Uma revista de leitores para leitores desde 2001


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Quando Lisboa era boémia

José Machado Pais tem uma dupla vantagem: é um sociólogo de primeira água, tendo realizado investigações interessantíssimas e de claro interesse para a sociedade portuguesa – o estudo “Ganchos, Tachos e Biscates. Jovens, Trabalho e Futuro” é uma referência inultrapassável; mas é, também, um autor com um discurso muito fluido, o que torna as suas obras acessíveis e de leitura bastante atraente.
Características que estão mais uma vez presentes em “A Prostituição e a Lisboa Boémia – do século XIX a inícios do século XX”, agora em reedição, mais de duas décadas após a primeira publicação.
Trata-se, como o autor explica logo no prefácio, de um estudo sociológico que se desenvolve em torno de uma problemática concreta: «Em que medida os submundos de uma sociedade permitirão chegar a um melhor entendimento das suas estruturas?».
José Machado Pais procurava indícios do desenvolvimento do capitalismo em Portugal quando, no decurso da investigação, “tropeçou” numa Lisboa boémia como espaço socialmente fechado sobre si na primeira metade do século XIX, e que depois, no virar do século, se abre, esbatendo-se as fronteiras entre a Lisboa boémia e a Lisboa respeitável. Que forças sociais terão levado à mudança?, interroga-se. «A resposta achei-a no desenvolvimento das relações capitalistas que a partir do último quartel do século XIX se começaram a sentir no recôndito de alguns submundos da cidade de Lisboa», adianta, explicando que ao seguir uma concepção sociológica e histórica virada para o quotidiano de gente ordinária não desvalorizou as temporalidades de longa duração nem desconsiderou as estruturas sociais.
E é assim que, ao longo da obra que expõe a investigação, o leitor toma contacto com figuras como prostitutas, fadistas, proxenetas, chulos, marialvas, marinheiros, criadas e costureiras, numa miscelânea de tipos sociais que contribuem para o retrato de uma sociedade num determinado período temporal.
A administração política e legislativa do fenómeno da prostituição, a par (ou por causa) dos chamados imperativos morais, os valores sociais – quando a moda parisiense do passeio público obriga a regulamentar o acantonamento das mulheres públicas (as prostitutas) para que não sejam confundidas com as pudicas burguesas que deixam o recato do lar –, é um dos aspectos mais interessantes da investigação. Uma referência ainda para as condições sociais e económicas que transformam criadas e costureiras em prostitutas.
Igualmente relevante, o tecido social burguês que transporta, suporta e transforma o fado e o ambiente em que este se desenvolve de boémio em canção nacional, de entretenimento de vagabundos e degenerados a género tocado em salões chiques.
O que se passa, conclui o sociólogo, «é que as transformações que a sociedade portuguesa de finais do século XIX viveu se repercutem em todas as latitudes». No caso da prostituição, as formas economicamente produtivas estão relacionadas com os universos culturais, e com o desenvolvimento do capitalismo no país dá-se uma abertura do mundo da boémia aos meios que o circundam.
Mas como Machado Pais sublinha, diga-se, em abono da verdade, que este não foi um fenómeno específico de Portugal. «Por toda a Europa de finais do século XIX a prostituição começa a ser uma indústria perfeitamente organizada em que participam importantes banqueiros judeus e polacos».

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José Machado Pais
A Prostituição e a Lisboa Boémia – do século XIX a inícios do século XX
Ambar, 18,50€

Uma história de amor em Guernica

Seria apenas uma história de amor – ou várias, se tivermos em conta os casais das várias gerações – não fosse o cenário. E o cenário é de horror, de um horror tão intenso como só Picasso poderia mostrar nessa obra-prima que é Guernica – e até o artista é convocado, seguindo-se-lhe os passos (o raciocínio que comanda a mão) durante a realização desse enorme painel pensado e executado para o pavilhão espanhol na Exposição Internacional de Paris de 1937.
E é o ataque da aviação alemã a Guernica, essa terra perdida no mapa que por azar das suas gentes fica na confluência de caminhos, que condiciona e é a mola impulsionadora do romance histórico que lhe leva o nome.
“Guernica”, livro de estreia do jornalista norte-americano Dave Boling, é um impressionante fresco da guerra civil espanhola que foi também o ensaio geral para a I Guerra Mundial.
É a alma basca, simples mas orgulhosa da sua história e tradição, que Boling homenageia através de uma escrita vigorosa e uma trama bem construída. Os grandes e pequenos passos da loucura e infâmia que foi o ataque a Guernica estão bem presentes, e o autor denota um verdadeiro conhecimento da História e cultura basca, da perseguição sofrida antes mesmo do bombardeamento, enquanto Franco ia ganhando terreno e esmagando os resistentes.
Ao longo de quase meio milhar de páginas (que bem sabe uma história que não se esgota em meia dúzia de páginas!), Boling convoca o leitor a seguir as ingénuas estórias de amor de várias gerações de bascos, que se vão entrelaçando e apenas perdurariam na memória daquelas famílias não fosse a guerra tê-las interrompido abruptamente.
São famílias simples de agricultores, pescadores, marceneiros, até contrabandistas. Enfim, gentes que prezam valores como a honra, a amizade, a liberdade – e que Franco, com a ajuda dos nazis, quis riscar do mapa. Não conseguiu.

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Dave Boling
Guernica
Millbooks, 19,90€

Os fascismos que nos deram

Tema central do século XX, particularmente da primeira metade, o fascismo (como o nazismo) continua na ordem do dia, dadas as tendências manifestadas em algumas sociedades europeias de aceitação de organizações de extrema-direita, racistas e xenófobas. E, curiosamente, com alguns pontos de coincidência nos processos que permitiram a ascensão e instalação dessa direita totalitária há pouco mais de cem anos – em Itália, na Alemanha, mas igualmente noutros países.
Esta obra de Manuel Loff, resultado em livro de uma investigação de doutoramento, não é obviamente de leitura para a maioria das pessoas. Mas poderá ser de muita utilidade, no entanto diminuída pela não inclusão de um índice remissivo, que para um texto de 900 páginas seria de grande utilidade. E mais quando as referências se entrecruzam, ao longo da obra, envolvendo nomes, datas e fontes.
Sobre as fontes e personagens da obra é o próprio autor quem alerta que se trata de um território de análise tão amplo e diversificado, e talvez ambíguo, “quanto o da mentalidade política das elites pode conduzir o investigador a admitir como fontes documentais passíveis de uma análise relevante uma lista infindável de objectos”.
Explica o autor que o tema central do trabalho é o salazarismo e o franquismo, não Portugal e os portugueses, o mesmo acontecendo com Espanha e o franquismo. Tal como prefere a referência ao salazarismo num sentido mais amplo do que o de Estado Novo, explicando que este traduz uma auto-designação adoptada pelos dirigentes do regime, em que a dimensão ideológica se secundariza face à dimensão sistémica e formal.
Uma curiosa verificação pelo investigador é a de que as cartas dirigidas a Salazar por Theotónio Pereira, enquanto embaixador em Madrid, eram sistematicamente amputadas, na transcrição para a série documental do Ministério dos Negócios Estrangeiros. E porquê? Não molestar a figura, o comportamento político e a postura pretensamente neutralista assumida por Franco durante a II Guerra Mundial. E como o faziam? Pasme-se: por omissão pura e simples, ou pela transformação da linguagem e da própria mensagem. Admirava-se alguém da censura que devastava a Imprensa?
Muito interessante o aclaramento do pretenso neutralismo português no conflito, quando Manuel Loff levou um alto responsável inglês a admitir que a prosseguirem as tomadas de posição de Salazar, tal poderia ser “o primeiro passo para a destruição da aliança anglo-portuguesa” e para o “desaparecimento do império português”. No mesmo sentido vai o relato do conflito entre o embaixador português em Londres, Armindo Monteiro – pró-Aliados –, e o Presidente do Conselho. Acabou afastado do cargo e nunca voltou a ter qualquer cargo governamental.
Para que a História não seja branqueada…
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Manuel Loff
“O nosso século é fascista!”, O mundo visto por Salazar e Franco (1936-1945)
Campo das Letras, 36€

Não seja rezingão


Richard Carlson foi considerado um dos maiores especialistas mundiais em Felicidade e redução do stresse, sendo autor de mais de 30 best-sellers.
No seu percurso da escrita sobre desenvolvimento pessoal dscobriu que o maior obstáculo ao nosso aperfeiçoamento espiritual são… os outros.
Neste livro é-nos apresentada uma fórmula de como sobreviver num mundo recheado de gente mesquinha, incompetente, arrogante e mal-intencionada.
É um novo livro da colecção de Desenvolvimento pessoal da Pergaminho que, de uma forma divertida, nos fornece conselhos práticos para lidar com pessoas difíceis.
Num formato simples sobre como melhor lidar com as várias situações do dia-a-dia, este é um bom livro para ser lido, quer pelos rezingões da vida, para melhor perceberem o efeito que causam no resto dos mortais, quer por aqueles que, tendo que lidar com esses mesmos rezingões, desejam agir com eles de uma forma livre de tensões.
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Richard Carlson
Não seja rezingão
Pergaminho, 11€

Defender a língua portuguesa


O escritor Cristóvão de Aguiar traz para o formato livro a sua intervenção na blogosfera. O autor confessa: «nunca gostei de ver a nossa língua maltratada». Mas, nos jornais (e não só) as situações menos correctas são muitas. Começou por corrigir estas falhas recorrentes como autor do blogue A Destreza das Dúvidas.
Esse intenso trabalho passou agora a livro e quem ganha somos todos nós que queremos escrever melhor. São inúmeras as dicas e sugestões que este livro apresenta, sempre com o rigor e simplicidade. Útil, conciso, directo.
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Cristóvão de Aguiar
Charlas sobre a Língua Portuguesa
Almedina, 12€

Bernardo Carvalho | O Filho da Mãe


1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «O Filho da Mãe»?
R- Ainda não tenho a distância suficiente do livro para poder responder a essa pergunta. No geral, me parece que esse romance segue falando das mesmas questões que assombravam os anteriores, mas de uma forma diferente. E isso, principalmente, pelo uso do narrador em terceira pessoa, que antes eu não usava, por preconceito, por achar que era uma convenção ultrapassada. Em “O Filho da Mãe”, entretanto, eu acabei me permitindo usar esse narrador que, se não é propriamente onisciente, pelo menos vê tudo de fora, como um espectador de cinema, e acho que isso me deu muito mais liberdade do que nos livros anteriores. Acho que é um livro sem preconceitos literários, sem medo de ser sentimental.

2- Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R- O livro faz parte de um projeto concebido por um produtor de cinema, Rodrigo Teixeira, que convidou 16 escritores brasileiros a passar um mês em várias cidades do mundo e voltar com uma história de amor, que eventualmente seria transformada em filme. Por contrato, eu tinha que escrever uma história de amor que se passasse em São Petersburgo. É, portanto, um livro de encomenda. Não escolhi a cidade. Não falo russo nem nunca tive nenhum outro contato com o mundo russo além do que conheço pela literatura, pela música, pelo cinema e pelas artes plásticas. Quando me fizeram o convite, comecei a ler muito sobre a Rússia atual, mais livros de jornalismo e história do que literatura. E foi aí, pelos livros da Anna Politkovskaya, que acabei descobrindo o Comitê das Mães dos Soldados, uma ONG criada pelas mães dos soldados russos para salvar os filhos da guerra e dos maus-tratos do exército, e compreendi que havia naquilo um potencial dramático incrível. A partir desse momento, tudo começou a girar em torno da relação entre mães e guerras.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Acabei de publicar o livro. Tenho alguns projetos, que ainda estão muito incipientes. De qualquer jeito, desta vez todos os personagens serão brasileiros. Estou pensando em escrever um romance que tenha que ver com a idéia e a prática da justiça.
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Bernardo Carvalho
O Filho da Mãe
Cotovia, 12€

À espera do Acordo Ortográfico


O acordo ortográfico é polémico e vai causar muitas dúvidas sobre como continuar a escrever em bom português.
Para lá da discussão, importa perceber quais as mudanças mais significativas que estão previstas. Nesse âmbito, surgiram alguns guias de grande utilidade.
A Editorial Caminho lançou um vocabulário com as palavras que mudam, organizadas por ordem alfabética. Acresce ainda explicação breve e concisa sobre as novas regras.
A Porto Editora lançou um novo Dicionário de Língua Portuguesa já em consonância com as alterações introduzidas pelo acordo ortográfico. E lançou ainda um pequeno Guia Prático com as novas regras.
Agora, em caso de dúvida, basta consultar. Com estas três ajudas, será muito mais fácil.
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Acordo Ortográfico-Guia Prático
Porto Editora, 4,90€
Dicionário de Língua Portuguesa 2009
Porto Editora, 44,90€
Vocabulário-As Palavras que Mudam com o Acordo Ortográfico
Editorial Caminho, 12€

Ruy Duarte Carvalho | A Terceira Metade


1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «A Terceira Metade»?
R-....... permito-me, pela primeira vez, que que um livro meu apareça com a etiqueta explícita de “romance”, depois de muita escrita de poesia, ensaio, narrativa e mesmo ficção....... e é também a primeira vez que me atrevo a dar voz a um protagonista que habita uma pele que não é, explicitamente, a minha.......

2- Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R- ...... a de insistir, na sequência de Os Papéis do Inglês e de As Paisagens Propícias, em tratar literariamente, em língua portuguesa e através de uma certa ficção, questões comuns a todos os tempos e ao mundo inteiro no tempo e no lugar muito particulares e marcados em que as aprendi e apreendi vivendo, quer dizer, no sudoeste do continente africano e durante as últimas décadas......

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- ...... neste momento não estou propriamente escrevendo nada, estou tomando notas, fisgando ideias, perseguindo experiências, urdindo delírios, procedendo a leituras, recolhendo materiais, fotografando, desenhando e fazendo viagens com vista a acometer, dentro de alguns meses, a escrita de um novo livro de meia-ficção que poderá vir a ser também o roteiro de um filme que outrem rodará, talvez....
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Ruy Duarte Carvalho
A Terceira Metade
Cotovia, 28€

As Lolitas de Marsé

É um livro duro, brutal e violento como só o pode ser a história de vidas cansadas, perdidas, sem esperança e pobres. Pobres materialmente, é certo, mas especialmente no mais recôndito da alma, quando a confiança nos homens há muito morreu e da fé em dias melhores nada mais resta – nem em sonhos. Mas é também um livro comovente, de uma ternura infinita, em que os sentimentos mais espontâneos se cruzam (chocam?) com o que há de mais animalesco nos homens, provocando uma dor infinita – como quem deita álcool numa ferida aberta.
Falamos de “Canções de Amor em Lolitas’s Club”, em que o já muito premiado Juan Marsé prova até à exaustão que é um excelente contador de histórias e um mestre a tecer uma trama de sentimentos nas situações mais improváveis – mas com um realismo inquietante.
Sem pieguices nem crueldade, Marsé faz o leitor entrar de rompante pelas portas do Lolita’s Club, esse bar de alterne nos arredores de Barcelona que poderia ser em Lisboa, onde mulheres jovens já muito velhas aguardam os clientes com um sorriso pintado, um poiso na rota migrante da prostituição.
E fá-lo seguir essa história improvável de amor entre Milena, a jovem prostituta colombiana, e Valentín, um adulto de 30 anos que um problema no parto deixou sempre criança, uma criança grande que circula entre o bar e os quartos do andar de cima, cozinha pizzas e faz recados às raparigas.
Marsé traz ainda a esta história de amor nascida das misérias quotidianas da contemporaneidade o gémeo de Valentín, Raúl, um polícia duro e violento, perturbado e alcoolizado. Afastado da brigada enquanto decorre um inquérito à sua conduta em Vigo, Raúl refugia-se na casa paterna e descobre com estupefacção o romance entre o irmão e a prostituta. Desenvolve-se então um remoinho de sentimentos e acções que Marsé conduz magistralmente até às profundezas turvas da vida e da morte.
“Canções de Amor em Lolitas’s Club” é o mais recente romance de Juan Marsé, nascido em Barcelona em 1933, que em Abril foi galardoado com o Premio Cervantes de Literatura 2008.

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Juan Marsé
Canções de Amor em Lolitas’s Club
Campo das Letras, 15,75€

FEIRA DO LIVRO DO PORTO 2009

A Feira do Livro do Porto regressa à baixa da cidade.
De acordo com a APEL, os «novos pavilhões permitirão que a Feira funcione com harmonia estética, como um todo, com uma envolvência em relação à cidade talvez nunca antes conseguida».
Este ano, a Feira do Livro do Porto decorrerá entre 27 de Maio e 14 de Junho e com novidades também ao nível do horário de funcionamento: de segunda a sexta abrirá às 12,30h; no fim-de-semana, abrirá logo às 11h.
Com este sistema, espera a APEL que o certame esteja mais e melhor adaptado «aos novos ritmos citadinos de trabalho e lazer, permitindo a visita à hora de almoço e a participação de grupos escolares».
Finalmente, destaque para as actividades dirigidas ao público infanto-juvenil e para as múltiplas iniciativas de animação cultural centrada no livro e na leitura a desenvolver no auditório central e nas novas esplanadas.
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O quê: Feira do Livro do Porto
Onde: Praça da Liberdade e Avenida dos Aliados
Quando: 27 de Maio a 14 de Junho de 2009

Jorge Pereira | Are You Ladrating To Me?


1- De que trata este seu livro?
R- Tentar explorar, de uma forma humorística, os pequenos detalhes do dia-a-dia, que normalmente não temos tempo para observar. Desde a contestação a ditos populares, como "nascer com o cu virado para a lua" ou "café com cheirinho", passando pelas visões antagónicas que homens e mulheres têm de assuntos aparentemente consensuais, tudo serve para o Rafeiro Perfumado dissertar e, sempre que pode, ladrar até que as cordas vocais lhe doam.

2- De forma resumida, qual a principal ideia que espera conseguir transmitir aos seus leitores?
R- Tal como no blog, conseguir com que os leitores se revejam nas situações que descrevo e, acima de tudo, que tenham consciência que um bom sentido de humor começa na arte de aprendermos a rir de nós mesmos.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Continuo a escrever no Blog, em formato quase semanal, sendo que são esses textos que servem depois de base a estas compilações em papel.
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Rafeiro Perfumado (Jorge Pereira)
Are You Ladrating To Me?
Bizâncio, 12€

Blogue do Autor: http://www.rafeiroperfumado.blogspot.com/

As vozes dos trabalhadores

A produção sociológica em Portugal é cada vez mais extensa, embora nem sempre os seus resultados cheguem ao conhecimento do grande público, independentemente do interesse geral da investigação. Por isso é de louvar a publicação de um desses estudos em livro, transpondo, dessa forma, os muros da academia.
Vem isto a propósito do mais recente volume da série Trabalho e Sociedade, uma parceria entre o Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra e a editora Almedina. Da autoria dos sociólogos Hermes Augusto Costa e Pedro Araújo, o livro “As Vozes do Trabalho nas Multinacionais” analisa, como o subtítulo da obra indica, o impacto dos Conselhos de Empresa Europeus (CEE) em Portugal, valorizando a visão dos representantes portugueses nessas instâncias.
O livro reflecte a longa investigação sociológica dos investigadores do CES sobre a experiência portuguesa no âmbito dos CEE’s, instituídos pela Directiva 94/45/CE com o objectivo de oficializar (impor) a criação de mecanismos de informação e consulta transnacionais de trabalhadores, respondendo assim ao peso cada vez maior das multinacionais no tecido laboral e, por via dessa alteração, ao crescente défice de representação dos trabalhadores nas organizações.
O estudo, que incluiu trabalho de campo com entrevistas aos representantes dos trabalhadores portugueses nos CEE e a realização de inquéritos às entidades patronais, apresenta diversos ângulos, nomeadamente a dimensão quantitativa dos CEE’s; a expressão da aplicação da Directiva; a constituição formal e o funcionamento dos CEE’s; a negociação de acordos e a eficácia dos CEE’s no que diz respeito ao cumprimento dos objectivos plasmados na Directiva.
«(…) Constatámos, entre vários outros pontos, que a Alemanha, a França e o Reino Unido são os países da UE-27 com maior número de multinacionais abrangidas pela Directiva e, simultaneamente, aqueles que estabeleceram o maior número de CEE’s; que os sectores de actividade onde existem mais CEE’s constituídos são o metalúrgico (34,3%) e o Químico (23%); que o número de representantes portugueses eleitos e/ou nomeados para ocupar lugares em CEE’s é de 201; que apenas sete multinacionais com sede em Portugal preenchem as condições para o estabelecimento de CEE’s; e que apenas uma dessas, o Grupo Banco Espírito Santo, constituiu um CEE», referem os autores nas considerações finais.
Quanto aos objectivos fundamentais dos CEE’s – a informação e a consulta –, a maioria dos representantes dos trabalhadores portugueses considera que o Comité permite realmente um maior acesso à informação, especialmente sobre a actividade da multinacional e os seus problemas, mas essa informação é muito limitada a nível local. Já no que diz respeito à segunda premissa, o desalento é praticamente geral: ineficácia da consulta e incapacidade de influenciar a decisão. Ou seja, só excepcionalmente as informações são transmitidas e discutidas antes da tomada de decisão, «o espaço para consulta é praticamente residual».
Um problema que, constatam os investigadores, «se vê agravado pelo facto da Directiva não prever quaisquer sanções no caso de as administrações não cumprirem o estipulado nos acordos».
Para os representantes dos trabalhadores portugueses, uma das mais-valias dos CEE’s é tornar visível, através da troca de experiências laborais, as desigualdades nas condições de trabalho e salariais, levando-os a percepcionar os comités como «uma alavanca através da qual as condições de trabalho podem vir a ser niveladas a seu favor».
«Se os CEE’s parecem particularmente eficazes para resolver questões ligadas às condições de trabalho, nomeadamente em termos de saúde, higiene e segurança no trabalho, já as questões salariais se encontram arredadas dos tópicos de questões objecto de informação e consulta», referem os sociólogos, ressaltando que a capacidade de intervenção dos CEE’s decresce quando se trata de questões como reestruturações ou deslocalizações.
Também realçado pelos representantes portugueses é o facto de os CEE’s permitirem o acesso a um patamar de decisão superior, «constituindo os CEE’s espaços privilegiados para a resolução informal de problemas locais».
Ainda no âmbito das possibilidades práticas dos CEE’s encontra-se a solidariedade transnacional, um aspecto importante mas pouco explorado e no qual os portugueses deviam investir mais.
«É igualmente necessário que os CEE’s deixem de funcionar como caixas de ressonância dos (fundados) receios e clivagens locais e nacionais e se assumam efectivamente como instituições incontornáveis na construção do diálogo social transnacional», concluem Hermes Augusto Costa e Pedro Araújo.

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Hermes Augusto Costa e Pedro Araújo
As Vozes do Trabalho nas Multinacionais – o impacto dos Conselhos de Empresa Europeus em Portugal
Almedina/CES, 16€

Prémio Vergílio Ferreira para Mário de Carvalho


Mário de Carvalho é o escritor premiado com o Prémio Literário Vergílio Ferreira – Consagração.
O prémio foi anunciado na abertura dos Ciclos Vergilianos que durante dois dias concentraram investigadores, docentes e estudiosos da obra de Vergílio Ferreira, em Gouveia.
A escolha de Mário de Carvalho foi efectuada por um júri composto pelos Professores Luís Guerra e José Alberto Machado em representação da Universidade de Évora, pelo Professor José Carlos Seabra em representação da Universidade de Coimbra e pelo Professor Joaquim Lourenço Vereador da Câmara Municipal de Gouveia tendo por base o percurso e a obra do escritor, conforme comunicado do Município de Gouveia.
Este prémio é uma parceria entre o Município de Gouveia e a Universidade de Évora que no presente ano cooperam na atribuição deste prémio literário no valor de 5 mil euros.
A entrega do prémio decorrerá no dia 20 de Junho, pelas 15h30, com a presença do escritor, em sessão a realizar na Biblioteca Municipal Vergílio Ferreira em Gouveia.
Mário de Carvalho nasceu em 1944, em Lisboa.
Licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa em 1969. Desde jovem que se envolveu na luta antifascista, tendo estado preso ainda na década de 60 e durante o serviço militar. A sua luta política leva-o ao exílio, primeiro para a França , depois para a Suécia, em 1973. Após o 25 de Abril regressa a Portugal.
A sua estreia literária dá-se em 1981, tendo desde aí publicado regularmente numa grande diversidade de géneros: romance, drama, contos, guiões.
A sua escrita é extremamente versátil e torna-se impossível incluí-lo numa escola literária. A crítica considera-o um dos mais importantes ficcionistas da actualidade e a sua obra encontra-se traduzida em vários países (Inglaterra, França, Grécia, Bulgária, Espanha, etc).
Recebeu diversos prémios, entre os quais o Grande Prémio da APE (romance) 1995, o Prémio Fernando Namora 1996 e Prémio Pégaso de Literatura do mesmo ano com o livro Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde.
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Obras publicadas por Mário de Carvalho

-Contos da Sétima Espera, 1981
-Casos do Beco das Sardinheiras, 1981
-O Livro Grande de Tebas, Navio e Mariana, 1982
-A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho, 1983
-Fabulário, 1984
-Era Uma Vez Um Alferes, 1984
-A Paixão do Conde de Fróis, 1986 (Prémio Dom Diniz)
-Os Alferes, 1989
-Quatrocentos Mil Sestércios seguido de O Conde Jano, 1991 (Grande Prémio APE-Conto)
-Água em Pena de Pato. Teatro do Quotidiano, 1992
-Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, 1994 (Prémio Romance e Novela APE/IPLB; Prémio Fernando Namora, Prémio Pégaso de Literatura; Prémio Literário Giuseppe Acerbi)
-Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto, 1995
-Apuros de Um Pessimista em Fuga, 1999
-Se Perguntarem Por Mim, Não Estou seguido de Haja Harmonia, 1999 (Grande Prémio APE-Teatro)
-Contos Vagabundos, 2000
-Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina, 2003 (Prémio PEN Clube Português Ficção; Grande Prémio de Literatura itf/dst)
-A Sala Magenta, 2008

Pedro Braga Falcão | Do Princípio

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Do Princípio»?
R- O livro «Do Princípio» significa exactamente o seu título. É o primeiro livro que publico. Além disso, gosto da polissemia, dos diversos sentidos latentes nesta expressão. No contexto da minha poesia, este livro resulta da selecção de três ciclos que foram escritos em fases diferentes da minha vida, «Odes de uma Jovem Ausência», no ano de 2005, «A Arte da Fuga», em 2007, e finalmente «O Monólogo de Cassandra», em 2008. Apesar de ter bastante mais poesia escrita, considerei que estes três livros de certa forma consistiam num todo, que pretende mostrar fases diferentes por que naturalmente um poeta passa ao longo do seu crescimento como pessoa e autor, especialmente no caso de um homem ainda jovem, como eu sou. Publicar um livro, especialmente um primeiro, provocou-me sentimentos ambíguos. Quando o vi impresso, foi dos momentos mais felizes da minha vida. Os dias que antecederam e que sucederam a esse momento foram de intensa agonia. A minha intenção quando escrevo não é, à partida, publicar. Obedeço-me, simplesmente. Daí que este livro seja à partida uma traição a mim próprio: é doloroso ver-me assim tão desprotegido naquelas páginas. Porque o fiz? Talvez por esse momento em que entrei na Cotovia e vi as minha letras espalhadas num papel que já não me pertencia. Lembrar-me-ei para sempre desse sentimento. É extraordinariamente verdadeiro. Gostava de poder dizer que foi por simples generosidade que o fiz, mas muito sinceramente não sei ser crítico da minha própria criação, que tem para mim um valor que nunca terá para ninguém. Que alguém possa sentir num verso por mim escrito a força que as palavras têm em unir-se; é essa, julgo, a intenção mais altruísta deste princípio.

2- Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R- Como já referi, o livro consiste em três ciclos diferentes, e portanto não existe uma só ideia que lhes presida aos três ciclos. Não consigo precisar que ideia, se é que ela existe, está na origem de cada um destes três livros. Em relação às «Odes de uma Jovem Ausência», muito sinceramente, considero que não interessa fazê-lo. Talvez ajude na «Arte da Fuga» se o leitor atentar nas pessoas dos verbos. Uma possível «ideia» deste ciclo passa por aí. Em relação ao último, «O Monólogo de Cassandra», posso precisar o que me levou a escrevê-lo. O livro nasceu alguns anos antes de ser escrito, numa aula de Literatura Grega, com o grande mestre Pedro Serra, que no seu discurso sinfónico falava de Cassandra, a desgraçada sacerdotisa que, por castigo divino, foi amaldiçoada com o dom de prever a verdade, mas sem que nunca alguém lhe acreditasse. Pouco depois olhava para o rosto de uma grande amiga minha, que fora minha professora de História, e que por acaso encontrara na faculdade e convidara para assistir a esta aula. Estavam cobertos de lágrimas os seus olhos claros. Foi pelo mito e por esses olhos que escrevi este ciclo. E também por uma outra Cassandra de si própria, e ainda por todos os homens que na verdade ou na mentira se julgam Cassandra.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Depois de «Cassandra» já tenho outras coisas escritas; de momento escrevo um ciclo que eu considero «de estudo», que procura explorar o ritmo sincero da língua. Fujo um pouco ao sistema métrico convencional; prefiro criar a minha própria poética, com base nos meus estudos não só linguísticos e literários, mas também musicais. Há ainda muito para explorar no som da nossa própria língua. Enfim, como disse, são apenas estudos, e por enquanto não me sinto verdadeiramente feliz com os resultados. Não que o esteja em relação a todos os meus poemas mais «espontâneos», digamos assim. Gosto de trabalhar os versos apenas até a um razoável limite, que coincide quase sempre com a minha incapacidade de fazer melhor ou com a física destruição dos mesmos. Humana condição.
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Pedro Braga Falcão
Do Princípio
Livros Cotovia, 13€

A. M. Pires Cabral | Arado


1 - O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Arado»?
R - Representa um reaproximar da minha poesia daquele que foi o seu espaço de inspiração original: a realidade nordestina. Como se me estivesse preparando para fechar completamente o círculo. Só que, desta vez, a poesia saiu-me complicada com outro tipo de considerações, metafísicas e escatológicas, que no primeiro livro (Algures a Nordeste, 1974) ou não estavam presentes, ou estavam apenas em embrião.

2 - Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R – Essa mesmo de que acabei de falar: fechar o círculo, acomodar-me à terra, reaproximar-me da matriz telúrica e cultural. Para, com infinito desalento, verificar que essa raiz está em vias de secar. Daí o tom elegíaco do livro que alguém já notou.

3 - Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R – De momento, estou de pousio (termo do Nordeste que se aplica às terras que não foram semeadas e aguardam oportunidade de o serem). Amanhã logo se vê. De todo o modo, o computador não está inactivo: tenho alimentado o bichinho, juntando mais uns quantos verbetes ao dicionário de regionalismos trasmontanos que ando há décadas a elaborar aos poucos, quando tenho uma nesgazinha de vagar. Dicionário esse que também é, à sua maneira, uma elegia ao Nordeste que foi.
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A. M. Pires Cabral
Arado
Livros Cotovia, 13€

António Pinto Ribeiro | À Procura da Escala

1- De que trata este seu livro?
R-É um conjunto de cinco ensaios de análise e de problematização de aspectos da Cultura Contemporânea; os aspectos mais focados são a produção nas artes, a relação das cidades coma cultura e com os seus habitantes segundo os novos modos de viver em comunidade, a relação cultural dos actores políticos e culturais europeus com África e, finalmente, um destaque é dado às condições de produção, de criação e de difusão da cultura em Portugal desde o 25 de abril de 1974

2- De forma resumida, qual a principal ideia que espera conseguir transmitir aos seus leitores?
R-que aquilo que se designa como cultura é uma actividade complexa, que implica disputa de territórios, choques, conflitos, mercados a par de ser um aspecto da vida fundamental para o progresso da humanidade e conhecimento do humano.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-estou a escrever um longo ensaio sobre memória e conflito.
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António Pinto Ribeiro
À Procura da Escala
Cotovia

A Mula


Apesar de não ser propriamente uma novidade em Espanha, chegou recentemente a Portugal “A Mula”. O romance de Juan Eslava Galán, publicado pelo Quinto Selo, tem como cenário a guerra civil espanhola. O grande protagonista de toda a acção é Juan Castro Pérez, um cabo arrieiro da Terceira Companhia da Falange das Canárias, pai do escritor.
A obra é muito realista e roça muitas vezes na veracidade histórica, pois o romancista espanhol reuniu, numa perfeita combinação de ideais e acontecimentos, factos memoráveis baseados em conversas tidas entre ele e o seu próprio pai, a quem ele dedica o livro. E para dar mais veracidade espacial, Galán fez também questão de visitar alguns dos locais descritos pelo pai para dar mais autenticidade aos cenários retratados, não fosse ele um historiador com provas dadas.
Tudo começa quando Juan Pérez que, em vez de ficar a jogar às cartas na caserna, resolve ir para o campo apanhar espargos. De repente, ouve um barulho saído do meio da bruma no monte. De mão na arma, não fosse tratar-se do inimigo, qual não é o espanto deste herói quando percebe que se trata apenas de uma simples mula, com dentes grande e amarelos. Apesar de muito nervosa, rapidamente percebe que o militar não lhe quer fazer mal. Aliás, o facto de Juan Castro Pérez ser o responsável pelas cavalgaduras do regimento facilitou a aproximação entre os dois. De voz suave, o herói lá conseguiu convencer a mula que estava ali numa de paz e amor. Aparentemente sem nome, e por se apresentar muito valente, rapidamente foi baptizada de Valentina.
A paixão pelo animal é de tal ordem que ganhar a guerra civil passa a ser menos importante do que a sorte da sua mula. Por isso, um dia, quando ela desaparece, Juan Castro parte à sua procura, e, sem se aperceber, entra em terreno inimigo, tornando-se um herói de guerra.
Este livro é, sem dúvida, um manifesto anti-belicista, e junta-se a mais de meia centena de obras já publicadas por este ensaísta e tradutor de grande revelo e protagonismo.
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Juan Eslava Galán
A Mula
O Quinto Selo, 15,00 €

Descalças


Este é um romance recomendado a todos os apreciadores de literatura romântica. A informação vem bem estampada na capa. “Descalças” de Elin Hilderbrand é um dos romances de maior sucesso destinado, essencialmente, a mulheres. O Título, por si só, já nos dá algumas indicações do seu interior. Quando olhei para ele, lembrou logo a obra do escritor Domingos Lobo, intitulada “Pés Nus na Água Fria”. Sinceramente não há coisa mais desagradável do que ter os pés em água fria.
Em “Descalças” mergulhamos na história e ficamos presos nela do princípio ao fim. Decorria o mês de Junho quando três mulheres saem do avião com duas crianças. Até aqui tudo parecia normal, até que por perto se encontra Joshua Flynn, de 22 anos de idade. A jovem estudante de escrita criativa, que se encontrava a trabalhar no Nantucket Memorial Airport, por intermédio do pai - um controlador aéreo que parecia querer controlar mais a filha do propriamente o espaço aéreo - tinha por princípio que um bom escritor farejava uma boa história “como se fosse a aproximação de uma tempestade”.
Pela frente, a futura escritora deparou-se com estas três mulheres que apresentavam, aparentemente, alguns problemas emocionais, facto que lhe chamou a atenção. É aqui que se começa a desenrolar toda a acção da obra. Num discurso indirecto livre, os diálogos compõem a narrativa como se fosse um puzzle onde tudo se encaixa perfeitamente. Em cena temos Vicki, mãe de dois rapazes, vítima de doença grave; Brenda, irmã de Vicki, uma professora universitária no desemprego. Ao ter tido um caso com um estudante foi despedida. E Melanie, amiga as manas, consegue engravidar (após várias tentativas falhadas de fertilização in vitro), mas agora descobre que o marido anda com outra. São três desgraças e uma mão cheia de lamentos que partilham com mágoa. Pelo caminho, cruza-se a Joshua, que lhes mudará a vida. Apesar de comovente, a leitura de “Descalças” envolve-nos.
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Elin Hilderbrand
Descalças
O Quinto Selo, 22 €

Uma improvável história de amor

Louis de Bernières volta a surpreender com uma história de amor, daquelas que ele tão bem sabe contar como provou já no belíssimo “O Bandolim do Capitão Corelli” (que John Madden desperdiçou na adaptação ao cinema, apesar de contar com as interpretações de Nicolas Cage e Penelope Cruz).
“A Filha do Partisan” (Publicações Europa-América, €16,99) é quase como uma história das “mil e uma noites” dos tempos modernos, com uma jovem prostituta a conservar o improvável interesse de um homem de meia-idade e de “classe média” devido às suas histórias (verdadeiras? Inventadas?) e assim prolongando as visitas quase diárias a sua casa.
Mas apesar de na Londres nos anos 70 não faltar liberdade sexual, não é o contacto físico que mantém viva esta estranha relação. A vida de Chris tem tudo o que é o necessário para ser desinteressante e maçadora: uma mulher que há muito deixou de o ver, uma filha adulta e um emprego rotineiro. Como resistir a uma bela jovem nascida em Belgrado, filha de um apoiante de Tito e com tantas e tão fascinantes estórias?
Bernières, que publicou o seu primeiro livro em 1990 e três anos depois era já considerado pela Granta como um dos 20 melhores jovens romancistas britânicos, não desilude com este livro. Não só pelo enredo como pelo próprio discurso narrativo, que se desenvolve em dois períodos temporais e através de duas histórias paralelas – ou melhor, a mesma história contada por cada um dos personagens. Um recurso estilístico que resulta lindamente e prende completamente a atenção do leitor.
Louis de Bernières venceu já vários prémios literários, nomeadamente o Commonwealth Writers' Prize for Best Novel com “O Bandolim do Capitão Corelli”, enquanto “Pássaros sem Asas” foi finalista do Whitbread Novel Award em 2004 e do Commonwealth Writers’ Prize em 2005. Em Portugal tem ainda publicado “O Cão Vermelho”.
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Louis de Bernières
A Filha do Partisan
Publicações Europa-América, 16,99€

História em molho de especiarias

Veneza, Lisboa e Amesterdão foram as três cidades escolhidas por este historiador para chegar ao comércio das especiarias, o que lhe interessava. Foi uma aventura, como lhe chama no prefácio, que o levou a comer em casa de plantadores indianos de pimenta, ir à conversa com venezianos descendentes dos príncipes venezianos, aventureiros holandeses e marinheiros portugueses.
Aprendeu muito, no campo prático, como quando, por exemplo, foi levado aos campos e viu como se colhe e limpa o gengibre; entendeu as razões que levaram tanta gente, alguns especialistas, a dizerem e escreverem disparates. Pura preguiça, em muitos casos, desprezo pela história da comida e da culinária, noutros.
Antes de deslocar-se a qualquer das três cidades-charneira da investigação, o autor dedicou-se ao caso de St. Albans, uma antiga cidade inglesa de peregrinação, ao encontro da comida de um senhor feudal, um fantasma medieval. Um restaurante, em suma, em que pairam “aromas de especiarias doces e picantes”, especializado que é em comida balti, um tipo de comida sul-asiática originária do Baltistão, em tempos identificado com o Xangri-Lá.
Aqui, à mesa com uma travessa de guisado de borrego picante, o historiador sente como seria interessante sentar ali alguns académicos para que “compreendessem como é perfeitamente verosímil o relato medieval acerca do incrível uso de quase um quilo de especiarias num único banquete”.
E se eram caras, as especiarias! O autor recorda em abono do elevado preço as origens míticas do produto, mas sobretudo o dinheiro que se podia ganhar ao comprá-las num sítio e vendê-las noutro. “Sempre que a pimenta mudava de mãos, sempre que passava por uma alfândega ou era sujeita a impostos, o seu preço disparava”, escreve. E havia lucro substancial de um comerciante e dos próprios Estados.
Para se ter ideia dos lucros proporcionados por este comércio, basta considerar que os venezianos obtinham receitas líquidas confortáveis mas não exageradas de 40%, o que significava o dobro dos lucros dos banqueiros florentinos à época. Quanto aos portugueses, regista, podiam obter lucros de 150% ou mais na comercialização em Lisboa da pimenta que compravam no sul da Índia.
Não é preciso mais para entender os porquês da primeira grande globalização da História, e, eventualmente, compará-la com esta segunda, a nossa, com negócios de outras “pimentas” que igualmente multiplicam preços com a travessia dos oceanos.
Bom apetite e não abuse do picante, caro leitor!
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Michael Krondl
O sabor da conquista – ascensão e queda das três grandes cidades das especiarias
Edições 70, 19,90€

EM PRIMEIRA MÃO: "A Dama Negra da Ilha dos Escravos" de Ana Cristina Silva

Leia, em exclusivo, o primeiro capítulo de:

I

E se, ao chegar ao paraíso, Deus for preto? Esta imagem, de tão ímpia, dá vontade de rir. Não te benzas, Lourença. Não há necessidade de fazer má cara. Que horas são? Aproxima-se a hora da janta. Pede a Maria das Chagas que te traga comida ao quarto. Suplico­-te, minha doce sobrinha, hoje não te vás embora para a tua casa. Gostaria que permanecesses comigo a noite inteira. Traz aquela cadeira para junto da cama e senta-te. Providencia também uma manta porque as noi­­tes ainda estão frias. Quero contar-te tudo antes da chegada do fim das coisas. A urgência deste tempo que se esgota arrasta-me para um excesso de dúvidas sobre o que fiz da minha vida.
Dizes que ninguém pode saber quando se morre. Dizes bem, minha sobrinha, mas na tua idade todas as palavras sobre a morte abusam dos lugares-comuns. Podes vir a morrer de amor, sentires­-te a morrer de tédio ou simplesmente estares a morrer de sono, mas, ao empregares esse verbo com tamanha leviandade, usa-lo de facto inspirada por uma forma de vida. Já não disponho de muito tempo. Estou ciente de que em cada batida do meu coração há uma aproximação à morte.
Ainda não há muito, quando pensava no meu próprio fim, fazia­-o como um piloto despreocupado quanto a si mesmo, temendo mais pela sorte dos passageiros desta casa do que pelo meu destino. Julgava-me preparada para enfrentar a gadanha da morte, mas na verdade mentia a mim mesma, ainda que com mentiras exactas à sua maneira. Há anos que me esforço por coordenar os pensamentos com as fraquezas de uma idade avan­çada. Tento infundir no meu espírito uma certa anuência à inevi­­tabilidade da minha partida. Mas não me conformo! Fui acaute­lando os preparativos para a morte, organizei tudo menos a minha própria vontade. As meditações sobre a vida não ajudam a morrer, podendo mesmo tornar a saída mais difícil. Sobretudo quando, ao refazeres em espírito os caminhos per­corridos, não dispões de cer­­teza alguma sobre se o que aconteceu foi realmente idêntico ao que desejaste que tivesse acontecido.
Durante a tarde escutei os salmos consoladores das boas freiras que, na antecâmara, têm velado piedosamente a minha agonia. Se elas conhecessem verdadeiramente quem foi D. Simoa... Pelo menos já se retiraram para o seu convento para rezarem as vésperas. Ao escutar as suas orações, invade-me uma saudade profunda como o mar. Se não fosse razão de escândalo, mandava chamar as escravas da cozinha e pedia-lhes que dançassem para mim ao som de tam­bores. Sinto vontade escutar as vozes da minha infância, aqueles coros de vozes negras que se elevavam no terreiro da sanzala, subindo ainda mais para soarem em ritmos sucessivamente mais inebriantes. Não me olhes assim, Lourença, nem fales comigo nesse tom tão baixo. Ainda não estou morta...
Nasci preta, mas as vozes do povo de Lisboa asseguram que a minha alma de tão pura só poderá ser branca. Como se um espírito, a despeito da ausência de substância, pudesse mesmo assim pro­jectar uma categoria racial. Sou descendente de príncipes negros do reino do Benim, mas consegui que os mais altos dignitários bran­cos deste reino se vergassem a meus pés. Fiz na minha vida coisas mara­vilhosas. Porém, sobretudo nestas últimas semanas, tem pairado sobre mim o espírito de um fantasma arrependido, que me repete obsessivamente que terei atraiçoado o mais importante.
É curioso notar como, ao envelhecermos, o tempo deixa de se reger pelo calendário normal e os dias, revolvendo fundo a memó­­ria, se põem a deslizar ao encontro de um passado remoto. Os inci­dentes do quotidiano parecem-me menos reais e bem menos rele­vantes do que as recordações da minha infância em S. Tomé. À primeira vista, a criança robusta que corria nas roças de açúcar do meu avô prossegue ainda, correndo velozmente. A imagem de mim em menina parece-me bem capaz de continuar a percorrer muito mato. Quase acredito que possa ser assim, mas essa possibilidade não é mais do que uma prece, como se Deus pudesse ainda laborar um secreto milagre. Por isso te suplico, Lourença, acende mais umas velas e fica comigo esta noite. Antes de todas as palavras serem devo­­radas pela planura do silêncio, talvez uma resposta desperte devagar e se alimente das histórias que te vou contar.
Como eu desejava ver de novo a ilha, inebriar-me uma derradeira vez com o seu aroma. Em nenhum outro lugar a terra exala essa mis­tura de odores a chuva e a espessa argila, cuja recordação ainda me invade os sentidos. A ilha de S. Tomé apresenta uma tonali­­dade única. A terra é de cor avermelhada e amarela, gorda com greda forte. Lá as árvores nunca perdem a folha, são enormes e variadas, muito grossas, direitas e altas. De todo o lado, para grande proveito dos olhos, se avistam florestas cerradas, com árvores que parecem tocar o céu e campos onde os deuses foram acrescentan­­do paisagens imaginadas para demonstrar todas as cores do mundo. A luz também é diversa, porque o sol tem de atravessar um longo céu carregado de neblina. Na fazenda de Rio do Ouro de meu avô, vi muitas vezes o sol a debater-se por entre a densidade das nuvens, investindo lentamente contra o cume do Pico do Mocambo. Pensei várias vezes que o sol atravessava os céus à procura dos locais onde o ar era mais límpido. A terra avermelhada de S. Tomé é o lugar do meu nascimento, pois foi lá, na ilha dos escravos, que lancei o meu primeiro olhar inteligente sobre as coisas.
Sobre o cenário da ilha sobrepõem-se imagens remotas, em difusas refracções da memória. Recordo o moinho de açúcar da roça de Rio do Ouro rodando interminavelmente ao ser movido pela pul­sação regular das águas da ribeira. Imagens evanescentes onde o tempo retrocede. Os escravos trabalham arduamente, exibindo dorsos nus, cintilantes de suor. Moem a cana, deitam o suco em cal­deiras grandíssimas. Após fervido, irão lançar o suco sob a forma de pães gigantescos para de seguida o purificarem com cinzas. Passando das horas aos dias, o tempo prolonga-se na monótona repetição dos mesmos gestos pelos escravos, que refazem as mes­míssimas tarefas de sol a sol. Bruscamente, o cansaço podia trans­formar-se em agonia, quando o feitor do avô se lembrava de dilacerar as costas de um deles com o chicote.
O tempo detém-se nestas imagens que acompanham a minha infância. Crescem as incoerências da memória e as personagens mis­tu­­ram-se, mas lembro-me bem daquela tarde, teria eu quatro anos, em que vi um dos escravos cair desfalecido, arquejando de bar­riga para baixo, sem forças. O feitor aproximou-se de chicote em riste, arremetendo contra ele, como se cada vergastada fosse uma vin­­gança pela sua própria condição de desterrado naquela maldita ilha. O negro não fez o menor esforço para se levantar, dando ideia de procurar na morte um abrigo para se libertar dos seus infortúnios. Estabeleceu-se um silêncio tenso quando o feitor finalmente se afas­­tou. Uma escrava, talvez uma das suas mulheres, debruçou-se sobre o homem ensanguentado e ouviu-se um grito sentido. A vida escoara-se daquele corpo ainda jovem, que não se detivera em outro pensamento senão o de morrer. Os gritos daquela mulher debru­çada sobre o negro morto persistem ainda lancinantes num canto remoto do meu espírito.
Sim, Lourença, deves benzer-te, pois a ganância tem efeitos dura­doiros na violência dos homens sobre outros homens. Duvido que toda a caridade cristã consiga suprimir a escravatura. Bem vejo como Frei Belchior tenta dissuadir a minha vontade de dei­­xar forros os escravos da minha casa. Ele bem pode tentar, mas fiz uma jura que os libertaria. Seria de esperar que ao menos os repre­sentantes da Igreja, que tanto se indignam com os crimes contra a fé, interviessem contra essas monstruosidades praticadas por pes­soas de bem, que Deus não pensa em inquietar. Até parece que as inclinações evangélicas das ordens religiosas se moldaram extraor­dinariamente à vontade dos poderosos.
Em todo o caso, todas estas recordações se revelam incertas, tal­vez falsas nos pormenores, mas verdadeiras no conjunto. Corro o risco de conservar da minha infância imagens construídas a par­tir de lembranças sobrepostas. Não tenho a certeza se aquele escravo, que aos quatro anos vi morrer chicoteado, terá sido o pri­meiro dos muitos cadáveres negros que me atravessam o espírito. Recordo com mais precisão os gritos da minha avó, Ana Fernandes, chamando-me para calçar os sapatos, antes de o meu avô regressar da fazenda do Rio do Ouro.
Nas roças e na Povoação1, os locais onde vivi em pequena, con­vergiam os mundos inconciliáveis do meu avô e da minha avó. No mundo do meu avô, Manuel Fernandes, observava-se com rigo­roso zelo os mandamentos do Senhor. O seu espírito era povoado, em deli­­cado equilíbrio, por anjos e demónios, que se espiavam uns aos outros para que fossem acautelados os pecados de toda a família. Terríveis visões, com sangrentas imagens do apocalipse, mareja­vam-lhe os olhos de lágrimas sempre que lia a Bíblia. Ele fora uma das crianças judias trazidas pelo Capitão Donatário Álvaro Cami­nha no final do século passado, tendo chegado a S. Tomé com oito anos. As suas memórias da família e de Portugal eram escassas. Não conservava da mãe mais do que uma ténue lem­bran­­ça do seu rosto alongado de espanhola. A recordação desse rosto, marcado por uma doçura melancólica desde a fuga de Castela por causa do édito de expulsão dos judeus, estava ligada à danosa heresia dos seus ante­passados. Aliás, quase o esquecera, esforçando­­­-se por preservar a aura da criança que, em Lisboa, fora levada ao baptismo como um sinal de que estaria predestinado a submeter­­-se aos desígnios da fé verdadeira. Não se atrevia a macular essa noção, aliás confusa no seu espírito, com a figura de uma mãe que não passava de um fantasma. Já eu era mulher feita quando soube da sua ascendência judaica, pois o avô recusava-se a mencionar as suas origens verdadeiras. É fácil esquecer, nunca esque­­cendo...
O avô também raramente se referia à sua viagem por mar até à ilha. Ele, juntamente com algumas centenas de crianças, havia sido encafuado no porão de uma caravela à guarda de dois frades dominicanos. Muitos dos seus pequenos companheiros falece­­ram durante a travessia e muitos mais continuaram a morrer em terra com as sezões que os brancos apanham mal passam a linha do equador. Ainda hoje não consigo imaginar como poderá resistir a alma de uma criança que, depois de arrancada aos braços da mãe, é metida numa caravela e atravessa meio mundo até chegar a uma ilha estranha. Mas o avô sobreviveu, barrando essas histórias antigas, desviando-as, para que não lhe assombrassem a existência.
Essa experiência, já de si marcante, degenerou em provas ain­­da mais tremendas durante os primeiros meses que passou em S. Tomé. Na época em que o avô chegou à ilha, a Povoação pouco mais era do que um pequeno aglomerado de primitivas constru­­ções de madeira e todos os homens válidos, acompanhados pelos res­­pectivos escravos, se ocupavam arduamente no desbaste da flo­­resta para o cultivo da cana. As preocupações dos colonos excluíam as crianças, delegando a sua protecção na misericórdia divina. Haviam chegado à ilha várias centenas de infantes, meninos e meninas de tenra idade. Todos os dias morriam às dezenas. Os Domi­­nicanos, encarregues de zelar pelas suas pequenas almas, tiveram de socorrer-se de escravas para deles cuidar. Mas as negras pen­savam que as crianças brancas eram espíritos de Órun2 e recitavam evocações ao sol em vez de as alimentarem. Os frades desfaziam-se igualmente em orações e todos os pecados banais se lhes afiguravam mais execráveis ao verem tantas almas inocentes subirem diariamente aos céus. Entretanto, entre rezas e missas, continuavam a fale­cer crianças de fome ou de febres mortais.
Neste cenário, o meu avô foi dos poucos que teve sorte. Frei Jorge de Melo, frade superior da minúscula congregação, acolheu­­­-o em sua casa. Esse frade, gasto pela oração e pelo combate à here­sia, mais parecia um velho, apesar de contar pouco mais de trinta anos. A pequena casa de madeira do dominicano era um refúgio para o meu avô, conseguindo ali libertar-se das suas recordações. Naquela casa sentia-se livre do medo, da fome e da incerteza. Antes de as sezões o matarem, Frei Jorge teve tempo de ensinar o meu avô a ler e a escrever em latim. Mas, acima de tudo, preocupou-se em ensi­nar o seu jovem discípulo a proteger-se das tentações imper­tinentes, heréticas ou simplesmente ímpias. Poderiam viver no fim do mundo, mas o dedo de Deus chegava a todas as latitudes e, em local algum, a impiedade seria tolerada. «Era comum que as acções dos homens», explicava-lhe o frade, «se fragmentassem numa poeira de minúsculas tentações menores, mas, por junção de todas elas, as melhores virtudes acabavam convertidas nos mais danosos vícios.» O meu avô assimilara os ensinamentos do frade e tomava­-os como verdadeiros, na medida em que ele fora o único que o impe­­dira de morrer.
«Só a alma e a consciência do bem contam nesta vida precá­ria.» O meu avô, quando eu era pequena, utilizava comigo as mesmas frases que ouvira a Frei Jorge, muitos anos antes, para me fazer obe­­decer às suas ordens. As palavras daquele dominicano haviam­­­­­-se enraizado no seu espírito como o único escudo possível contra as emboscadas do mundo. O abandono da sua mãe seria imper­­doável e a morte dos seus pequenos companheiros teria sido vã se não exis­tissem no mundo princípios superiores que des­­mantelas­­sem as armadilhas do destino. Compreendia dessa forma as suas obri­gações de sobrevivente e abrigava-se nas orações, como um homem que pro­cura escapar a uma fortíssima tempestade que inevita­velmente chegará.
A influência do frade na vida do meu avô, ainda que predo­­minante, não foi, todavia, a única. Os princípios espirituais, forço­sa­­mente pela sua natureza frios e imateriais, vacilavam no seu rigor quando uma das escravas do frade, de nome Anastásia, se vinha enroscar no seu catre. Frei Jorge morreu quando o avô tinha apenas doze anos, antes de ter tempo de aprofundar devidamente as matérias relativas às fraquezas da carne. Com aquela morte súbita, o avô ficou livre para saborear os ilícitos prazeres carnais com as negras, como se fazer amor fosse outra forma de bênção e não uma afinidade contrária às leis do Senhor. Não testemunhei, como é evidente, as desventuras de infância do meu avô. Sobre esses anos longínquos do princípio do século, relato apenas conjecturas a partir do que a imaginação concebe.
Se queres saber, Lourença, em relação a estas questões carnais, toda essa benzedura me parece excessiva. Custa-me saber, pelo muito afecto com que te guardo no meu coração, que, quando casa­res, pro­vavelmente virás a ser umas daquelas damas que, após um cerimo­nial interminável, se sacrifica a uma imobilidade total debaixo do seu esposo, rogando pelos favores de Deus. Bem sei que os machos e fêmeas desta terra se desfrutam enfarpelados em cami­sas com­pridas, enrolando-se uns nos outros como as toupeiras de­baixo do pêlo. Durante a função apelam ao nome dos santos, gri­­tando em altíssimos brados apenas quando esses santos podem ser associados a martírios ou a sacrifícios pungentes. Posso afirmar­­­-te, minha filha, pelo muito respeito que tenho à verdade, que, com o teu tio, nunca tive de suportar semelhantes provações, nas quais os homens rangem durante o acto como amarras pregadas aos panos do colchão em vez de fazerem amor.
Faça-se então a tua vontade. Deixemos de lado estas conside­ra­ções pecaminosas e retomemos o fio da história. Quando o frade morreu, o meu avô teve de se fazer homem sozinho, mas acreditou sempre que tendo Deus do seu lado se libertaria dos piores infor­túnios. A segurança de se poder apoiar de forma estável numa força superior foi um logro, no sentido em que nunca o libertou. Os seus múltiplos temores acabaram por fazer dele um homem mais sub­­misso do que os outros, ainda que ele desconhecesse a verdadeira natureza dessa servidão. Aos olhos dos colonos brancos da Povoação, passava por um homem astuto, enérgico e cheio de iniciativa, que conseguira enriquecer desbastando enormes extensões de floresta, deitando fogo a milhares de obós3 para criar roças de açúcar. A sua condição de menino de Frei Jorge trouxera-lhe benéficos contactos com os vários oficiais de el-rei e da Câmara, ganhando a concessão de vastas terras onde passavam cursos de água claríssima. E, no entanto, até certo ponto o avô terá sido sempre um homem perdido numa sensação de infinita solidão. O seu espírito fora ferido quando era ainda demasiado novo, tendo ficado retido numa obscura angústia, conquanto tal obscuridade lhe providenciasse, através da fé católica, vastas certezas sobre a natureza da virtude e da ini­­qui­dade. Bastavam-lhe dois ou três preceitos simples: consi­derava ser acção de homem justo cumprir os mandamentos da Santa Madre Igreja; Deus ordenava que as mulheres e as filhas devessem obediência aos respectivos maridos ou aos pais, e por aí fora no que respeita às hierarquias sobre escravos e restantes serviçais. Estes princípios, ao tomarem um carácter rígido, protegiam o avô; sem eles a vida seria imprevisível e certamente pouco favorecida como lhe acontecera na infância.
A minha avó, por seu lado, era a mulher da tribo, a encarnação de um mundo sagrado onde as energias de Órun e Aiye4 coexistiam, num complexo torvelinho, sobrepondo-se em círculos infinitos de tempo. Esse mundo, visto como tenebroso pelo marido, era ocu­pa­­do por milhares de mortos e de vivos, estes últimos tão perdidos como os mortos, pois que todo o porvir implicava a colaboração de algum espírito do passado. Sendo descendente de reis, os escravos evitavam-lhe o olhar. A sua mãe fora sobrinha-neta do grande Ewaré-o-Grande do Benim e o seu sangue real fizera-a detentora de um estatuto sagrado que terá passado à filha. Os escravos vindos desse reino sabiam-no e, como se simulassem naquela casa uma corte em África, ninguém se atrevia a usar um trapo ou a deixar crescer o cabelo sem que a avó o autorizasse. Apesar de ter vindo para a ilha ainda criança, a mãe educara-a nos costumes do seu povo. O pai, traficante de escravos oriundo da Aldeia das Duas Partes, ao chegar a S. Tomé, aceitara baptizar a família para facili­­tar as relações comerciais com os portugueses, mas não abando­nara as suas crenças ancestrais. Com a mesma fé com que os colonos rezavam terços na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Graça, ele, as mulheres — apesar de só uma ser apresentada como legítima — e os filhos, quando iam à missa, dirigiam as suas preces ao Sol. A família apenas na aparência adoptara os nomes e os modos de vida ocidentais. O meu bisavô sempre se manteve bígamo e um adorador do Sol o que, naturalmente, faria dele um apologista assaz comprometido da mensagem cristã. Aliás, várias foram as intri­gas de alguns colonos que, despeitados com os seus lucros extraor­di­­ná­rios, o acusavam de não respeitar os Evangelhos. Mas na ilha as Sagra­das Escrituras nunca foram, como aqui em Lisboa, um assunto de ordem pública.
Quando exercemos este encargo de trocarmos a nossa vida por palavras, sempre se perde o essencial. As imagens misturam-se numa gravitação de memórias reais, imaginárias e duvidosas, as quais, porventura, configuram o malefício de esquecermos o mais impor­tante. Recordo as tardes infindáveis da minha infância. O céu, sempre carregado de uma neblina de calor, colada por assim dizer à terra, ondulava sob o efeito de uma brisa sufocante. O ar húmido e pesado tornava-se impeditivo de todo e qualquer movimento. Os colo­nos brancos haviam aprendido a abandonar-se àquela espé­cie de doçura que é a preguiça, começando a adoptar hábitos mais lentos.
Na Povoação ganhara-se o costume de se passar as tardes tórri­das nas casas de uns e de outros. Quando calhava ser a nossa, a avó, para entreter as visitas, contava antigas lendas africanas ou descrevia os funerais dos grandes reis. Parece-me ainda ouvi-la, com a sua voz grave e rouca, narrando que, quando o rei morria, todo o povo se ajuntava num grande campo para abrirem um poço muito largo e fundo que ia apertando para a boca. Ao sepulcro descia não apenas o corpo do rei, mas também os seus amigos e criados, considerados os mais caros e favoritos do defunto. Logo que todos estavam em baixo, punha-se-lhe uma grande pedra na boca do poço e o povo não se retirava dali, nem de dia nem de noite. À luz das fogueiras, os corpos dos homens e das mulheres que velavam a sepultura pareciam rochas retorcidas de uma paisagem de sombras. Todas as noites alguns deputados descobriam a pedra e perguntavam aos de baixo se algum deles já tinha ido servir o rei. Os sacrificados iam partindo um a um, sendo reputado coisa de grande louvor ter sido o primeiro a morrer. Por volta da quinta noite, às perguntas dos deputados só era devolvido um imenso silêncio, porque lá em baixo já ninguém tinha voz ou fala, e todos haviam encarnado a imobilidade de um espírito junto ao Sol. Rajadas de vento faziam alastrar um cheiro enjoativo a cadáver, inundando as narinas das testemunhas. O mundo da morte trazia consigo a continuação do mundo dos vivos, já que esse constituía o sinal para o início de um outro reinado. O novo soberano era de imediato empossado, mandando fazer um grande fogo sobre o poço, em que eram assados muitos animais para serem comidos pelo povo. As cores escuras da noite brilhavam mais claras por entre as fagulhas de imensas tochas, enquanto o rei se consagrava coroado.
Relatos deste género, pródigos em pormenores, arrepiavam os convidados, horrorizavam o avô, mas envolviam a minha avó numa espécie de aura sagrada. Ninguém se atrevia a interrompê-la en­quanto ela falava. As personagens das suas histórias alcançavam prodígios inimagináveis e júbilos atrozes, soletrando-se através da narrativa todos os reflexos possíveis das almas humanas. Dava ideia de se estar na presença da voz divina de uma sacerdotisa que ia con­­­­templando um estranho desfile de acontecimentos alusi­vos a enre­­dos míticos, os quais iluminavam as mais diversas aparências do ser. Havia reis traídos, espíritos perdidos nos labirintos da eter­ni­­dade e amantes desditosos que, depois de se terem separado, se encon­­travam de novo para agonizarem nos braços um do outro.
Passavam-se assim as tardes: as bilhas de vinho sucediam-se às bilhas de água, o riso desabrido de uma escrava esguichava aqui e ali numa passagem mais cómica e, quando anoitecia, cantavam-se canções avinhadas. A avó estava ciente de que os feitos das suas per­­sonagens configuravam as impressões que ela desejava causar na audiên­­cia. Cada uma das suas palavras continha uma formulação mágica que constituía a sua maneira de transmitir o espanto, a exaltação, a traição, a ameaça ou o júbilo. E sempre com uma ligeira magnificação que alterava a trivial natureza das coisas. Quanto ao avô, preferiria, sem dúvida, não ter de tomar conhecimento des­­ses enredos propiciatórios à heresia que grassavam no espírito da mulher.
Perguntas bem, Lourença... Como é que duas criaturas tão dis­tintas em cor e modos de pensar puderam contrair matrimónio, tendo sido, diga-se de passagem, e deveras a propósito, abençoa­­dos pelo próprio padre da Povoação. Para fazer crescer as nossas dúvidas, há que mencionar que na altura os casamentos sacramen­­tados entre elementos das duas raças eram raros. Casar era um passo muito para além dos habituais concubinatos. Desconheço as cir­cunstâncias do seu noivado e, nessa medida, tudo o que possa con­­jec­turar não passa mais uma vez de especulação... Estou em crer que cada um procurava no outro variações num mundo de dife­renças e o contrato de matrimónio constituiu para o avô e para a família da avó um auspicioso negócio. O meu avô, como já men­cionei, gostava de mulheres de cor, ou melhor, numa versão de sonhador talvez imaginasse uma discreta e elegante dama preta, vestida à moda europeia, com quem pudesse casar. Uma beldade negra que se esforçasse por falar o português da metrópole e que soubesse usar o enganador enfeite de uma renda como uma pre­paração para desvendar o colo, proferindo, ao mesmo tempo e com apreciado recato, orações de devoção ao Senhor dos Céus.
Em vez de se mortificar com sonhos, o avô esforçou-se por lhes atribuir uma mulher concreta. E encontrou-a na magnífica Ana Fernandes, uma rapariga alta, de seio volumoso, vestida com bri­lhantes cetins e enfeitada nos dias de festa com toucados que fariam inveja a uma condessa. Não tardou muito a deixar-se prender pela sua aparência que, mesmo atabafada em véus, caminhava para a igreja da Povoação, encarnando a sedutora figura de uma negra nua. Acresciam os seus deleites por sabê-la rica, baptizada na fé católica e filha de um homem que lhe poderia conseguir a preços bastante favoráveis todos os escravos que as suas roças viessem a necessitar.
O meu avô nunca poderia ter adivinhado que a avó o aceitara de pronto por motivos tenebrosamente obscuros. No caso dela, a ideia de acasalar com um branco, os folguedos nocturnos com um ma­rido de corpo pálido e asseado, andariam associados ao espírito de Olurum, dono e senhor dos céus, cujos desígnios controlariam tanto as exaltações gloriosas como as agonias de efémera passagem. Des­de há séculos que as gentes da sua tribo se ungiam com caulinos brancos, assimilando a cor albina à marca de um poder ancestral. Tendo a minha avô sido educada como uma princesa, aspirava naturalmente às posições mais elevadas. Um casamento com um homem branco dar-lhe-ia acesso directo à vida insubstancial dos espíritos, uma vida necessariamente mais favorecida do que aquela que se suporta com a carne. Se o avô conhecesse as fantasias da sua prometida, em vez de considerar tudo aquilo uma tola superstição, teria de imediato rompido o noivado e chamado um padre para o benzer.
A minha avó, por sua vez, desconhecia que os brancos encaravam as almas das mulheres como entidades defeituosas. Ignorava mor­­mente que eles pensavam que os corpos femininos tinham sido amassados a partir de uma espessa argila pecaminosa. Jamais ouvira falar de Eva, nem tão-pouco da costela de Adão, a partir da qual Deus criara as mulheres, para depois as confinar dentro das formas de um espelho, no qual os homens só reconheciam reflexos do seu poder. E também da sua vaidade. Não fazia igualmente ideia que em Portugal os pensamentos das mulheres tombavam por terra como farrapos se não coincidissem com a vontade dos homens. Se algo de semelhante acontecia entre o seu povo, ela não o reconhecia da mesma maneira. Pelo menos na aristocracia, a que pertencia a sua família, as opiniões das mulheres eram honradas, assim como os corpos desnudados constituíam motivo de maior orgulho.
Aliás, e muito a propósito, deixa-me dizer-te, Lourença, que a con­dição das mulheres neste reino continua a ser, do meu ponto de vista, determinada por estranhos costumes: as mulheres são domi­nadas e protegidas como crianças. Ainda assim esses seres, encara­dos como o sexo fraco, assumem atitudes poderosas dentro de suas casas e, às vezes, no próprio reino, quando calha o seu lar coincidir com o palácio real. As resoluções mais difíceis da família são repar­tidas por uma fina poeira de decisões minúsculas que estão nas mãos das mulheres, as quais vão sendo perfilhadas, uma a uma, pelo senhor da casa, orientando-se deste modo a deliberação final. Apesar de os homens acreditarem que as decisões só a eles perten­cem, poder-se­-ia também concluir que nas fases anteriores quem domina são elas. Nas relações entre homens e mulheres, tudo não passa assim de manhas e contramanhas, abuso das palavras e em alguns casos abuso de força. Este confuso estado de coisas pouco favorece a felicidade das pessoas. Abanas mais uma vez a cabeça, Lourença, como se escutasses a apologia de uma doutrina perversa. Não tenho intenção de te demover, mas um dia, quando te casares, talvez venhas a recordar as minhas palavras.
Não sei verdadeiramente dizer como os meus avós evoluíram da troca de olhares para um compromisso mais firme, mas sei que noivaram e depressa casaram. Rigorosamente, e contra todas as expectativas, conseguiram entender-se. Para ser mais exacta, o seu enlace duradoiro foi uma bem-sucedida história de equívocos. Os erros de interpretação entre eles aconteciam a toda a hora e eram provocados pela acção de elementos de cuja presença nem um nem outro desconfiavam. Por exemplo, o avô acreditava ser o senhor absoluto de sua casa, mas essa crença ingénua, nunca desmentida directamente, não passava de facto de uma farsa. Nenhuma das escravas domésticas lhe obedecia se a ordem não fosse confirmada pela avó. Dissimulada atrás de uma cortina, como uma personagem régia esperando a hora propícia para proferir a sua sentença, ela abanava gravemente a cabeça e só então os escravos atendiam ao amo. A casa da Povoação ou a casa grande da fazenda do Rio do Ouro transformavam-se num mundo diferente, com os sons par­ticulares da tagarelice entre a avó e as escravas, mal o avô saía para cuidar dos engenhos. As explosões de uma cólera ou de um riso, os murmúrios de intimidade, os ensinamentos sobre a vida, todas essas coisas cessavam quando o avô regressava de novo a casa. As crianças, a constante inquietação com as doenças, os remédios fabricados com raízes e os princípios espirituais a que essas poções estavam ligadas assumiam na sua ausência uma importância que o avô des­conhecia. E ele próprio, tantas vezes escarnecido, tornava-se essencial à conversa, provavelmente por ser amado.
Os meus avós dirigiam-se um ao outro em português, mas a língua comum mais servia para prolongar mal-entendidos. O meu avô exigia naturalmente que as filhas, tanto a minha mãe como a minha tia Maria, envergassem, mesmo em dias de sufocante calor, vestidos à moda europeia, fazendo apenas concessões na leveza dos tecidos. A minha avó não identificava nessa exigência um sinal do conformismo à boa moralidade cristã, a qual interditava os compor­­tamentos licenciosos nas criaturas fêmeas. De facto, em nada a minha avó associava essas proibições à defesa da honra da família. Para ela, as necessidades da carne decorriam de apetências tão simples como as que se têm por um fruto fresco em dias tórridos. Por essas razões, pura e simplesmente não percebia muito bem a que é que o marido se referia quando mencionava o despudor das filhas, ignorando também como é que essa atitude poderia trazer desprazer àquele Deus que, do alto, tudo observava. Que desse por isso, nunca se vira o Deus dos brancos intervir directamente em assuntos terrenos. Em vez disso, acreditava que os motivos do marido, os seus constantes reparos sobre a forma de trajar das filhas, estariam relacionados com a protecção necessária à metade branca das raparigas. A herança de um espírito branco, mesmo sob a pro­tecção de uma pele escura, brilharia com uma fosforescência própria e os tecidos, como uma espécie de câmara mágica, impediriam que a sua substância volátil se dissipasse no ar. Aliás, sofrera grave desa­pontamento por as crianças não terem saído de pele clara e faria tudo ao seu alcance para preservar a herança recebida dos espíritos. No recato do lar, sobretudo depois de o marido ter construído uma casa em alvenaria perto da Fortaleza de S. Sebastião, permitia que os seios das filhas se escapassem ao jugo dos corpetes, pois parecia­-lhe que tão grossas paredes impediriam a fuga dos espíritos. Por outro lado, a minha avó, sendo uma mulher dotada de grande saga­cidade e inteligência, sabia que os trajes requintados, com galões e laçarotes, as diferenças na qualidade dos cetins e rendas eram a marca da elevada condição dos elementos da minúscula corte de notáveis da ilha. O orgulho da sua posição obrigava a que nem ela nem as filhas ficassem atrás das restantes damas. Exigia assim ao marido que comprasse os panos mais caros aos comerciantes da Povoação. Depois, usando miniaturas como modelo, orientava algu­mas escravas jeitosas de mãos na confecção de vestes sump­tuosas, tendo prazer em mostrar-se superior em elegância às poucas brancas que definhavam pela ilha, como, sem dúvida, já o era em fortuna.
Faço referência a estes episódios, Lourença, para que percebas como na casa da minha família o mundo parecia ilimitadamente dividido em formas antagónicas de pensar. As ideias sobre todas as matérias deslizavam, diversificando-se por visões inconciliáveis, consoante a mesma realidade era observada pela avó ou pelo avô. Não se conseguia mais do que uma grosseira equivalência entre as palavras que ambos usavam para mencionar as mais simples evidên­cias. Neste estado confuso de coisas, ecoavam ainda, em coros dis­sonantes, as vozes dos deuses que os governavam, com mandamentos de tal modo discordantes que se tornava impossível encontrar um equilíbrio entre eles, tanto na esfera divina como na terrestre. As leis da cristandade, semanalmente firmadas na missa pelos sermões do padre, exigiam às filhas de Eva que encarnassem a modéstia e todas as analogias da virtude andariam associadas à obediência. Os deuses da minha avó eram infinitamente mais leves. A força liberta pelos orixás da terra, dos céus e da água, empenhado na multiplici­dade das coisas, fixava-se mais fortemente às mulheres do que aos homens, pois só elas eram detentoras da matriz da vida. Pelo menos era nisso que a avó acreditava. Mesmo que, como vim a saber mais tarde, as mulheres mais humildes das tribos fossem tão sacrificadas como as brancas, senão mais ainda.
A tenaz dualidade dos costumes vigentes na família terá tido consequências no espírito de minha mãe Luzia e de minha tia Maria, turvando com ambiguidades os mais simples conceitos sobre a vida. Elas cresceram entre dois mundos, sem conseguirem esta­belecer uma ponte. Os juízos dos pais sobre os seus comporta­mentos tornavam-se indecifráveis. Como alternativa, inventaram o seu próprio sistema, que incluía uma sólida cumplicidade de irmãs, com perfeito entendimento sobre as diferentes justificações a dar à mãe e ao pai consoante as circunstâncias.
Apesar das atribulações familiares, as duas irmãs tiveram uma infân­cia feliz. Durante a meninice, tanto na fazendo do Rio do Ouro como na Povoação, corriam pelo mato em ranchos de garotos que incluíam filhos de escravos e mulatos forros, envolvendo-se em jogos que não se diferenciavam dos divertimentos das crianças das metrópoles europeias ou dos confins de África. Por vezes, quando a brin­cadeira era na roça, paravam a admirar a resistência dos escravos no trabalho do engenho, a firmeza dos seus corpos negros, a força dos seus músculos e o seu aparente desdém pelo estalar do chi­­cote dos feitores. Mesmo na Povoação, eram proporcionadas às raparigas liberdades inimagináveis para moças de boas famílias. Isso acontecia não apenas com mulatinhas forras mas também com as meninas brancas, que pouco se ocupavam das tarefas de fiar ou de bordar. Raparigas e rapazes, sem fazer caso de proibições, passeavam­-se pelo mercado, fazendo eco dos pregões das regateiras e das agua­­deiras de cântaro, iam ao porto assistir ao desembarque dos escra­vos, orga­nizavam explorações pelas matas circundantes, lan­­çan­do-se em aventuras que poucas mães se davam ao trabalho de con­trolar. Os habitantes mais notáveis da colónia, continuamente ameaçados pela espada das febres mortais e ocupados com os motins de escravos fugidos, não dispunham de forças excedentes para impor severi­dade à educação das crianças. No ambiente algo instável da Povoa­­ção, não era raro que até os padres deixassem de pregar, incapacitados pelas sezões e pela febre. Mas pelo menos a missa era respeitada. Os colonos brancos, por lhes recordar a pátria longínqua, achavam prazer nas orações conjuntas aos domingos, posto o que abalavam, munidos de admoestações e de promessas de salvação para uma semana, para se entregarem a um quotidiano de costumes dis­solutos.
Mais tarde, enquanto jovens donzelas, a minha mãe e a minha tia Maria tanto iam aos saraus organizados pelas esposas do gover­na­­dor ou do ouvidor, bailando ao som de um alaúde com fogosa energia, mas segundo as modas portuguesas, como exibiam a sua voluptuosidade em danças tribais no terreiro da sanzala da fazenda do Rio do Ouro. Naturalmente salvaguardavam-se, só se entre­gan­­do a estas últimas folias quando o pai se ausentava para outras roças.
O clima tórrido da ilha acelerara o crescimento das raparigas. O despontar do sangue, e o respectivo acréscimo em ardores, acon­­tecera relativamente cedo. Os corpos floresceram num repente e o seu espírito fulgurava com novas sensações. Não tardou que se envol­vessem em namoricos breves, tendo, a coberto da cum­pli­ci­dade da mãe, encontrado maneira de ocultar essas aventuras ao pai. Com o tempo, a avó aprendera a conhecer melhor o signi­ficado das explosões coléricas do marido e, por respeito a uma pacífica con­vi­vência, evitava cuidadosamente as conversas que abor­­dassem assun­tos de fé ou as vestimentas das filhas. A partir de certa altura, já pouco falava com o avô e, com aquele instinto justo e avisado de quem consegue, quase em silêncio, ordenar a seu jeito a casa, res­guar­dava as palavras para assuntos triviais.
Quando tinha quinze anos, a minha mãe apaixonou-se perdi­­damente por um mulato forro de olhos verdes, filho bastardo de um comerciante e de uma escrava. A casa do comerciante na Povoa­ção fora construída em frente à do avô e, através das janelas estreitas do seu próprio quarto, calhava o rapaz, de nome António Aboim, entrever o vulto da minha mãe indo e vindo pelo quarto à luz de uma lamparina. Apreciava particularmente o momento em que ela desfazia o cabelo, gancho a gancho, tarefa particularmente longa e penosa por causa da cabeleira encarapinhada, ao mesmo tempo que estendia os pés a uma escrava para que lhe tirasse os sapatos. Mais uma vez, não faço ideia como terão evoluído destes jogos de som­bras para as palavras e logo de seguida para os actos mais fogosos. Sei apenas que, junto a uma ribeira de águas calmas, não muito afas­­tada da Povoação, construíram eles, com a ajuda de ramos de árvores, um abrigo com uma espécie de cama de folhas. Para aí iam todas as tardes depois de se terem tornado amantes.
Luzia, minha mãe, gostava daquela penumbra que inundava a minúscula cabana. Era bom dor­­mir ali, encostando a cabeça ao peito de António Aboim, depois de terem feito amor, ou acariciarem-se durante horas, apertados um contra o outro. Foi nesse local isolado de todos os ruídos do mundo e onde as interdições dos adultos não se faziam ouvir que fui con­cebida.
Abanas de novo a cabeça, Lourença, e bem vejo que o fazes com especial desdém. É por tomares conhecimento de que sou bastarda? À hora da morte deve ser o que menos importa! Não creio que a minha filiação seja recordada no reino das trevas. Neste momento em que todas as felicidades da vida me abandonam, gosto ainda de imaginar a minha mãe feliz com um rapaz que viria a ser meu pai. Quanto mais me aproximo da morte mais tento prolongar, no que me resta de vida, essas imagens onde o amor jamais renuncia aos seus poderes de per­dição. Uma rapariga linda a estremecer de paixão, sol­tando griti­­nhos, prendendo António Aboim com as suas pernas e os seus braços sedo­sos; os pés e as mãos do amante, expostos ao rigor dos trabalhos, seriam, pelo contrário, rugosos e cheios de calos. E o gozo de se per­derem numa vertiginosa teia de prazer. Dispersos tons de entar­decer lembravam­-lhes, várias horas depois, ser altura de regressar.
Os dias iam-se arrastando, cada um mais longo do que o outro, como se a vida na ilha reflectisse a eternidade de um Verão. O ar, carregado e húmido, vibrava com ondas de calor desde o cume dos montes até ao mar. As terríveis temperaturas convidavam a amores intensos, facilitando uma combustão que se alimentava dos beijos que os amantes passavam de um para o outro. Não tardou muito até a minha mãe emprenhar. Apesar da sua cintura estreita e o seu peito pouco volumoso não o parecerem demonstrar, a minha avó descobriu muito antes da filha que ela estava grávida.
Mesmo compreendendo que os impulsos do amor nunca obe­­decem a uma vontade meramente pensada, a avó, a seu modo, não era menos intransigente do que o avô no que respeita às tra­­dições. Sendo orgulhosa da sua linhagem, não se conformaria em casar a filha com um homem que pouco mais seria do que um escravo. Já para não falar do escândalo que o facto provocaria naquela sociedade de brancos, mesmo sendo ali a bastardia um acidente bastante vulgar. Pior seria quando o marido descobrisse a necessidade urgente de um casamento, tanto mais que ele havia firmado recen­­temente vantajoso contrato entre a filha mais velha e o filho de um capitão de S. Jorge da Mina que possuía vastas roças na ilha. Tão gravosas circunstâncias exigiriam da minha avó medidas urgentes, de uma argúcia excepcional.
João Godinho, assim se chamava o noivo, havia desembarcado na ilha há apenas uma semana, tendo chegado de Portugal, mas nem ele nem Luzia haviam ainda tomado conhecimento da sua condição de noivos. Muito pálido e enfermiço, de uma moleza quase feminina, mal chegou, o rapaz foi apoquentado de tal modo pelas febres que um padre teve de ir a casa prestar-lhe a extrema­-unção. A precária saúde do noivo permitiu à avó persuadir o marido a acelerar o matrimónio. Fez-lhe ver como os laços de parentesco com um capitão de S. Jorge da Mina constituíam uma extraordi­­nária oportunidade para comprar escravos em condições assaz vantajosas, pois, desde que o sogro morrera, tinha de competir com os restantes colonos nesses negócios complicados. A fragilidade do moço favorecia a pressa do enlace em vez de o retardar. Se o rapaz morresse após o casamento, a aliança não seria desfeita, mas o mes­mo não sucederia se ele falecesse antes. O avô acolheu os ardilosos conselhos da esposa com seriedade e deixou-se convencer pelas suas palavras, fazendo antecipar a cerimónia.
Mais difícil de persuadir, a minha mãe recusou-se a aceitar o enlace com um desconhecido, mormente quando tudo no seu coração ansiava pelos jogos de amor com António Aboim. Des­­conheço o teor do diálogo que se terá desenvolvido entre mãe e filha. Provavel­­mente a minha avó tê-la-á coagido, como sempre fazia, apelando aos espectros não visíveis, procurando mais uma vez demonstrar à filha como os poderes de Olurum se fixavam nos páli­dos corpos dos homens brancos. Os raciocínios da avó consen­­tiam em misturar, numa linguagem anímica, parábolas ancestrais com uma multidão de divindades, cujo espírito confluiria para o interior das mulheres após a consumação do acto sexual com um branco. As suas palavras emergiam de um cenário de fantas­­mago­­rias, onde atribuía aos inefáveis espíritos uma aparência humana com os traços dos euro­peus. Ao mencionar os homens brancos, a avó, na verdade, falava de um mundo misterioso, onde o possível e o impossível eram a mesma coisa, convertendo-se as penas verda­­deiras em símbolos dos ante­passados. Por isso, imagino que os seus argumentos não terão fugido desta linha de raciocínio. Através da boca da avó interpunha­-se a voz dos orixás, naquele momento para advertir a filha, mas, a manter­­­-se a recusa, as suas sombras viriam do outro mundo para a fazer vergar. Por outro lado, o casamento não seria impeditivo, toma­das as necessárias precau­ções, pois nas questões de adultério os colonos portugueses, aliás como a maior parte dos homens, demons­travam ser estranhamente rígidos, de prosseguir a sua ligação com o mulato António Aboim. Com a intervenção dos espíritos ou sem ela, a minha mãe não escapou ao extraordinário poder de persuasão da avó e aceitou casar-se.
Num dia de extraordinário calor, o qual mais faria sonhar com cascatas de água fresca do que com blandícias carnais, a minha mãe foi conduzida ao altar num sumptuoso vestido de cetim para rece­ber o sagrado sacramento do matrimónio. João Godinho, ainda muito enfermo, aguentou estoicamente a missa de casa­­mento, mas quase no fim da cerimónia perdeu os sentidos, o que se atribuiu à elevada temperatura e à extrema incomodidade causada pela multi­dão apinhada na Igreja de Nossa Senhora da Conceição. A minha mãe, de pé junto ao altar, conservou, durante todo o incidente, uma postura impassível, somente denunciando a sua perturbação com fugidios olhares sobre a assistência. O seu rosto fechado, onde sorriso algum parecia capaz de aflorar, dissimulava as razões da sua amargura, enquanto aguardava com dig­nidade que o noivo recupe­rasse. Mal ele se encontrou em condições de pronunciar os votos, apressou-se o fim da cerimónia, não fosse dar-lhe novo fanico.
Tão inquieto quanto a minha mãe, devia sentir-se o meu avô, ao observar o desmaio daquele genro débil. Todas as certezas que sempre lhe haviam pertencido e que adoptavam como moratória as suas ordens, talvez se revelassem naquele instante menos verda­dei­­ras, ao assinalar a expressão desgostosa da filha. Porventura inco­modava-o que ela, parecendo tão infeliz, não tivesse protestado, brandamente que fosse, contra a urgência daquele casamento. Por outro lado, os seus planos de uma aliança com uma família cristã de boa estirpe e detentora de vastas terras, os seus projectos de expan­são das fazendas e da cultura de cana, também lhe pareciam comprometidos. Quando no decurso de uma viagem a S. Jorge da Mina combinara o casamento da sua filha mais velha, procurara acau­telar a velhice, imaginando um genro robusto que juntaria as suas roças às dele. Desbravar floresta, dirigir feitores e escravos no trabalho de plantar cana e produzir açúcar eram tarefas que exi­giam o pulso firme de um homem. Mas, ao olhar-se para a figura de João Godinho, percorrida de tremores, era impossível não se pen­­sar num vento insalubre varrendo a superfície de um mar pací­fico, mas sem sol. A sua escolha teria de ser mais ponderada aquan­do do casamento da sua filha Maria.
Resignada a suportar um marido que pelo menos não temia vir a amar, a minha mãe deve, pelo contrário, ter-se regozijado com a mani­festa debilidade do noivo. No entanto, pelo que vim a saber, tam­bém com ela as coisas não se passaram como imaginara. João Godinho era um daqueles raros seres a quem a personalidade con­­feria em relação às mulheres uma solicitude afectuosa, reve­lando­-se uma inspiração para a voluptuosidade. O seu maior trunfo eram os olhos, que, apesar da febre, conservavam o brilho de um amante ardente. João Godinho conseguiu fazer crescer no coração da sua mulher um acolhimento ilimitado. Mas esses desen­volvi­­mentos sucederam mais tarde... Até porque o ataque de malá­­ria o impediu de, nessa noite, servir a sua esposa com as atenções que se espe­ram de um marido.
Após a cerimónia, João Godinho foi transportado de liteira para a casa do sogro, sendo atribuído à minha mãe o encargo de o velar. A princípio, encostada à ombreira da porta do quarto, vigiava-o à distância, deixando às escravas a tarefa de o acalmar durante os tremores. Aproximou-se, contudo, durante a noite, para lhe dar de beber com uma mão firme. O doente só a muito custo conseguiu engolir; o conteúdo do copo entornava-se na cama com a sua agitação. Os ataques desfiguravam-lhe o rosto, mas quando pas­savam e ele dormia pacificamente dava ideia de sorrir. O seu sorriso, durante o sono, parecia perseguir uma quimera, como se os delírios o fizessem captar do mundo a sua parte mais formosa. Por via daquele doce repouso, era como se saboreasse uma sensação de homem vazio, penetrando no mistério de uma existência perfeita.
Tendo passado horas a observá-lo durante o sono, a minha mãe foi sentindo lentamente que o movimento dos espíritos, de que a avó falara, poderiam vir a preencher a sua imaginação, e mesmo a devo­rar-lhe o coração, através daquele homem. A certa altura tocou­-lhe o rosto. Desse contacto nasceu uma emoção. Era possível que a avó tivesse razão! De facto essas entidades vagas chamadas espíri­tos, que nunca se terão visto a funcionar na ausência de um corpo, davam ideia de se materializar na expressão do seu marido. Quando na manhã seguinte o estado de saúde de João Godinho se agravou, ordenou de imediato a uma escrava que lhe trouxesse uma bebera­gem com raízes medicinais e que depois lhe fizesse uma sopa de pão em água, sal e um pouco de azeite. Poderia tê-lo deixado mor­rer, mas escolheu não o fazer.
Durante as crises de malária, os doentes são atreitos a doloro­sos suores, que de repente os deixam gelados. João Godinho esteve às portas da morte durante duas semanas. Quando os ataques se suce­­­diam, a minha mãe deitava-se ao lado do marido. Incapaz de conter o sofrimento daquele corpo que à sua vista se contorcia, ten­tava pelo menos aquecê-lo. A minha mãe e João Godinho nunca falaram entre si dessa crescente proximidade, como se tivessem esta­belecido um pacto mudo, mas muito antes da sua recuperação fizeram amor.
Como é que tomei conhecimento desta intimidade? É isso que cuidas de saber, Lourença? Só te respondo se prometeres não te escandalizar. Não quero que fujas a correr para ires beijar os pés de uma das figuras de Cristo na igreja mais próxima, em penitência pelas graves sevícias a que por minha causa submetes os ouvidos. Bem, se insistes... Em criança escutei amiúde conversas entre a minha mãe e a sua escrava favorita, Domingas, onde ela não se esqui­vava a fazer comparações entre o marido e o amante. Reco­meças a benzer-te! Devo dizer-te, porém, que as revelações de minha mãe em nada se assemelhavam ao grosseiro vozear com que neste reino as matérias do adultério são tratadas. A traição consu­mada estava longe de ser uma simples libertinagem.
Esse prazer mais secreto do que qualquer outro, esse prazer que nasce do desejo e com ele morre, não era para ser dedicado exclu­sivamente a um homem. Se cuidava do marido e com ele se deitava, isso não significava para a minha mãe que se sentisse for­­çada a abandonar o mulato António Aboim. A desordem que impe­rava no seu coração foi-se integrando pouco a pouco numa nova ordem que melhor servia os seus interesses.
Com o marido, a comunhão do corpo convidava à comunhão da alma. As mãos daquele homem branco mais lembravam serpentes, só que não eram sinistras, antes deslizavam em carícias que subiam e recuavam para depois prosseguirem ainda mais longe, sem se fixarem num ponto preciso do seu corpo. Eram mãos que dançavam sobre si como labaredas, mas com reverente doçura. Tão delicados prazeres tinham um toque de fragilidade e, contudo, não eram frá­geis, envolvendo-a com uma força que a empurrava para as profun­dezas de um paraíso muito mais perfeito do que aquele que o padre afiançava existir no outro mundo.
Mas não era apenas com as mãos que aquele marido fazia as delí­cias de minha mãe. Com João Godinho chegaram também os conhecimentos de alguém que usufruíra de preceptores particula­­res e de uma educação requintada enquanto vivera na Metrópole. De Portugal havia trazido muitos livros e um pequeno órgão hidráu­lico que fora instalado no quarto. Nos dias em que se sentia melhor, levantava-se e punha-se ao piano. À minha mãe, aquelas árias pareciam-lhe inseparáveis das mãos que as tocavam. A música surgia como uma aparição de um espírito consternado que deam­­bulava pelo quarto sem se ver. Os sons caíam do ar como gotas de chuva ou como lágrimas, fazendo-a ceder a um fluxo de emoções que encarnavam todas as formas. As pausas inauguravam um reco­meço onde a melodia regressava ainda mais perfeita. Fazia seu o deslizar pela música, como se penetrasse num refúgio onde se demonstrava a existência de uma beleza pura. Depois de o ouvir tocar aquelas doces árias, a minha mãe teve a confirmação de que have­ria um estrito ajustamento entre o espírito do seu marido e o de alguma divindade.
João Godinho também a surpreendia com a leitura de poemas. Não conhecia evidentemente nenhum dos poetas que ele mencio­­nava, mas sentia verdadeiro prazer em escutar as suas rimas. Ao ouvir a sua voz singularmente vulnerável, a minha mãe sentia verdadeira pena por não saber ler. Ao voltar da página, as estrofes corriam como mel, um conjunto de sílabas que se encadeavam umas nas outras e deixavam na alma um ressaibo de felicidade. Cada verso parecia fazer parte de um plano mais elevado para os sonhos. Preferia acima de tudo as trovas de paixão, onde o ardor dos versos rendia culto à exaltação dos amantes. Não raro acabavam eles próprios por misturar as suas carícias à arte de versejar.
As sezões nunca abandonaram João Godinho. No decurso da sua curta vida, ele interpretava um dia sem febre como uma vitó­ria sobre o mal. Mas a maleita persistia. A melhoras passageiras seguiam-se longas semanas de recaída. O seu optimismo era uma forma de coragem. Despertava de longas tardes de torpor para se entregar a brilhantes conversações com viajantes de passagem ou para se inteirar sobre a vida e infância da minha mãe. A doença parecia tê-lo despojado de toda a rigidez que caracterizava, com exces­­siva frequência, os modos de pensar dos homens brancos. Também se interessava por tudo o que tivesse a ver com as tradições dos selvagens, assim eram designadas as tribos do continente, e questionava amiúde a minha avó, esquecendo que também ela era negra e oriunda de África. A avidez da sua curiosidade não conhe­­cia limites quando se tratava de perceber os rituais com sacri­fícios humanos ou as poses de acasalamento dos negros. Enquanto a avó falava, não parava de tirar notas. Mas este estudioso dos povos indígenas demonstrava visíveis falhas de atenção quando os hábi­­tos descritos não apresentavam algo de novo e de espantoso para os costumes ocidentais.
O entusiasmo tomava também conta dele quando descrevia Lisboa: a azáfama das caravelas no porto, o brilho duma cidade cuja luz se disseminava pelas suas setes colinas, o recorte imponente dos edifícios, os sumptuosos vestidos das damas da corte. O seu rosto molhado de suor insistia em sorrir perante a lembrança de imagens que jamais voltaria a ver. Nos melhores dias, ainda se erguia com graça para beijar a mão da esposa ou da sogra, nos piores, aguar­dava-se a sua morte.
A minha mãe, apesar da inesperada afeição pelo marido, apro­­veitava os períodos de maior fraqueza de João Godinho para conti­nuar a encontrar-se com o seu mulato. Disfarçava-se com vestes de simples escrava. Bastava que vestisse uns panos à moda da Guiné, desnudasse os seios e colocasse uma carga à cabeça para não se distinguir de tantas outras mulatas que cruzavam as ruas da Povoa­ção. Antes de sair, obrigava Domingas a usar um dos seus vesti­dos, para que o marido, caso abrisse os olhos, permanecesse tranquilo com o recorte destacado de uma presença. Como a ouvi explicar, anos mais tarde, não existiam motivos para escolher um deles. Que razões teria para prescindir de um ou de outro? Uma decisão assim não passaria de uma coacção imposta ao espírito por regras que não entendia, não sendo verdadeiramente uma necessidade sua. Era como se fosse conduzida a escolher entre um mar de águas revoltas, cujas vagas se vão renovando ao desfazerem-se na orla da praia, e um ribeiro de águas calmas e transparentes onde os peixes flutua­vam em vez de nadar. Na natureza não havia lugar para decisões desse género, uma vez que os rios e os oceanos não dispu­­tam entre si a primazia de um lugar no coração do mundo. Assim, a minha mãe partilhava-se entre os dois, sem mais rumores na sua consciência do que um suave fluir de águas.
Escrúpulos desmesurados e exagerados pudores te atormentam e, no entanto, Lourença, pressinto que neste momento estás empe­nhada em saber qual dos dois tomava o lugar do mar. E quem fazia de regato. Etéreas imagens de valor arbitrário... Não sei afirmar com assegurada confiança, embora sempre tenha atribuído ao mulato António Aboim a exaltação de vagas fogosas. Fosse como fosse, a minha mãe vivia abençoada entre dois homens que repre­sentavam o melhor de duas formas de amar. Fazendo justiça à sua memória, não creio que existissem nela, ao passar de um homem a outro, a facilidade e a indiferença que caracterizam o carác­ter de uma sedu­tora. As riquezas do prazer que cada um lhe proporcionava simples­mente eram diferentes; um e outro, à sua maneira, condu­ziam-na à manifestação de um desejo, que, mesmo depois de con­cre­tizado, se conservava fiel à sua natureza. A voluptuosidade do amor, tomava por assim dizer, formas mais completas com a sua entrega aos dois amantes. E graças à influência da avó, a mãe nunca foi atingida pela turbulência de um conflito. Para ela tratava-se de afecto e mesmo de amor verdadeiro.
No entanto, quando passados meses deitou ao mundo uma criança do sexo feminino, não se achou no direito de esconder a verdade nem do marido nem do amante. Se António Aboim logo concordou que o melhor para a bebé seria o de manter o seu papel no anonimato, já a João Godinho não lhe foi dada a oportunidade de se expressar. Nessa matéria a minha mãe decidiu resguardar­­-se, pois a avó avisara-a de que o temperamento dos homens, e nesse particular sem grandes diferenças entre as raças, explodia numa ira fulminante quando estava em causa a paternidade. E as palavras nada podiam contra aquele tipo específico de embrutecimento da alma. Muito estranho aquele código selvático que era como que uma ma­neira de os homens provarem a virilidade. Havia tribos, ainda que não a sua, em que apenas interessava a maternidade. «Um dia virá em que os espíritos apagarão do coração dos homens todas as leis que não forem as do amor, mas esse dia ainda está longe...», concluiu na ocasião a avó, dando por terminada a conversa.
Precavendo-se contra a austeridade das leis humanas, a minha mãe aproveitou uma altura em que o marido delirava em voz alta para lhe confessar que a filha recém-nascida não fora concebida por ele. O momento escolhido revelou-se propício, já que, ao recupe­rar a lucidez, João Godinho confidenciou à minha mãe que sonhara com a criança. «Vai ter uma vida de princesa», assinalou satisfeito. É claro que não passava de um sonho, mas o mais auspicioso de todos. A profecia desse homem, que durante anos acreditei ser meu pai, até certo ponto concretizou-se. __________
Ana Cristina Silva
A Dama Negra da Ilha dos Escravos
Editorial Presença

Um Homem de Aluguer


O livro é ousado e o título, além de dizer quase tudo, também ele é corajoso. Aqui encontramos uma mulher que resolve contratar um gigolô para saciar as suas necessidades de cariz sexual, mental, talvez sentimental.
A ideia vem da cabeça da escritora espanhola Neus Arqués, mas poderia vir de qualquer outra carola. Aliás, se tivermos em conta que, todos os dias, no nosso país, prostituem-se homens para enfartar velhas e desprezadas princesas ricas, esta obra torna-se bem real.
Através da Editora Quidnovi, que aposta forte em ficção estrangeira, surge-nos uma mulher, cujo desenrolar da história se centra em si própria. Chama-se Bel. Nome de três letras, número que poderia supor a perfeição. Mas não! Na vida, esta Bel, com cerca de 50 anitos de idade, está entregue a si própria e ao conselho de umas quantas amigas e conhecidas. Algumas que até pagam para dar atrevidos ensinamentos desregrados só para satisfazerem as suas coscuvilhices em seara alheia.
Bel encontrava-se tão revoltada que evitava pensar que as únicas mãos que passariam a tocar no seu corpo seriam as da sua esteticista. E, quando percebe que deixou de ser atraente para cativar as atenções de um homem, resolve seguir em frente, nesta sua caliente andança.
Em cena, entra Iván, um engenheiro civil cubano, imigrado em Barcelona (terra natal da escritora), que se prostitui enquanto espera por outras ocasiões laborais. Aliás, nesta obra surgem interessantes referências a Cuba, indicação de que a escritora talvez já lá tenha estado. Quem já foi a Havana, lembra-se, certamente, do bairro velho (referido na obra) e degradado da capital cubana que contrasta com uma Havana um pouco mais modernizada, onde os hotéis de cinco estrelas tocam as poucas nuvens existentes no céu. Estas abordagens espaciais dão um alegre ânimo ao desenrolar da acção, que só nos surge entrecortada pelas pausas e algumas hesitações da protagonista.
De ego destroçado, e para esquecer Pedro, o seu ex-namorado, rotulado pelas suas eufóricas crises de posse e senhorio, Bel resolve quiçá seguir os conselhos de Célia Cruz, a cubana que cantou e eternizou “La vida es un Carnaval”, e meter mãos (leia-se, corpo) à obra.
É com este Ivan, 20 anitos mais novo, que a escritora resolve arrastar o seu romance para uma faceta mais erótica da escrita. Consta que o cubano era perito em sexo oral (e não só), facto que levava Bel às nuvens, pois parece que tanto Pedro como o seu marido não gostavam da coisa. Eles eram cúmplices, e só assim conseguiam bailar ao mesmo compasso e atingir o êxtase com enorme facilidade. Mas o rapaz até era fixe, e nem sempre levava dinheiro pelo seu labor. “O contrato” acabava por ser uma comunhão total, e andavam por todo o lado juntos. Na cama e fora dela. Iam a congressos, jantares… conversavam sobre tudo.
É então que surgem algumas interrogações: “É possível o sexo sem amor? O que acontece quando uma mulher chega à idade em que se torna invisível para os homens? Vale a pena tentar desesperadamente manter-se "sexy"? Tenho a certeza que o romance explica bem a forma como as mulheres conseguem gerir a invisibilidade e o desejo. Recomendo vivamente a obra!
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Neus Arqués
Um Homem de Aluguer
Quidnovi, 14,94 €

Castigo


Compreende-se porque é que Anne Holt é “a mais consagrada autora europeia de thrillers” e já vendeu mais de 4 milhões de livros, na verdade esta norueguesa de sorriso simpático, escreve bem e sabe exactamente como fazer-nos ficar agarrados ao livro da primeira à última página.
Este livro fala-nos do caso horrendo e infelizmente tão actual do desaparecimento de crianças.
Uma menina de nove anos, Emilie, desaparece quando voltava para casa depois da escola, na semana seguinte desaparece um rapazinho de cinco, que ao fim de dias é enviado num embrulho, para a mãe com um bilhete que diz: “Agora tens o que mereces.”
Poucos dias depois outra menina desaparece e aparece também empacotada e com o mesmo sinistro bilhete. A Noruega está em paranóia, criam-se comissões de vigilância entre os civis, ninguém se atreve a deixar nenhuma criança sózinha a brincar no jardim ou a ir ou vir sózinha da escola.
O que parte a cabeça a toda a gente, é que as pobres criaturinhas não apresentam ferimentos, nem evidência de abusos sexuais, ou de outro tipo de violência, aparentemente é como se tivessem morrido de um súbito ataque cardíaco.
O inspector Stubo, encarregado do caso, está desesperado, sem pistas e com a pressão da opinião pública em cima, dia a dia mais paranóica, à medida que as crianças desaparecem e vão aparecendo mortas, todas, excepto a primeira raptada, Emilie. Serão dois tarados diferentes? Será apenas um caso? Stubo resolve pedir a ajuda de Johanne Vik, que já trabalhou como profiler para o FBI. Mas Johanne tem mais que fazer e mais em que pensar, demasiado embrenhada em deslindar passado quarenta anos, a história de um antigo condenado, que estava aparentemente inocente e com a sua vida pessoal também retorcidinha.
Mas Stubo é charmoso e persistente e consegue convencer Johanne a dar-lhe uma mãozinha.
E aqui entra a mestria de Anne Holt, a autora, que baralha, torna a dar cartas, torna a baralhar e a dar-nos a prova de que o mundo para além de pequeno é redondo... Mais não digo!
Para os amantes do género thriller um livro a não perder.
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Anne Holt
Castigo
O Quinto Selo, 18,00 €

Querido Frank


Nancy Horan é jornalista e este livro é o seu primeiro romance, que lhe demorou sete anos a construir, mas a obra está exemplar.
Querido Frank é baseado na história de amor entre Mamah Borthwick Cheney e o famoso arquitecto americano Frank Lloyd Wright.
Em 1903 Mamah e o seu pacato marido Edwin, resolvem contratar o então jovem e revolucionário arquitecto Frank Lloyd Wright, para lhes desenhar uma vivenda.
Mamah e Frank vão-se tornando cada vez mais próximos e acabam por apaixonar-se, só que são ambos casados (infelizmente não um com o outro...) e têm filhos dos respectivos casamentos.
A puritaníssima Chicago do princípio do século XX, naturalmente não vê com bons olhos esta história amorosa e os media já então, não olhavam a meios para vender jornais, o abuso da privacidade alheia, a mentira, a deturpação dos factos, nada contam quando comparados com um bom escândalo, que regale de horror um público sedento de mexericos. Bom, passado um século não parece que a situação tenha melhorado...
Mas se certos media continuam com a mesma sanha persecutória, mixuruca e frequentemente difamante, a situação das mulheres (pelo menos no mundo ocidental...) melhorou alguma coisa, porque para Mamah, apesar da sua coragem, inteligência e vontade de aço, foi duro. Teve que escolher entre os filhos, a carreira, o homem que amava, sempre com o peso da condenação pública a persegui-la.
Este romance admirávelmente escrito, conta-nos uma bela história de amor trágica, entre dois seres excepcionais, o famosíssimo ícone da arquitectura americana do século XX, Frank Lloyd Wright e a quase desconhecida Mamah Borthwick Cheney, que graças a Nancy Horan e a este livro se tornará sem dúvida igualmente inesquecível.
Recomendadíssima a leitura!
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Nancy Horan
Querido Frank
Difel, 18,90 €

Os Pássaros de Banguecoque


Pepe Carvalho é uma das famosas personagens de Manuel Vasquez Montalban, um detective privado, boémio, curioso, inteligente, sempre irónico, com grandes dotes para a culinária e naturalmente apreciador da boa mesa.
Neste livro, Pepe Carvalho viaja desde Barcelona, até à sua já conhecida Banguecoque (recorde-se que foi nesta cidade que Montalban faleceu em 2003), com a missão de resgatar uma velha amiga, Teresa Marsé, senhora muito dada a meter-se em confusões amorosas e outras.
Depois de alguns telefonemas aflitos e enigmáticos, Teresa desaparece na misteriosa Banguecoque e não regressa conforme previsto, com o grupo de turistas com que partira em excursão à Tailândia.
Pepe Carvalho é então contratado pela família da desaparecida, para lhe descobrir o rasto nesse oriente exótico, cheio de máfias, drogas, esmeraldas e amores de aluguer.
E Pepe Carvalho lá vai, com a sua bonomia habitual, ou porque Barcelona o ameaça afogar em tédio, ou talvez por não ter conseguido fazer-se contratar, para resolver o caso do assassínio de uma bela e misteriosa mulher, Célia Mataix, morta com uma garrafa de champagne de marca desconhecida, ou talvez ainda para descobrir o nome dos pássaros, que pousam aos milhares ao fim da tarde nos fios eléctricos de Banguecoque...
Um livro delicioso, magistralmente escrito, cheio de personagens loucas e surpreendentes, em que cada diálogo, cada ambiente, cada paisagem são sublimemente pintados por esse grande senhor das Letras, que foi Manuel Vasquez Montalban.
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Manuel Vasquez Montalban
Os Pássaros de Banguecoque
Edições Asa, 14,50 €

A Força dos Afectos


O título do livro soava um bocado lamechas... embora o olhar demasiado sério da menina de sardas da capa o contradissesse...
Na realidade é um livro de uma humanidade comovente.
Torey Hayden, a autora conta-nos uma sua experiência, enquanto professora do ensino especial.
Agora imaginem que deparam com uma turma de meninos assim:
- três crianças da Irlanda do Norte, entre os 6 e os 14 anos, que assistiram a actos de terrorismo, cujos pais foram mortos e que deram por si a viver nos EUA com familiares emigrados
- um rapazinho de 11 anos esquizofrénico
- uma menina de 7 anos autista
- uma menina de 8 anos com sexualidade precoce
Parece complicado?
Mas há mais! Porque estas crianças têm famílias igualmente complicadas, particularmente Leslie, a menina autista.
Torey consegue gerir tudo isto, com uma ternura, um empenhamento e uma admirável firmeza.
Melhor, consegue resultados extraordinários com estes míudos.
Espanta-nos esta maravilhosa professora, envolve-nos, ensina-nos também.
Um livro lindíssimo, que faz rir e faz chorar, bem escrito, sem pretenciosismos literários. Directo! Daqueles livros em que ficamos com vontade de conhecer a autora, dar-lhe os parabéns, um abraço apertado e dizer: Muito Obrigada minha Senhora por ser como é!
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Torey Hayden
A Força dos Afectos
Editorial Presença, 20,00 €

Daniel Sá | Sports Marketing

1- De que trata este vosso livro?
R- O livro “Sports Marketing – As Novas Regras do Jogo” dá a conhecer os aspectos únicos do desporto, que permitem a compreensão global do fenómeno e a correcta aplicação do marketing neste domínio. Assumindo uma abordagem prática, o livro compromete-se a apresentar detalhadamente as especificidades do modelo Sports Marketing Game, enquanto ferramenta válida para a gestão eficaz das organizações desportivas.

2- De forma resumida, qual a principal ideia que espera conseguir transmitir aos seus leitores?
R- Ao longo de 135 páginas distribuídas por quatro capítulos, o livro apresenta um vasto leque de casos reais do desporto nacional e internacional e destaca as profundas alterações que se tem operado nesta área na última década. As novas regras deste fascinante e complexo jogo são agora ditadas pelo triângulo fan, show e sponsor. O livro ajuda a perceber o modo como os dirigentes desportivos podem desenvolver fluxos e potenciar cada um destes elementos com vista a fazer do desporto um negócio ainda mais envolvente, espectacular e rentável.
Estabelecer uma imagem positiva da organização desportiva, captar a atenção dos patrocinadores, estimular a adesão de público aos recintos e maximizar os proveitos são algumas das metas a que o marketing desportivo se propõe a alcançar. O livro alerta para as particularidades da realidade desportiva e para a necessidade dos gestores adaptarem e desenvolverem novas práticas de marketing com vista a alcançar os objectivos traçados e a fazer face às dificuldades económicas. A obra dá especial enfoque às nuances que derivam da aplicação de técnicas de marketing a organizações desportivas profissionais, semi-profissionais e amadoras.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- No futuro a ideia passa por continuar a escrever sobre esta área, mais especificamente sobre o comportamento dos fans desportivos.

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Daniel Sá/Carlos Sá
Sports Marketing
Edições IPAM, 19,95€

Casos de Polícia

Os crimes estão na moda devido à extensa cobertura mediática que recebem, casos como o desaparecimento da pequena Maddie ou a descoberta da «casa dos horrores» na Áustria merecem.
Tal como os casos que lhe deram origem, são livros substancialmente diferentes embora ambos procurem a verdade e as «explicações» possíveis para o que se passou.
Muitas vezes as televisões evidenciam as partes mais espectaculares e superficiais do crime ou da investigação. Mas, em forma de livro, os autores vão mais longe e procuram esclarecer e destacar com maior clareza as diversas facetas destes dois casos de polícia. São, por isso, importantes para conhecer e compreender e para reflectir.
O caso Maddie é aqui analisado em profundidade com uma visão vinda do interior da Polícia Judiciária, num testemunho directo do autor que foi um dos principais investigadores no terreno.
O perfil de Josef Fritzl que este livro mostra resulta de uma intensa e completa pesquisa para tentar perceber o percurso, as motivações e os actos do «monstro» austríaco.
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Gonçalo Amaral
Maddie-A Verdade da Mentira
Guerra e Paz, 13,30€
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Nigel Cawthorne
A Casa dos Horrores
Ideias de Ler, 13,90€

Maria Isabel Barreno | Vozes do Vento


1 - O que representa, no contexto da sua obra, o livro "Vozes do Vento"?
R- As "Vozes do Vento" vêm terminar uma história iniciada com "O Senhor das Ilhas". Quinze anos se passaram desde então. Por circunstâncias várias, o projecto foi interrompido e adiado. Cheguei a pensar que este livro não queria ser escrito. Na escrita há destes mistérios. Há projectos que morrem e outros que persistem contra todas as adversidades.

2- Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R- Trata-se da narração da história de uma família, desde a fortuna e os êxitos de Manuel António Martins - "O Senhor das Ilhas" - que no final do século XVIII foi para Cabo Verde, até à decadência e ao esquecimento, nas gerações seguintes. Estas gerações, dispersas e anónimas, são "As Vozes do Vento". Uma história que espelha as vicissitudes e o destino do chamado "império colonial português".

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Talvez um romance, talvez contos. Ainda é cedo para saber. Terminado um livro, fica-se num mar de ideias. Ideias soltas, que vagueiam. Terei que esperar para ver quais se afirmam, e também a sua consistência e extensão. Às vezes há pequenas ideias que acabam por conter romances inteiros.
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Maria Isabel Barreno
Vozes do Vento
Sextante Editora, 16€

Milhões de Mulheres à Espera de um Encontro – Uma história de vida, amor e encontros na internet


Um livro curioso e bem disposto, bastante íntimo e assumidamente escrito na primeira pessoa.

Sean Thomas é jornalista e um daqueles solteirões inveterados, que quase a passar a barreira dos quarentas, vê os amigos e as amigas a casar-se, ter filhos, divorciar-se, enquanto teimosamente continua em busca da parceira ideal.

Até que um dia, o seu editor da revista Men’s Health lhe sugere escrever um artigo sobre o mundo das relações amorosas na internet e porque não aproveitar a boleia do trabalho e encontrar a parceira perfeita?

Sean desconfia. Encontrar a mulher dos seus sonhos via net?! Estaria o editor a chamar-lhe incapaz de conseguir parceira por vias “normais”? Que mulheres verdadeiramente interessantes se exporiam assim em sites de encontros? E o romantismo? Haveria lugar para o romance neste frio mundo de teclas, fios, cabos subterrâneos e encontros às cegas?

Mas não se discute com o patrão, trabalho é trabalho e como da proposta faz parte o pagamento integral, das despesas dos doze primeiros encontros... o nosso Sean atira-se de cabeça para o universo dos amores cibernéticos.

E é adorávelmente sincero, com o picante da auto crítica bem humorada, Sean conta-nos tudo, as suas expectativas, as suas inseguranças, as desilusões, o vício de ficar dias colado ao computador, os pormenores por vezes caricatos dos encontros, as contas astronómicas de registo nos sites que promovem o amor, as suas descobertas sobre a sua própria sexualidade e a dos homens em geral.

Um livro bem escrito, honesto e muito divertido sobre os amores e desamores na internet.

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Sean Thomas

Milhões de Mulheres à Espera de um Encontro

Editorial Presença, 15,00 €

O Despertar dos Mágicos


Lembro-me de ter lido há mais de trinta anos, este mesmíssimo livro, numa edição de capa preta. Na altura foi um deslumbramento. Pudera!
Nessa época em Portugal, só se falava de coisas concretas e palpáveis, esquerdas e direitas, revoluções e contra revoluções, não havia lugar para mistérios, fenómenos paranormais, visitantes do espaço, manifestações do oculto e outras “coisas esquisitas”.
Creio que hoje estamos numa época diferente e mais abertos à ideia de um universo vasto e misterioso, que se mistura sem aviso e frequentemente sem ámen científico, com nosso mundo supostamente concreto e palpável do dia a dia (veja-se o que dizem os mais avançados estudos de física quântica!).
Começa a haver espaço para uma dimensão espiritual do Homem, sem esta estar forçosamente ligada a qualquer religião. Já nem tudo o que não se explica científicamente em laboratório é superstição ou demência.
O Homem enquanto Ser está mais amplo, recuperou a alma, o espírito, ou que lhe quisermos chamar.
Nestes dias em que as teorias da conspiração fazem já parte das conversas de café, em que a ideia de visitantes extraterrestres não parece descabida a quase ninguém, O Despertar dos Mágicos é um clássico velhinho, desactualizado em muitos pontos, é certo, mas mantem a aura de magia, fascínio e arrojo que os seus autores lhe deram página a página.
Continua a ser um livro recomendável para quem nunca o leu e um prazer nostálgico para quem o teve nas mãos algum dia.
Porque este livro continua a deixa-nos com “a pulga atrás da orelha”, num mundo de assuntos nunca completamente explicados: Civilizações desaparecidas como a Atlândida ou a Lemúria, Stonehenge, a alquimia e os alquimistas, os negros rituais nazis por detrás dos factos políticos, ovnis e extraterrestres, e mais e mais!
Bom e interessante livro a ler ou a reler.
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Louis Pauwels e Jacques Bergier
O Despertar dos Mágicos
Bertrand Editora, 18,95 €

Homens Al Dente



Sempre que falamos de Itália, lembramo-nos de Roma e do seu majestoso e semi-recuperado Coliseu; do Vaticano e a sua monumental Basílica de São Pedro com o Papa, vestido de branco, lá bem no alto; recordamos os fabulosos canais de Veneza; a inclinada Torre de Pisa, que à noite, iluminada, ainda é mais bonita, mas lembramo-nos também das fabulosas pizzas e das longuíssimas massas de mil cores, cheias de sabor e condimentos. E é nesta última, as massas, que tudo gira e roda como um comboio de corda que se chama coração, já dizia o meu (nosso) Pessoa. Aliás, foi preciso visitar o país para saber que, além das pizzarias, existiam também as spagueterias. Aqui os clientes podem encher a barriguinha, mas só com massinhas. As tais massinhas que enleiam toda a história do livro.
Nesta obra, Gaby Hauptmann apresenta-nos mais um romance que, tal como muitos outros que já escreveu, vai certamente transformar-se num best-seller, traduzido em várias línguas e até adaptado ao cinema. Tem todos os condimentos para que isso possa acontecer.
A escritora alemã, que também é jornalista, serve ao cliente uma saborosa narrativa de amor entre a Niki (também ela de origem alemã) e o Marco (curiosamente, o primeiro nome do célebre marinheiro e explorador italiano).
Nesta obra, encontramos o Marco, que não é Polo, por isso, não está muito virado para as viagens marítimas. Com 24 anos, prefere dedicar-se a gerir o seu negócio em terra. Este Marco é um milionário das massas. Vive para os lados de Milão. Além disso, é bonito e sedutor. A fortuna, herdou-a de uma dinastia de fabricantes de diversos tipos de spaghetti (diminutivo de spago que quer dizer corda em italiano).
Além do seu negócio, que lhe dá algumas dores de cabeça, nem que seja para perpetuar, no tempo e nos genes, esta sua herança familiar, ele tem agora de saber gerir o amor que algumas mulheres sentem por ele. Ou ele por elas!? No seu caminho, até aqui calmo e pacífico, começa por cruzar-se a Niki. A tenra jovem de 20 anitos, que resolveu ir de férias para Itália e tirar, com grande êxito e sucesso, um curso de inglês. Conta a autora que o empenho da jovem no curso de línguas já a “faz sonhar em Inglês”. Niki conhece o Marco e a sua riqueza. Às suas mãos, inesperadamente, caíra um homem atraente que conduzia um Rolls-Royce e bebia Cabernet Sauvignon. Os dos jovens são os grandes protagonistas da história. Mas no seu caminho está a mãe de Niki, também ela muito atraente e uma célebre condessa, que lhe é imposta pela mãe do Marco. Escusado será dizer que o jovem anda com a cabeça às voltas e completamente baralhado.
Neste romance não encontramos o habitual triângulo amoroso, tão característico das obras do século XVIII e XIX, mas um quadrado romântico. A narrativa é construída toda ela num discurso indirecto livre, com uma boa predominância de gordos diálogos. O estilo, muito ousado, dá vitalidade à leitura e torna até o leitor um empolgante e galopante devorador de páginas para conhecer o desfecho da história. Da autoria de “Mulher procura homem impotente para relacionamento sério” ou “Mentiras na Cama”, esta obra é requintada, romântica e até picante. Leiam!

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Gaby Hauptmann
Homens Al Dente
Bertrand Editora, 13,95 €

Escândalo


Este é, sem dúvida, um grande romance a vários níveis. Além das suas quase 700 páginas, ricas em acontecimentos muito diversificados, o romance cruza a história de vários personagens em tempo e espaço. Em comum têm a riqueza e, de seguida, uma enorme desgraça que lhes bate à porta. Tudo se passa na Grã-Bretanha, onde ocorre um mega escândalo financeiro. A obra, recomendada pela grande parte dos críticos literários, é um autêntico acerto de contas com a vida.
Fortemente realista e actual, tendo em linha de conta a crise económica mundial, Penny Vincenzi, através das Edições ASA, conta-nos a história de Lucinda e Nigel, Elizabeth e Simon, Debbie e Richard, cujas vidas lhes sorriam. Eram carreiras de luxos e altos momentos de glamour, casamentos felizes, casais mergulhados em piscinas de dinheiro e a viver em mansões cheias de luz e harmonia. Depois, surge o escândalo financeiro que destrói tudo. E é a partir daqui que a narrativa de aprendizagem social se desenvolve e ganha alma. Tudo começa a girar em redor do peso e da força que tem o dinheiro. As frases, que até aqui eram longas e ricas, cheias de ânimo e alento, passam a ser cruas, secas, duras, limadas e cortadas até ao limite. As descrições das tragédias (muito semelhantes às do nosso Eça nas suas variadas publicações) que se arrastam num ápice transformam a narrativa num autêntico best-seller e levam até o leitor a pensar como reagiria perante tal drama.
Para alguns, este livro poderá ser uma crítica de costumes de gente enfatuada, mas na verdade ele retrata uma história penosa de conduta amoral e oportunista que pode bater à porta de todos aqueles que lidam com milhões que fazem biliões e depois se transformam em tostões. Veja-se a recente notícia lusa do ex-casal de namorados de Barcelos que, depois de uma zanga, continuam a ver congelados pelo tribunal os 15 milhões de euros que ganharam no Euromilhões. Também nesta obra, o dinheiro (ou melhor, a falta dele) desmorona casamentos e carreiras, as amizades transformam-se em zangas, as paixões em abandonos e a fidelidade em traições. Quem sobreviverá perante tamanha calamidade? Como sobreviveria você? Já tinha pensado nisto?

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Penny Vincenzi
Escândalo
ASA, 16,50 €

Não Há Sexo na Cidade


O livro que aqui apresentamos vai muito para além do sexo. Aliás, essa não é a questão fulcral da obra da autoria de Suad Amiry. Para além do título ser muito sugestivo em termos de marketing de vendas, aqui, a palavra sexo serve para lembrar que os protagonistas destas histórias são apenas mulheres. Neste livro, o leitor é uma testemunha, um confidente, um juiz e até, às vezes, um cúmplice de conversas de mulheres que, numa «tertúlia feminina» chamada Darna Restaurant, em Ramallah, abordam várias temáticas que marcam o quotidiano no médio oriente. Aliás, este espaço de conversas não foi escolhido por acaso. O Darna Restaurant existe na realidade, e uma das suas características é que, graças à sua arquitectura, proporciona um ambiente confortável e íntimo para conversas muito peculiares.
Além do amor e do sexo, as mulheres falam da guerra e retratam a família. Apesar de serem muito diferentes fisicamente, a nível de vivência têm em comum o facto de nunca terem visto concretizados os seus sonhos, assim como as suas aspirações, na Palestina. A revolta destas mulheres começa pela vitória do Hamas, que terá, alegadamente, apagado a última vela para a libertação da Palestina. Os muros construídos por Israel são agora uma prisão mais forte do que no antigamente. Aliás, podemos dizer que a obra é muito actual, e recorda-nos o mais recente conflito israelo-palestiniano.
O livro é fruto de um grande profissionalismo e de um grande conhecimento geopolítico por parte desta autora, arquitecta de profissão, que tem dedicado muito da sua vida à arquitectura palestiniana. Segundo a própria, as histórias que aqui são relatadas saíram do seu interior sem grandes dificuldades. Aquilo que viu e sentiu, facilmente passou para o papel.
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Suad Amiry
Não Há Sexo na Cidade
Âmbar, 18,01 €

Emília Ferreira | Cartografia Íntima


1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Cartografia Íntima»?
R- Cada livro, para mim, funciona como uma experiência narrativa e reflexiva. Não me considero uma contadora de estórias no sentido mais evidente da tessitura da narrativa, mas sim uma inquiridora que usa as estórias como pretextos para fazer perguntas. "No contexto da obra", no entanto, parece-me ainda prematuro avançar com a importância deste texto, porque acho que ainda não tenho "Obra". Tenho algumas obras, o que é muito diferente. Talvez daqui a dez anos possa ter uma ideia do que isso significa.

2- Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R- Este livro — que faz parte de um conjunto de cinco — levanta questões sobre o tempo, o que ele inscreve em nós. Num período histórico como o nosso em que queremos tantas vezes parecer mais novos do que somos, em que a morte é um assunto mal resolvido e a vida se perde na perseguição de ilusões, a minha personagem anda ao contrário da maré, fascinando-se com o tempo, olhando-se e descobrindo-se na escrita que ele — e a vida — inscreve no seu corpo. Tendo a morte no horizonte ela sabe que tem de valorizar o circunstancial. O facto de não vivermos para sempre devia iluminar as nossas prioridades, a nossa perseguição dos objectivos maiores da nossa vida. Este livro anda também por isso muito em torno de uma frase do Vergílio Ferreira em "Aparição": "A vida devia iluminar-se na presença da morte". A morte é a única bitola. Porque haveremos de trabalhar para sermos infelizes se tudo passa e este é o único momento que temos?Por outro lado, este livro, como referi, é o primeiro de cinco. Cinco, como os sentidos tal como tradicionalmente vistos. Os cinco sentidos são um tema frequentemente tratado na História da Arte. Resolvi experimentar uma actualização desse tema. A ideia original era simplesmente escrever um conto sobre o tema. Rapidamente esse conto acabou por se transformar em cinco estórias e depois percebi também que a primeira estória se estava a transformar num romance. Tive de transformar todo o projecto e espero que dele saia um conjunto de inquirições que toque os leitores.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Entre outras coisas, o segundo volume deste projecto.
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Emília Ferreira
Cartografia Íntima
Difel, 13€

Viagem

O livro foi escrito por um casal de médicos duma universidade de Nova Iorque, que dedicaram as suas vidas ao estudo de um diário de um monge do século XII.
Voltaram atrás no tempo, na esperança de arranjarem explicações para tantas dúvidas que a todos nós se poderão também colocar.
O diário coloca uma nova questão, nomeadamente se este levaria a que um pergaminho do tempo de Jesus Cristo fosse encontrado.
Por um acaso do destino, um cibernauta cruza-se com uma excelente tradutora que havia pertencido às forças armadas israelitas e das quais havia sido expulsa, formando uma equipa indestrutível na busca do pergaminho.
Muitos outros, por ambição ou fanatismo, conspiravam, matavam e movimentavam grandes quantias de dinheiro, que usavam para subornos, na esperança de terem acesso aquele pergaminho que teria sido escrito por alguém muito próximo de Jesus Cristo.
Um livro absorvente, que coloca o leitor a acompanhar a "viagem" de Gil e Sabbie, que correm todos os riscos, pondo em causa a sua própria vida.
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Richad e Rachael Heller
O 13 º Apóstolo
Oceanos, 16€

Regresso ao passado


Tudo começa quando um jovem parte de Itália para Nova York para esquecer um desgosto de amor e outras desilusões da sua vida.
Volta dois anos depois e fica surpreendido com o mito que criaram à sua volta. Vai surpreender-se à medida que encontra os amigos que deixou.
O encontro com uma bonita e inteligente jovem dá-se numa bomba de gasolina. A partir daí não deixam mais de se ver. No entanto, a relação entre eles nunca é pacífica.
Cabe ao leitor desvendar se este amor tem um final feliz ou, se pelo contrário, um amor do passado volta a renascer.
A quem se destinará a mensagem "Quero-te muito"?
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Federico Moccia
Quero-te Muito
Quinto Selo, 19,50€

Jorge Listopad | Deslizamento

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Deslizamento»?
R- É curioso: quando estava a ler as provas, que normalmente é um trabalho chato, apaixonei-me pelo "Deslizamento" e, de repente, muita coisa se me tornava clara, na literatura e fora dela.

2- Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R- Escrever, escrever, dizer.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Nada.
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Jorge Listopad
Deslizamento
QuiNovi, 14,94€

Com história

"A Terra Será Tua" é um romance histórico de leitura aliciante que nos narra os dramas, amores, traições, vinganças, tramas, invejas e toda uma série de sentimentos.
Tudo o que no silêncio das cortes se tecia para se ser considerado cidadão de Barcelona, um alto cargo que abria muitas portas.
São-nos ainda contadas duas lindas histórias de amor de duas jovens com finais diferentes.
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Chufo Lloréns
A Terra Será Tua
Bertrand, 21,95€

Anastasia


Este é o primeiro livro da série “Os Cedros Ressoantes da Rússia”, que está a entusiasmar milhões de leitores de todo o mundo, pois as pessoas vêem as suas necessidades e as suas dificuldades aqui retratadas, permitindo-lhes a leitura desta obra um “glimpse” do que poderá ser a vida.... se for de outra maneira…
E embora percebamos desde logo no estilo de escrita a qualidade de “não escritor” do seu autor, este pode-se tornar um livro marcante nas nossas vidas, como aconteceu desde logo com a editora Joanne Gribler.
Como fundadora em Portugal do Yoga do Riso, elemento da Operação Narizes Vermelhos (palhaços nos hospitais) e mentora de tanta boa disposição neste país, pouco percebia de editoras, até que leu estes livros em inglês e, dado viver em Portugal há bastantes anos, decidiu que tinha que trazer esta colecção para Portugal. Tentou primeiro algumas editoras, até que resolveu criar a sua própria, que edita agora esta colecção. Porque teve que ser. Porque sim.
Mas quem é, afinal, Anastasia? É uma mulher, uma simples mulher... que vive na simplicidade da taiga siberiana, nos confins da Natureza profunda, em contacto directo com a informação de que necessita, e cujos conhecimentos cobrem desde a área da maternidade, história, sexualidade, agricultura, religião, ciência, e muito mais…
Aliás, quando escrevo estas linhas, uma das notícias de 1ª página de alguns jornais de hoje tem a ver com um tema muito caro a Anastasia: o voltar ao contacto com a terra, nos pequenos terrenos onde cada um semeia, planta, rega, e acarinha as plantas, flores, para que também elas, parte da Natureza, nos devolvam essa boa energia.
Quanto a mim, também já trouxe muito boas mudanças à minha vida…
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Vladimir Megre, Anastasia
Joanne Gribler Editora
www.cedrosressoantes.com

Epístolas dos tempos que correm

Quem escreve cartas a quem, nestes tempos de comunicação virtual por tudo quanto é sítio, por toda a gente, a toda a hora? Ainda há quem se perca em mensagens manuscritas, em papel, com envelope, afixadas numa parede de uma avenida parisiense?
No mundo das mensagens virtuais poderia sobrevir algum constrangimento aos convivas, pelo facto de se exporem ao vivo em chats, fóruns, twitters, messengers, contarem as suas vidas, acreditarem cegamente em interlocutores que de todo desconhecem.
No mundo das cartas tem-se por adquirido que no envelope vai um endereço, a elocução há-de começar por um vocativo com destinatário implícito ou explícito. Daí que o campo das confidências fique mais ou menos clarificado, diminuídos os riscos de relatos mal confiados.
Imagine-se, agora, uma estória baseada numa troca de bilhetinhos, por interposta afixação junto de uma placa de homenagem a um jovem da Resistência Francesa, assassinado por esbirros alemães que ocupavam Paris. Quem vai acreditar nisto, tanto mais que uma nota prévia do livro garante a autenticidade da correspondência?
Seja como for, trata-se de uma efabulação bem conseguida, em que não falta sequer o recurso aos modernos meios de comunicação, com troca de e-mails para pedir esclarecimentos e obter informações, completada com a tradicional carta dos correios.
Por fim, a luz sobre a personagem mais enigmática, o velho resistente que ateara o pavio da comunicação, conseguindo mobilizar a atenção da jovem Emma, tocada pela morte do jovem resistente que Louis teimava em recordar por todas as formas.
Foram os jornais, daqueles impressos, já dados como mortos ou em vias de, que esclareceram o anonimato e a discrição, de Louis – neste caso, o silêncio. Fizeram-no pelo modo tradicional, de sempre. No livro não consta que algum blogue se tenha interessado.
Boa história, originalmente contada, ainda mais pela reflexão que permite sobre o mérito das diversas formas e meios de comunicação. Não consta que já esteja disponível em e-book, há que lê-la em papel.

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Jean-Laurent Caillaud
Longe da vista, perto do coração
Publicações Europa-América, 11,50€

O Labirinto da Felicidade


Esta é “uma fábula encantadora sobre o sentido da vida”. É uma pequena obra (só em tamanho) que pode levar muitas horas ou até alguns dias a ler. É que, por vezes, em cada frase, instante ou momento, obriga o leitor a parar e a reflectir sobre si mesmo. O que faria eu perante esta ou aquela situação? Que resposta teria perante este enigma? Estarei a sonhar acordado? Quando acordar, tudo será diferente?
O livro de Álex Rovira e Francesc Miralles é talvez daqueles que mais me obrigou a reflectir até hoje, pois acaba por ser um acerto de contas com a vida. De suspense tem muito pouco ou quase nada. Denota claramente influências de “O Principezinho” ou até de “O Feiticeiro de OZ”. O que encontramos é uma obra, publicada pela Pergaminho, onde o génio de dois autores se cruza. Um economista e um tradutor trazem até nós a história e a magia de uma jovem mulher de 33 anos que vagueia perdida por um labirinto, longe da sua cidade. Pelo caminho, por vezes sinuoso e cheio de interrogações e medos, Ariadna encontra alguns personagens que lhe deixam conselhos e opiniões. E é a partir daqui que tudo gira e encanta. Os enredos levam cada leitor a tentar encontrar a resposta que ele próprio daria perante tal situação. A tarefa da protagonista é encontrar, completamente sozinha, respostas para poder chegar ao centro do labirinto, e perceber se “ser feliz é uma meta ou uma forma de vida”?
Apesar de às vezes sombria, por ser toldada pelo ambiente típico do bosque, a ficção acaba por ser alegre e até ousada em forma e conteúdo. Poderá até ser uma crítica de costume a quem tem por hábito pouco pensar sobre si mesmo. No entanto, o verde da capa (símbolo da esperança) associa-se muito bem ao título, onde se destaca a palavra “felicidade”. Estes dois elementos são reveladores de um final feliz. Sendo ele constituído de imagens poderosas, pode-se dizer que assenta numa técnica cinematográfica, onde o desfecho vai progressivamente ser adivinhado pelo leitor.
Normalmente, não sou dos que gosta de revelar o final da história, mas aqui posso dizer que a passagem de Ariadna por este labirinto transformou totalmente a sua vida porque encontrou as respostas adequadas à sua situação. Aconselho esta obra, que continua a surpreender leitores por este mundo fora. Será que você vai encontrar respostas certas e conseguir sair do seu labirinto? Leia, vale a pena!
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Álex Rovira e Francesc Miralles
O Labirinto da Felicidade
Pergaminho, 10,00 €

Cristina Carvalho | O Gato de Uppsala


1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «O Gato de Uppsala»?
R- Realmente, este romance foi uma experiência. Saí da minha linha de escrita. Ou por outra, consegui sair da "marca" das minhas histórias anteriores. Desliguei-me completamente de mim. Desafiei a minha imaginação, o que não é fácil ao fim de tantos e tantos anos a escrever com um certo rumo. Esta frase - tantos e tantos anos a escrever - não quer dizer que tenha publicado tantos e tantos livros! Nem pensar! Tristemente, chego à conclusão que publiquei antes deste, apenas 4 livros. Escrevi muito, é verdade. Mas do escrever muito à grande publicação vai um passo enorme. Tive pouco tempo toda a minha vida. Trabalhei muitos anos, tive filhos. Às tantas, temos de escolher. E, como sabe, para escrever livros ou para pintar quadros ou para desenhar vestidos, é preciso silêncio, concentração, experiência que vem desse silêncio e dessa concentração. E a vida é curtíssima! Eu quis escrever, eu quis amar, eu quis ter filhos, eu quis os meus amigos, eu quis e quero ler muito, ouvir muito, viajar muito, sonhar ainda mais; eu quero sentar-me nas pedras do meu jardim e não fazer nada, nada, nada. Quero escutar o silêncio da noite, o silêncio dos dias, o piar dos pássaros da noite, o remexer das folhas nas árvores. Eu quero tudo e sei que vou morrer com tão pouco, com quase nada.Estou a fugir à pergunta, não é? Pois, no contexto da minha obra que eu espero que finalmente cresça, este livro, O Gato de Uppsala, é uma feliz experiência. Ao escrevê-lo senti uma espécie de felicidade, uma espécie de alegria, se assim se pode chamar aquilo que senti e que gostava de transmitir a quem o possa vir a ler.

2- Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R- Eu sempre desejei escrever qualquer coisa a que pudesse chamar de -Natural- O romance O Gato de Uppsala, para mim, é um hino à Natureza e apenas isso. Quando o comecei a escrever, pensei em tudo e não pensei em nada. Quis dedicar esta história à minha Terra, ao meu planeta Terra, ao céu, aos astros, às árvores, aos "bichos todos", ao mar, às rochas do mar e às gargalhadas das suas gaivotas; à terra pela terra que é, a tudo o que é natural e a tudo o que compõe a Natureza porque eu sou parte dela, nasci dela e a ela voltarei, assim como toda a gente. Digo isto não no sentido religioso, mas no sentido cósmico, mágico, impenetrável, indecifrável e infinito. Secreto.Portanto, na origem desta história, está o meu sentimento pela Natureza. Pela Natureza em paz e pela paz da Natureza.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Estou a meio dum romance que deverá estar pronto em Setembro para ser publicado logo no início do próximo ano. Estou também em fase de revisão dum outro romance já terminado.
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Cristina Carvalho
O Gato de Uppsala
Sextante Editora
Blogue do Livro: http://www.gatoduppsala.wordpress.com/

Viver com a tribo

A relação entre cinema e literatura é por demais conhecida. Mas, mais recentemente e devido à cada vez maior influência da televisão, os papéis inverteram-se e são as séries que justificam a edição de livros. Há vários exemplos, como “Sahara”, do incontornável Michael Palin. Ou o agora publicado em Portugal “Tribo – Aventuras num mundo em mudança”, de Bruce Parry, em colaboração com Mark McCrum (que deu forma e tornou legível o livro).
“Tribo”, o livro, vem na sequência da série da BBC com o mesmo nome, aproveitando o seu êxito e, já agora, o muito material recolhido e o trabalho feito ao longo de mais de quatro anos de filmagens.
O objectivo da BBC foi «fazer uma série de programas emocionantes sobre os povos indígenas que habitam alguns dos lugares mais remotos do mundo», uma abordagem prática que respondesse a perguntas concretas como a subsistência, a interacção familiar e social, os sentimentos e crenças dessas gentes. E considerou que a melhor forma de responder a tais questões «seria convencer o apresentador Bruce Parry a viver nestas comunidades durante um certo período de tempo. Não permanecer num acampamento nas proximidades, na companhia da equipa, mas viver de facto como os habitantes dia e noite».
O livro é, pois, o relato escrito do que foi a experiência de Bruce Parry enquanto viveu como “um homem da tribo”, ou seja, entre os habitantes das 15 tribos dos cinco continentes objecto de divulgação nos programas de televisão.
Essa experiência, com o que teve de melhor e com as situações menos felizes ou compreensíveis aos olhos de citadinos ocidentais, (pre)enche as quase três centenas de páginas do livro, contribuindo para “destruir” a visão romântica e estereotipada do indígena exótico e mostrando ao leitor que, independentemente do lugar e condições em que habitam, os homens são, no essencial, todos iguais.
“Tribo” está escrito num estilo coloquial e dinâmico, o que torna a leitura uma aventura também para o leitor.

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Bruce Parry
Tribo – Aventuras num mundo em mudança
Publicações Europa-América, 24,91€

Amilcar Betega | Os Lados do Círculo


1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Os Lados do Círculo»?
R- Representa sobretudo a experiência de dois sentimentos antagônicos no que diz respeito a uma avaliação externa do meu trabalho: o da rejeição e o da aceitação. Inicialmente uma rejeição porque este livro (ou pelo menos a sua essência, o que ele era quando dei ele por terminado e decidi publicá-lo) foi rejeitado por todas as editoras do Brasil. A tal ponto que depois de muito insistir, eu decidi abandonar a idéia de publicá-lo e passei a trabalhar em outro livro. Este outro livro, "Deixe o quarto como está", eu o publiquei logo a seguir, com muito boa recepção por parte da crítica. Na esteira dessa publicação e de sua repercussão, "Os lados do círculo" acabou ele também sendo publicado. E teve não só uma bela recepção da crítica como também ganhou no ano seguinte o Prêmio Portugal Telecom de Literatura, um dos prêmios literários mais importantes do Brasil.
Isto confirma que a avaliação de um livro, seja por parte da crítica, ou do mercado editorial, é sempre subjetiva e não pode ser tomada como sentença definitiva.

2- Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R- Eu queria trabalhar uma idéia central, um conceito, que acabou sendo o da circularidade. Não posso precisar exatamente como surgiu a idéia de "circularidade", porque essas coisas vão acontecendo, o livro vai se construindo e no final já não se sabe exatamente como ele se construiu.
Uma das coisas que mais me atrai no gênero conto é essa característica de estrutura que se fecha nela mesma, que se basta, seu caráter de unicidade, algo que aponta para um certo rigor matemático. Eu queria explorar isso em termos de recurso — e ao mesmo tempo delimite — formal. Porque é a onipresente noção de limite (n° de personagens, elementos do cenário, tempos narrativo e de leitura, incidentes da trama, etc.) que dá ao conto o rigor formal e a economia precisa que o caracteriza. Limite que, transpondo para a vidinha nossa de cada dia, a gente encontra todo o tempo e por todo o lado. Então eu queria fazer uma ponte entre a estrutura circular como modelo formal do conto e a tematização de uma realidade urbana contemporânea que pode também assumir algo de "circular" e limitado, um "andar em círculos" permanente.
Além disso, essa idéia de circularidade é perseguida não só em cada conto individualmente, mas também na estruturação global do livro, na ordem e distribuição dos textos. Se o leitor lê os textos na ordem proposta ele vai percorrer um caminho que de certa maneira é circular. Os contos de "um lado" se correspondem, de uma ou outra maneira, com os contos do "lado um", como se houvesse um espelho no meio: o primeiro conto tem uma seqüência no último, os personagens do segundo reaparecem no penúltimo, o terceiro se corresponde com o antepenúltimo, e assim vai.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Estou escrevendo aquele que será meu primeiro romance. Depois de achar que jamais escreveria um e me fechar, um pouco ridiculamente, na defesa do conto contra a preferência editorial do romance, resolvi aceitar o desafio de uma produtora de São Paulo que montou um projeto onde 17 escritores brasileiros foram enviados a 17 cidades diferentes espalhadas pelo mundo inteiro para lá passarem um mês e depois escreverem um romance ambientado na cidade em questão. Assim, em 2007 passei um mês em Istambul fazendo de conta que era um habitante da cidade e me impregnando dela. Agora estou escrevendo um romance a partir do que vi e vivi em Istambul nesse período.
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Amilcar Bettega, Os Lados do Círculo
Editorial Caminho, 12,50€

Os comunistas ainda têm a culpa de tudo?

O interesse dos americanos pela história da Rússia (entenda-se comunismo) existe desde que o comunismo por lá se fez notar. Recorde-se o esforço de John Reed, simpático para os sovietes, esse nada imparcial, assumidamente interessado na Revolução em que Lenine pontuava e que ele foi conhecer.
Pretensamente independentes surgiriam muitas obras, ao longo das décadas, uma boa parte sobre o que foi o grande obreiro da implantação dos sovietes. Outras focavam-se em Estaline, para aproveitar o lado sórdido do sujeito e assim atingir o que realmente interessava em Washington: denegrir a que era anunciado como uma mudança do mundo em favor dos pobres, humilhados e explorados.
Haverá quem se lembre das campanhas dinamizadas nas “inocentes” Selecções do Reader’s Digest, contendo as mais diversas “investigações”, ensaios e peças de vários géneros (até anedotas!). E, paralelamente, no mundo editorial livresco, lá estavam as tais obras de historiadores, políticos e investigadores de diversa índole, procurando ir mais longe nas tintas negras com que se pintava os líderes de Leste, e a respectiva doutrina marxista.
Autores de outras nacionalidades se deixaram fascinar, alguns deles por personagens de comunistas, ou pela própria ideologia, embora longe de a ela aderirem. Em muitos casos, o que se dizia e escrevia sobre o marxismo, os sovietes e todo esse mundo mantinha-se obscuro, manipulado por um lado ou pelo outro.
Desfeita a “cortina de ferro”, morto ou domesticado o papão, nova onda de investigações procurou reforçar esse trabalho, justificando-o com um olhar mais próximo, nos casos em que isso foi possível com base em fontes e arquivos do próprio regime que se finou às mãos da perestroika. Noutros casos, foram tombos ocidentais, entretanto desclassificados e disponíveis a consultas públicas, que proporcionaram novas abordagens, com elementos diversos, por via de intervenientes também diferentes. Os resultados, porém, não divergem muito.
No caso deste livro, escreve o autor que “começou com uma ideia e um plano: a ideia era compilar uma narrativa geral sobre o comunismo em todo o mundo; o plano era fazê-lo, reunindo principalmente a literatura secundária existente em todos os países que conviveram com o comunismo”.
Para recolha de informação, Robert Service aproveitou um ano sabático no Instituto Hoover, na Universidade de Stanford, e ficou espantado com a dimensão do acervo. Assim, surgiu um livro que “investiga o comunismo nos seus muitos aspectos”; analisa os “estados comunistas, as suas lideranças e sociedades”; a ideologia comunista e “a atracção que este exerce sobre pessoas de fora desses estados”.
Enfim, uma história mundial do comunismo, como Service ousa referir. E daí que o título, com a possibilidade de parecer provocatório, irónico ou desdenhoso, remeta antes para uma tentativa alargada de perceber tal alastramento de uma filosofia política nascida na cabeça de dois homens – Marx e Engels.
Recordando a forma como se relacionou com a ideia do comunismo, Service detém-se no efeito que nele, e em colegas de escola, teve a Revolta Húngara, com os relatos e fotos nos jornais da época. Lembra a invasão do Tibete, e que “os livros dados como prémio anual na catequese incluíam testemunhos da resistência cristã ao ataque do totalitarismo marxista-leninista”.
Mas soma-lhe o interesse que lhe despertou o estudo da literatura russa na universidade, tornando-lhe óbvia a necessidade de conhecer as raízes históricas “da ordem soviética”. “Além disso, esse foi um período em que os estudantes debatiam o marxismo. Havia discussões infindáveis sobre a natureza iminentemente despótica ou potencialmente libertadora do comunismo”.
Esta tendência para o debate trazida da juventude levou este professor de Oxford e do St. Anthony’s College a uma leitura não tão aberta. O tom geral da obra é de hostilidade, como a referência genérica aos dirigentes comunistas que “olhavam pelos seus interesses e se alguma vez se preocupavam com o bem-estar do povo, isso só acontecia depois das suas próprias necessidades terem sido satisfeitas”.
O maoísmo, por exemplo, “era uma variante do marxismo-leninismo. A sua falência era evidente para a maioria dos chineses muito antes de Mão ter morrido”.
Service reconhece, no entanto, que desde a Segunda Guerra Mundial os líderes ocidentais se opunham a toda e qualquer forma de comunismo onde quer que aparecessem indícios. “Mas esta política foi abandonada nos anos 70, quando os EUA efectuaram uma aproximação com a República Popular da China e até apoiaram o regime de terror comunista de Pol Pot”, reconhece.
É este exemplo de esforço de compensação que, afinal, dá um tom novo a esta obra. O anticomunismo já não é tão primário como no tempo de MacCarthy. Já não é preciso, pensam muitos políticos, conselheiros, investigadores, etc., por esse mundo fora.
De Service estão publicadas entre nós, pela Europa-América, duas outras obras, na senda da investigação do comunismo: as biografias de Lenine e de Estaline.
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Robert Service
Camaradas
Publicações Europa-América, 35,99€

O Olho de Jade


Depois de ter escrito, em 2004, “O Lago Sem Nome”, uma história de amor e conflito na China Moderna, Diane Wei Liang apresenta ao leitor o seu mais recente sucesso. Chama-se “O Olho de Jade”. A obra, publicada em 2008, igualmente pela mão da Editora Bizâncio, retrata-nos a história da primeira mulher a tornar-se investigadora particular na China, mais propriamente em Pequim, a cidade que mais parece um país e, como tal, com milhões de casos para investigar e descobrir. A detective chama-se Mei Wang, e trabalha por paixão e independência em diferentes casos. Ela é uma mulher de sucesso, rica e amante de luxos. As suas regras são quase sempre encontrar contra-estratégias para se poder afirmar num país onde reina um partido ardil e de regras tenebrosas como breu. Aliás, apesar de se tratar de uma ditadura, onde os direitos humanos são diariamente violados e o lápis vermelho do Partido Comunista Chinês rasga muitas publicações à nascença, pode dizer-se que esta obra é escrita com verdade e largueza, pois a autora vive nos EUA desde o Massacre na Praça de Tiananmen. Distanciou-se em tempo e espaço, e isso permitiu-lhe arrefecer a sua reflexão e retratar as suas vivências que acabam por suportar este seu novo romance.
Todo o enredo do romance começa quando Mei Wang é contactada por um amigo para que investigue e tente encontrar um valioso e poderoso jade da dinastia Han, roubado de um museu durante os anos da Revolução Cultural. Podemos dizer que esta investigação é remetida para um segundo plano. A protagonista, ao entrar nos meandros das buscas, começa a descobrir verdades pouco claras da história chinesa. A autora coloca em cena um conjunto de personagens de diferentes estratos sociais, dos mais pobres aos mais abonados e poderosos. É neste palco que tudo gira. Os ricos casinos de luz e yuans contrastam muitas vezes com fracas e miseráveis ruelas onde a descalça miséria abunda.
O livro é, essencialmente, uma parábola da sociedade chinesa centrada na ascensão social e cega nas desigualdades sociais. No caminho da sua investigação, Mei percebe, pela primeira vez, que há crimes que nunca foram investigados, inocentes presos e criminosos à solta. A leitura desta obra é empolgante, um verdadeiro modelo de jornalismo de investigação que ajuda a perceber a política do país mais populoso do mundo. Valeu a pena ler. Parabéns Diane!
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Diane Wei Liang
O Olho de Jade
Bizâncio, 12,50 €

Viver o Amor


O filósofo, professor catedrático, espiritualista e super palestrante Osho é o autor de “Viver o Amor”. Na sequência de outras obras publicadas sobre a mesma temática, este grande pensador contemporâneo desafia-nos, nesta obra, trazida até nós pelas mãos da Pergaminho, a reflectirmos sobre o amor. A grande novidade desta obra é que o autor apresenta-nos uma forma inovadora de amor. Tanto o amor que podemos dar aos outros como a nós próprios. Uma das teses apresentadas no livro leva o leitor a perceber a importância da reciprocidade amorosa. O pensador lembra que “se num relacionamento um pessoa continua a dar e o outro se limita a receber, ambos vão sofrer”. A auto-estima baixa a níveis nunca antes vistos, e os amantes tornam-se mendigos. É preciso dar e receber, e o sexo não pode ser o centro, mas sim o amor. Osho lembra que muitas relações são desfeitas porque, num determinado estádio da vida em conjunto, o casal se olha com intencionalidade mais sexual que amorosa. O homem e a mulher reduzem-se a objectos mecanizados que só se satisfazem sexualmente, esquecendo outras necessidades sentimentais, vitais e até emocionais.
O autor chega mesmo a não hesitar em referir que é perfeitamente normal o casal ter adversas variações sentimentais entre si. Há momentos estavam dispostos a morrer um pelo outro, noutro instante eram capazes de se matarem um ao outro. Osho diz que esta harmonia é normal. O importante é serem francos e fiéis. É fundamental o diálogo e impreterível aprofundarem segredos.
O escritor é um grande defensor da união entre as pessoas. “A solidão é triste, a unicidade não”, refere. No entanto, têm de existir traços em comum, algo que os relacione. Esta ideia de Osho acaba por parecer contrastar com uma outra. O autor lembra que o amor é uma brisa perfumada que entra em nossa casa, mas que não tem de ser obrigatoriamente permanente. “Na vida tudo é mudança e a mudança, por vezes, é maravilhosa”.
O escritor indiano, que chegou a ser descrito, por Dalai Lama, como um mestre iluminado, apresenta-nos uma escrita sóbria e séria. O seu discurso é poderoso e as frases curtas travam-nos a leitura e obrigam-nos a pensar em silêncio. Recomendo vivamente a obra!
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Osho
Viver o Amor
Pergaminho, 17,00 €

De bicicleta até à Mongólia

Os momentos de crise – social ou simplesmente individual – levam muitas vezes a mudanças de vida radicais, quase sempre forçadas. Mas também há quem, num dado momento do seu percurso, opte pela mudança, ou apenas um por interregno, um parêntesis no quotidiano rotineiro, quantas vezes (quase sempre) considerado de sucesso pelos padrões estabelecidos.
Foi o que aconteceu a Antoine de Changy, de 36 anos, e a Célina Antomarchi-Lamé, de 34. Após vários anos de dedicação às respectivas carreiras, ambas na área dos Recursos Humanos e das Finanças, ele em Nova Iorque e ela em Paris, decidiram parar. Parar para fazerem o que sempre desejaram: viajar muito, com muito tempo, sem grandes planos espacio-temporais. Especialmente queriam conhecer o “outro”, criar laços, penetrar no seu universo cultural. E foi o que fizeram, depois de casarem em 2003: montaram as bicicletas e viajaram da Turquia até à Mongólia, onde acabaram por ficar mais de um ano partilhando o dia-a-dia de uma família nómada de criadores de gado.
O resultado dessa aventura é o diário de viagem “A Voz da Estepe – De Istambul aos confins da Mongólia, ao encontro dos nómadas do Altai”.
Escrito na primeira pessoa por Changy, o próprio explica a dupla assinatura no facto de a companheira, não tendo embora colaborado na redacção do livro, ter participado na sua elaboração com sugestões e opiniões. «E participou igualmente com o seu indispensável entusiasmo que manteve ao longo dos 962 dias de viagem», sublinha.
O trajecto foi escolhido com o objectivo de cumprir os sonhos de infância: Changy idealizava a Mongólia, Célina tinha a obsessão do Irão. Com estes dois objectivos definidos, desenharam o seu mapa: Turquia, Irão, Turquemenistão, Usbequistão, Quirguizistão, Oeste da China, Mongólia.
O livro segue o percurso da aventura, relatando o que a tornou única e dando ênfase aos momentos que só o prazer da descoberta sabem valorizar – como a oferta do lenço curdo, por um jovem orgulhoso da sua identidade proibida por Ancara.
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Antoine de Changy e Célina Antomarchi-Lamé
A Voz da Estepe – De Istambul aos confins da Mongólia, ao encontro dos nómadas do Altai
Publicações Europa-América, 18,98€

A máscara saqueada

Harold Robbins dispensa apresentações. O autor do “best seller” “O Calor da Paixão” e de mais uma vintena de livros que venderam milhões de exemplares tinha um estilo muito próprio de criar uma mistura explosiva de acção e romance.
Por isso, “Os Saqueadores”, recentemente publicado pela Europa-América, é (quase) um teste aos seus fãs: reconhecem o “dedo” do autor?
O livro, assinado por Robbins e Junius Podrug, é apresentado como o resultado do trabalho de um escritor (Junius Podrug) «cuidadosamente escolhido» pelo executor do testamento e pelo editor para «organizar e completar as ideias de Harold Robbins de maneira a criar, de forma fiel ao estilo de Robbins, este romance», cuja ideia o autor deixou ao falecer, em 1997.
Se é ou não fiel ao estilo de Robbins, o melhor é deixar ao critério de cada leitor. Mas a verdade é que “Os Saqueadores” proporciona uma leitura entusiasmante ao longo de mais de três centenas de páginas.
Movendo-se no elitista mundo da arte, o romance segue a história da curadora Madison Dupre desde que compra como peça principal da colecção do seu museu uma máscara fúnebre… que por acaso tinha sido roubada pelas tropas americanas durante a guerra do Iraque.
Muita ganância e não menos ambição levam a curadora a uma quase volta ao mundo para repor a sua vida nos cânones de onde não deveria ter saído. Mas para consegui-lo terá de enfrentar ladrões de arte cujos métodos mais parecem de terroristas e um não menos obstinado guardião da máscara – que, segundo a lenda, está amaldiçoada.
Um livro que se lê de um fôlego e proporciona, sem dúvida, umas horas de verdadeiro prazer.
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Harold Robbins e Junius Podrug
Os Saqueadores
Publicações Europa-América, 23,50€

_____________Diga não ao cruel comércio de morte______________