12 livros) o leitor irá descobrir, e mergulhar através de diferentes aventuras, mistérios e perseguições. Porém a vida de Callum não vai ser facilitada porque, não é o único a querer desvendar o mistério de Ormond.
Quando Callum pensa estar perto de chegar ao fim, tudo volta à “estaca zero”. Ao longo desses 365 dias, o jovem irá ter ajuda do seu melhor amigo Boges, que conhece desde a sua infância e a jovem Winter que esteve ligada a um dos seus maiores inimigos.
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Gabrielle Lord
Conspiração 365 - junho
Contraponto - 8.30 €

A determinação de Mattie

A jovem Mattie, de 14 anos, vê-se obrigada a dar um rumo drástico na sua vida. Acaba de perder o pai, assassinado por um funcionário que seu pai contratou e que anda a “monte”. E não vê, na figura da mãe, alguém com capacidade de procurar justiça.
Ela decide ser ela mesma a procurar que a justiça seja feita e pretende acompanhar o Marshall, que vai contratar para o efeito. Decidida a concretizar essa tarefa, ela escolhe o Marshall que mais fama tem em caçar fugitivos.
O fugitivo também é procurado por um ranger, o que acaba por criar um trio pouco comum. Dois homens de lei e uma “garota” com tanta garra na sua sede de justiça, que não é demovida do seu objectivo. Por mais tentativas que eles façam para deixa-la para trás, ela consegue sempre acompanhá-los.
A busca deste fugitivo, leva o leitor por uma América ainda selvagem, onde índios, colonos e pistoleiros se cruzam em cenários do “farwest”, com bandos de “foras da lei” e autênticos “cowboys”.
A nossa heroína quase perde a vida, nessa aventura louca e desenfreada, mas acaba por ganhar o respeito dos homens que a acompanham e por onde passa. Demonstrando que a idade e o sexo não são limitações para quem tem uma vontade de ferro.
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Charles Portis
Indomável
Presença - 13.90 €

Regresso ao passado

Neste livro o autor faz uma visita há sua adolescência, tentando seguir os passos dos seus antigos colegas, amigos, os locais e costumes de um Minho que o viu crescer, moldar o seu carácter e partir para outras terras.
Com a “desculpa” de retratar a evolução do contrabando do Minho desde a sua adolescência; dos finais da década de 40, até aos anos 90, o autor volta viver o seu passado. Percorrendo terras e lugares, descrevendo o passado e o presente, como se fosse um pecador no purgatório há procura de redimir pecados antigos ou espiar culpas.
Retrata o procedimento e rituais desse tempo entre guardas; na figura de seu pai (guarda), e os contrabandistas na figura dos seus amigos e familiares, naquilo que foi o contrabando das décadas de 40 e 50. Retrata o Minho do “antigo regime”, a vizinha Espanha, assim como a suas gentes e modos de vida.
Com a ajuda da polícia, de um jornalista e dos seus antigos colegas que eram do mundo do contrabando, ele consegue descrever a evolução do contrabando até aos dias mais recentes e principalmente a importância e tipo de produtos que são traficados.
Sem deixar de retratar as suas paixões e a descoberta pelo gosto da leitura na sua adolescência, ele acaba por descrever a prisão e o alheamento em que vivia nessa altura e na posição, idêntica, que acaba por se colocar durante a investigação: refém tanto das autoridades como dos traficantes.
Mas como lhe disse Picasso «tudo acaba por se arranjar, meu rapaz, o principal é saber usar la coca.»…«La coca, hombre, la cabeza, la tête! Só se precisa dessa. O resto…».
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J. Rentes de Carvalho
La Coca
Quetzal , 13.55€

_____________Diga não ao cruel comércio de morte______________

2012: Centenário de Jorge Amado

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2011: Centenário de Alves Redol

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2011: Centenário de Manuel da Fonseca

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Alimentar bébés em Moçambique

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