Uma revista de leitores para leitores desde 2001


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Dar uma ajuda ao Planeta

Agora que a Cimeira de Copenhaga chegou ao fim deixando um certo amargo de boca, pelo menos aos mais idealistas que acreditavam ser possível passos mais veementes face à urgência de travar o aquecimento global, é altura de cada um por si fazer algo pelo Planeta.
São pequenos gestos ao alcance do cidadão comum, já que os grandes interesses políticos e económicos amarraram as mãos – e a vontade – dos líderes mundiais.
Foi o que fez Vanessa Farquharson, uma jornalista de Toronto que decidiu dar o seu contributo para diminuir o impacto da acção humana sobre o meio ambiente. Mas, ao contrário de maioria das almas bem-intencionadas, não se limitou a gestos esporádicos e inconsequentes. Ao contrário, fez uma opção radical e prolongada: alterar completamente o seu estilo de vida ao longo de um ano, cumprindo cada dia um novo objectivo ecológico. O resultado dessa experiência avassaladora chama-se “Dormir Nu É Ecológico”.
Em cerca de três centenas de páginas, a repórter canadense relata a sua vivência e transformação de “ecocínica” em “ecodependente”, começando no mês de Março em que «Al Gore e a sua exibição de slides de ursos polares a afogar-se leva uma jornalista, sob todos os aspectos racional, a abandonar todas as suas comodidades modernas, a açambarcar papel higiénico reciclável e a mergulhar de cabeça na lagoa verde». E termina em Fevereiro do ano seguinte, o mês em que «uma hippy oficialmente certificada e com o respectivo cartão identificativo reflecte sobre o seu ano ecológico, celebra tornando a ligar o frigorífico à tomada e decide as medidas com que deverá prosseguir e as que deverá deitar para a composteira».
O leitor tem nas mãos – em papel reciclado – o relato cheio de humor das aventuras e desventuras por que passou Vanessa Farquharson entre uma data e outra, face a decisões acessíveis (usar batom 100% natural ou dormir nua), outras contestáveis (só usar selos de lamber, pagar em dinheiro em vez de cartões de crédito, lavar o cabelo com vinagre, prescindir de cotonetes ou substituir o wallpaper do computador por um ecrã preto para poupar energia) até às mais extremas (abolir o automóvel e o frigorífico).
No final, a consciência ecológica de cada um ditará quais as sugestões que vale a pena perfilhar.

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Vanessa Farquharson
Dormir Nu É Ecológico
Editorial Presença, 16,50€

O Brasil brasileiro

O que sabe o português comum do Brasil, dos brasileiros, da vida que eles fazem, da sua economia, da política, do futuro? Aparentemente, poderíamos saber muito: uma forte comunidade brasileira no nosso país deveria ter oleado a transmissão desse conhecimento e a apetência pelo sol das estâncias turísticas do lado de lá do Atlântico facilitaria a transfusão cultural. Ainda mais se fosse vivo o afecto recíproco que deveria irmanar dois povos com a mesma língua – ou não houvesse um acordo ortográfico já em vigor e televisões aos molhos acessíveis nas televisões por cabo.
Não é isso que importa para aqui. A abordagem ao mundo brasileiro pela mão de Alain Rouquié é a de um estudioso dedicado e atento (já com outras obras sobre o mesmo tema), mas também é legível um enorme carinho e esperança, a fazer jus àquilo que muito se propaga: o Brasil está a caminho de ser um dos grandes no mundo, e não apenas no futebol, no carnaval ou nas favelas. Veja-se a outorga da realização dos Jogos Olímpicos de 2016, como sinal dessa confiança internacional.
O autor acrescenta ao título – “O Brasil do Século XXI” – o esclarecimento de que se trata do “nascimento de um novo grande” e não deixa dúvidas de que, na sua leitura da situação, Lula da Silva é um desbravador do caminho que leva à hiperbólica imagem de um mundo de “miséria e esplendor, eldorado e inferno”.
A eleição do actual presidente suscita-lhe, desde logo, a questão de como “um operário torneiro apoiado por um partido de sindicalistas” alcançou o poder, “num país campeão do mundo das desigualdades sociais”. Para chegar à explicação, não hesita em recorrer à História para discorrer sobre o presente e o futuro.
Então, começa por anotar a origem do nome, a madeira de brasa, uma “reserva escarlate” que se acobertou na designação mais conhecida de pau-brasil, disputada pelos europeus nos séculos de descoberta e saque. Passa depois às condições históricas que permitiram a preservação e alargamento do território para oeste, conquistando a Amazónia: a Espanha pós-tratado de Tordesilhas empenhava-se na “organização imperial dos seus vice-reinos americanos”, engodada no ouro, e a “unidade ibérica (1580-1640) favorecia os desígnios lusitanos” de manter a expansão brasileira.
Não esquece, claro, os povos autóctones, os índios interminavelmente dizimados à mão dos colonizadores (e por isso os seus traços fisionómicos são hoje tão difíceis de detectar) nem o pesadelo dos desembarques de escravos que seriam determinantes na face multirracial (e da desigualdade social daí decorrente) da população actual – somada à origem diversificada de sucessivas ondas migratórias de várias origens.
Abreviemos esta viagem pelas origens, para cair na realidade deste século XXI, em que os “resultados positivos da abertura económica e da ‘desestatização’ não devem criar ilusões”. Rouquié sublinha a elevada vulnerabilidade externa da economia brasileira e o facto de periodicamente aparecerem dúvidas quanto à sua sustentabilidade, com os mercados financeiros e o FMI a manifestarem-se preocupados. E faz o ponto da tradicional influência do Estado (e dos militares, claro) em tudo o que mexe no país. Dá, a propósito, o exemplo da Embraer, um dos primeiros exportadores dos dias que correm mas que motivou um confronto com a Força Aérea, que a tinha lançado e se rebelou no processo de transição tecnológica para a aviação civil.
Trata-se de exemplos, para a inevitável conclusão de que “o Brasil do século XXI começa em 1994”, pois mudou mais desde então do que nos trinta anos precedentes, mesmo com o reconhecimento de que “não curou os seus males seculares, a pobreza e a desigualdade”.
“Cidadania e exclusão são os dois termos principais da problemática brasileira”, escreve o autor, mas salvaguarda que o Estado tem os recursos e as competências necessárias à aplicação de políticas eficazes na guerra à exclusão e a todas as suas formas.
Quando isto foi pensado e escrito ainda não se conhecia o desafio que constitui a organização dos olímpicos daqui por pouco mais de seis anos. Nessa altura, o Brasil pós-Lula vai ter de enfrentar todo um conjunto de desafios, que se agudizam com o relevo crescente do país na cena internacional. A violência e a estabilidade social estarão no centro dos olhares, sem dúvida.

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Alain Rouquié
O Brasil do Século XXI – Nascimento de um novo grande
Instituto Piaget, 24,15 €

Romance de Raquel Ochoa recebe Prémio Agustina Bessa-Luís (Revelação)

Raquel Ochoa é a vencedora do Prémio Literário Agustina Bessa-Luís Revelação com o romance A Casa-Comboio. O prémio, destinado a obras inéditas de escritores com menos de 35 anos, foi instituído em homenagem à escritora que presidiu até há dois anos ao júri do Prémio Fernando Namora, no quadro das comemorações do cinquentenário da Estoril Sol.
Este ano, o romance de Raquel Ochoa convenceu o júri, presidido por Vasco Graça Moura. Segundo a Estoril Sol, a acta do Júri afirma que o romance revela «uma assinalável qualidade narrativa, conjugando bem os elementos de natureza documental acerca dos contextos pessoais e colectivos da experiência portuguesa na Índia».
A saga da família Carcomo cativa pela qualidade da efabulação e desenho de personagens». O enredo deste romance «baseia-se na aventura de uma família indo-portuguesa, originária de Damão, que sobrevive e se adapta à turbulenta História mundial do último século, evocando uma saga nos tempos em que a Índia longínqua era portuguesa. Quatro gerações habitam Nagar-Aveli, Damão e, por fim, Lisboa. Uma casa é abandonada para sempre. Este romance histórico é baseado num relato verídico».
O Prémio Agustina Bessa-Luís foi criado em 2008 pela Estoril Sol e foi atribuído pela primeira vez este ano. Tem um valor pecuniário de 25.000 euros, para além da edição da obra pela Gradiva. Este ano concorreram 72 obras.
O primeiro livro de Raquel Maria Fialho Costa Ochoa, nascida em Lisboa em 1980 e licenciada em Direito, O Vento dos Outros foi editado em 2007 pela Planeta Vivo e é uma crónica de viagens à América do Sul, que a autora percorreu de lés a lés, desde a Costa Rica à Patagónia.
A segunda obra, editada no ano seguinte pela mesma editora teve como título Bana - Uma Vida a Cantar Cabo Verde é a biografia oficial do cantor mais importante de Cabo Verde, que revelou ao mundo, entre outros, Cesária Évora e Tito Paris.
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Raquel Ochoa
O Vento dos Outros
Planeta Vivo, 15€









Raquel Ochoa
Bana-Uma Vida a Cantar Cabo Verde
Planeta Vivo, 34€ (inclui CD com mornas do cantor)

Nostalgia pela esperança

«Já não restam anarquistas», suspira o inspector Crespo quase no final do último romance do chileno Luis Sepúlveda, “A Sombra do que Fomos”. E é esse sentimento de fim de uma época que perpassa por todo o livro: já não restam anarquistas, como também já não restam exilados, nem sonhos, nem ideais – já não restam esperanças de que o mundo pode ser melhor, mais democrático, mais solidário… enfim, mais justo.
Finda a opressão da ditadura militar, regressados os que tiveram de procurar abrigo noutras paragens, ficou no entanto perdido para sempre o idealismo dos que queriam mudar o mundo. Regressaram a casa mas continuam expatriados: não são daqui nem de lá, desse Chile que Pinochet marcou profundamente no mais íntimo do povo nem dessa Europa onde tentaram lançar amarras.
Só a mestria inconfundível de Sepúlveda consegue fazer do encontro de três velhos companheiros de armas, revolucionários reformados mas não conformados, perdedores (de si e dos ideais de esquerda) uma autêntica catarse para toda uma geração (ou serão duas?) que acreditou verdadeiramente que os amanhãs cantariam.
Em “A Sombra do que Fomos” Sepúlveda narra-nos a mesma estória a dois tempos e múltiplas vozes. No fundo, quando sorrimos com Salinas, Garmendia, Arencibia, Aravena ou mesmo Crespo sorrimos para nós próprios (e por nós).
O romance, que mereceu ao escritor mais um galardão, desta vez o Prémio Primavera de Romance 2009, lê-se com o mesmo prazer de “O Velho que Lia Romances de Amor” ou “Patagónia Express”, para citar só dois dos seus livros mais conhecidos. E só não nos deixa amargurados porque Sepúlveda fez as pazes com o passado e sabe contá-lo com sensibilidade e ironia – que a inteligência permite dosear nas exactas medidas.

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Luis Sepúlveda
A Sombra do que Fomos
Porto Editora, 14,40€

João Pombeiro | 30 Anos de Mau Futebol

1- De que trata este seu livro «30 Anos de Mau Futebol»?
R- É um anedotário com as frases mais hilariantes do futebol português nos últimos 30 anos. Os protagonistas são os futebolistas, dirigentes, árbitros e empresários. Há de tudo um pouco: metáforas, comparações, bitaites, gaffes, etc. O futebol também foi criado para nos fazer rir. E não é que conseguem?

2- De forma resumida, qual a principal ideia que espera conseguir transmitir aos seus leitores?
R- Não há uma mensagem especial. O futebol é sobretudo gozo (do bom). Este é mais um. Durante mais de um ano recolhi centenas de frases em jornais e revistas. Escolhi as melhores e agora só espero que os leitores possam gozar bem este anedotário. Vale a pena.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Neste momento, nada. Mas vamos ver o que acontece em 2010.
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João Pombeiro
30 Anos de Mau Futebol
Quetzal Editores

João Pedro Duarte | Uma Espécie de Sentido

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Uma Espécie de Sentido»?
R- Um livro cor-de-rosa. A minha biblioteca estava a precisar de uma corzita. Agora mais a sério: não faço a mínima ideia. Sei que me deu um gozo descomunal e que foi escrito em apenas um mês. Ou numa lua, como diriam os caramelos que gostam de parecer misteriosos. Conclusão: devo ter sido iluminado por uns alienígenas. Ou então alienado por uns iluminadores. Hum... Qual era a pergunta?

2- Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R- Creio que uma conversa com um amigo sobre a visão redutora da Humanidade no Darwinismo. Atenção que esta visão é culpa de todos, menos do Darwin, uma vez que quando o moço esticou o pernil o Freud ainda andava a pensar o que havia de fazer à vida dele. O que também é normal quando se fazem experiências laboratoriais com cocaína. Mas o Inconsciente, parece que não, tem a sua importância. Assim como o amor, apregoado tanto na literatura de cordel como nas religiões mais ascetas, poderá ter a última palavra no destino da Espécie.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- A lista de compras da mercearia. É um best-seller lá em casa. Vou alternando com ensaios epistemológicos, só para desenjoar. Estou a descansar da ficção, até porque é Natal e cheira-me que o próximo livro mete um serial killer pelo meio. Não sei explicar, mas acho não combina. Podem ser coisas minhas, mas eu cá prefiro manter a ilusão de que vai ser um mascarado simpático a entrar pela chaminé. Bom Natal para todos!
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João Pedro Duarte
Uma Espécie de Sentido
Esfera do Caos, 12,90€

Ana Isabel Queiroz | A Paisagem de Terras do Demo

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «A Paisagem de Terras do Demo»?
R- «A Paisagem de Terras do Demo» é o mais extenso e elaborado dos textos documentais que escrevi até agora. Escrevê-lo, e vê-lo publicado, deu-me uma satisfação muito particular. Nele se combina a minha paixão pela Literatura com a minha paixão pelo Ambiente.

2- Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R- Este livro resulta de um trabalho de investigação que, tratando de paisagem, tem a obra de Aquilino Ribeiro como catalisador. Julgo que fica demonstrado que a Literatura pode ser uma fonte de informação sobre as paisagens do passado e um elemento a ter em conta na gestão do território. Ao mesmo tempo que recoloca nas leituras actuais as sempre modernas obras do escritor, valoriza e evidencia as memórias ecológicas que estes textos encerram.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- O enorme potencial revelado pelo estudo da obra de Aquilino Ribeiro servirá ainda de base para uma publicação sobre a avifauna portuguesa. Através dos seus textos, será possível descobrir mais de seis dezenas de espécies diferentes.
Para além disso, continuo a olhar para as representações da Natureza e do Ambiente em obras de outros escritores dos séculos XIX, XX e XXI. É um trabalho que, em breve, dará outros frutos, mas não sei ainda dizer exactamente quais serão.
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Ana Isabel Queiroz
A Paisagem de Terras do Demo
Esfera do Caos, 14,90€

Pedro Barbosa | Speculations & Trends

1. De que trata este seu livro «Speculations & Trends»?
R- Tendências. Num âmbito global, dos vários mercados, países, economias e sectores. Tendências para os anos 2010-2012.

2.Um livro sem direitos de autor : uma tendência?
R- De facto, a ideia é alinhar o livro com a tendência que está a chegar a todas as áreas criativas, depois da música. Propriedades intelectuais partilhadas geram melhor evolução dos conteúdos. Os leitores – mesmo os que não comprem o livro - podem copiar partes do livro, alterá-las e criar os seus próprios conteúdos, remixá-los com outras obras, podcasts e textos ou vídeo criando novo valor : esta é a lógica mashup. O open source chegará em breve aos livros. Este é apenas o primeiro!

3. Qual a principal ideia que espera transmitir aos seus leitores?
R- Partilhar com eles o processo de aprendizagem que foi construir estes conteúdos e permitir que se preparem de forma mais eficaz para os próximos anos.

4. Um autor que aconselha as pessoas a não comprarem o livro?
R-Cria mais valor para cada potencial leitor fazer aquilo que eu fiz do que ler este livro. A informação existe em dimensões que podemos considerar infinitas. Quem a quiser procurar, filtrar e discutir vai apreender muito mais. Se não quiser investir esse tempo pode desembolsar um par de euros e uma centena de minutos e fica com uma ideia boa do que aí vem. Mas não é a mesma coisa. Nunca é.
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Pedro Barbosa
Speculations & Trends
Vida Económica

Gerir o lado humano da empresa

Os tempos não correm de feição aos gurus da economia e gestão, tão desacreditados como nunca pensaram ser possível – ou não estivéssemos todos a pagar um elevado preço pelas suas teorias neoliberais, que como verdades absolutas foram sendo impostas.
Apesar desse descrédito, alguns nomes continuam a ser incontornáveis neste domínio, como é o caso de John Adair, de quem foram reunidos, num único manual, os seus principais conselhos e técnicas. Trata-se de “O melhor de John Adair sobre liderança e gestão”, coordenado por Neil Thomas (Publicações Europa-América, €17,90), que teve a aprovação do próprio professor da Universidade de Surrey.
Como o próprio Adair sublinha no prefácio, o livro está dividido em duas partes fundamentais sobre «o lado humano da empresa»: autogestão (1ª parte) e gerir outros (2ª parte).
E numa época em que as exigências a quem trabalha são cada vez maiores, não fará mal nenhum ter umas noções básicas sobre gestão e liderança – se não dos outros, pelo menos de nós próprios.
Nesse âmbito, e no capítulo da autogestão, merecem especial destaque os conselhos sobre estabelecer e atingir metas e objectivos, bem como saber tomar decisões e resolver problemas – e, claro, sobre a gestão do tempo, matéria em que somos prevenidos a “evitar estereótipos” como “ter pouca capacidade para delegar, ser um mau organizador, ser excelente a adiar, ter um fraco desempenho nas reuniões e ser um executivo sem objectivos”.
Para aqueles que têm responsabilidades de liderança, vale a pena uma “espreitadela” aos capítulos sobre gestão de equipas e motivação de recursos humanos.
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Neil Thomas
O melhor de John Adair sobre liderança e gestão
Publicações Europa-América, 17,90€

Paulo da Trindade Ferreira | Fazer do Tempo um Aliado


1-De que trata este seu livro «Fazer do Tempo um Aliado»?
R- Com este livro pretende-se, de uma forma geral, fazer uma abordagem sobre o tempo, não o tempo em si enquanto realidade abstracta, mas o tempo sentido, imaginado, desejado e vivido pelas pessoas. Indefinível em si mesmo, ele, apenas, o cenário onde as pessoas e as coisas se vão transformando no tempo que se aprende a olhar e a entender o mundo de uma forma diferente. Dada a grande proximidade entre o tempo e as pessoas que o vivem, facilmente surgem, entre ambos, diversas afinidades e múltiplas cumplicidades. O tempo vivido jamais poderá reduzir-se a uma sequência de segundos registada pelos ponteiros do relógio que, após uma fugaz duração, acaba por cair no esquecimento. Quantas vezes por se querer ganhar o tempo medido pelo relógio e assinalado pelo calendário, se acaba por perder o tempo vivido?

2-De forma resumida, qual a principal ideia que espera conseguir transmitir aos seus leitores?
R- Por um lado, considera-se menos aceitável invocar, com frequência, a falta de tempo para, desta forma, justificar a incapacidade de organização pessoal. Por outro lado, responsabilizar o tempo por tudo o que de negativo acontece. O tempo não constitui qualquer problema. Problemático, sim, é o modo menos adequado como este é utilizado pelas pessoas. Daí a importância de fazer do tempo um aliado. Certas formas de lidar com o tempo estão, à partida, minadas de contradição, o que lhes retira sentido, credibilidade e eficácia. Mais importante do que a gestão do tempo é a gestão adequada de si próprio, no tempo, o que implica uma consciência devidamente esclarecida sobre o que se quer e deve realizar. Uma vez atingindo este objectivo, será possível, então, fazer com prazer aquilo que se quer e tornar agradável aquilo que se deve.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- No tempo em que as mudanças, a nível pessoal, grupal e organizacional se concretizam, parece-me ser oportuno elaborar um escrito sobre o tema.
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Paulo da Trindade Ferreira
Fazer do Tempo um Aliado
Presença, 12,80€

Maria José Varandas | Ambiente-Uma Questão de Ética

1-De que trata este seu livro «Ambiente-Uma Questão de Ética»?
R- O livro centra-se no problema fundamental da crise ecológica- a atitude humana na sua dimensão relacional. Defende-se aqui que a evolução tecnocientífica não tem correspondido a um real e efectivo progresso moral. A crise de valores instalada, o gradual empobrecimento da componente relacional da acção, afecta profundamente as relações que o homem mantém consigo próprio e com o seu mundo, nomeadamente, com o seu mundo natural. Daí que o livro veicule a ideia que o problema do Ambiente é, mais do que um problema de engenharia, um problema de ética. O panorama da reflexão ética contemporânea, que o livro dá conta, corrobora esta tese dando pistas para a sua resolução e, sobretudo, propondo um horizonte de salvação do humano que inevitavelmente passará pela reconciliação do Homem com a Natureza.

2-De forma resumida, qual a principal ideia que espera conseguir transmitir aos seus leitores?
R- O quão necessário é, hoje em dia, até por uma questão de sobrevivência e saúde, repensar a acção na sua dimensão ética e axiológica. Valores como o respeito e responsabilidade, deveres e obrigações, prudência e precaução devem ser integrados num discurso dirigido para o futuro, que enfrente com sucesso os ideais iluministas e positivistas de progresso sem limites, cujas consequências negativas mais óbvias foram o consumismo desenfreado, a exaltação do individualismo e, em consequência, a exploração abusiva dos recursos naturais. O que a crise ecológica demonstra é que à medida que o mundo das coisas, dos produtos e artefactos da tecnociência, se expande e multiplica, o mundo humano empobrece e corre riscos sérios de vir a ser profundamente afectado. E tal merece ser objecto de reflexão e de decisão que encare com seriedade a urgência de uma mudança de atitude, no sentido do respeito e da responsabilidade pela vida em geral.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Irá ser publicado em breve pelo Centro de Filosofia da FLUL um artigo sobre Estado, Educação e Mercado: qual o futuro do ensino das humanidades no seio da economia global?
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Maria José Varandas
Ambiente-Uma Questão de Ética
Sextante Editora, 13,90€

Cristina Carvalho | Nocturno

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Nocturno»?
R- Em 2010 celebra-se o bicentenário do nascimento de Fryderyk Chopin e este livro, - Nocturno, o romance de Chopin - é uma homenagem e uma "declaração de amor" a um homem que foi um pianista e compositor de obras sublimes que foram e deverão ser tocados num extraordinário instrumento musical, o piano. Há já muito tempo que tinha pensado escrever sobre Fryderyk, sobre a sua intensa e apaixonada personalidade, sobre a sua vida, sobre os seus amores, sobre a sua morte. No contexto da minha obra é mais uma experiência ficcional uma vez que nunca tinha escrito um romance biográfico ou uma biografia romanceada...

2- Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R- Exactamente isto: prestar homenagem a um dos compositores da minha vida, personagem com quem "convivo" diariamente ouvindo-o e sentindo-o perto de mim com a sua música.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Tenho um romance pronto. É uma história de mulheres e para mulheres. Claro que, se os homens a quiserem ler...
Estou a escrever mais duas histórias que, por serem totalmente diferentes, podem ser escritas ao mesmo tempo. Ora uma, ora outra. Um dia uma, outro dia, a outra. É bom!
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Cristina Carvalho
Nocturno
Sextante, 15€

PLANETA VIVO | Nuno Gomes: «A editora vem colmatar uma lacuna muito grande de edições de obras de cariz científico»

1-Como descreve o projecto editorial que está na génese da Editora Planeta Vivo?
R- A Editora Planeta Vivo vem colmatar uma lacuna muito grande da edição de obras de cariz científico e de divulgação científica na área das ciências biológicas, em particular as resultantes da investigação portuguesa e sobre a biodiversidade de Portugal. As poucas obras que existem ou são muito gerias, ou são traduções de obras estrangeiras sem ligação directa com os seres vivos de Portugal. Por isso, a Planeta Vivo está a produzir guias de campo, livros temáticos sobre biodiversidade, energias renováveis e outros assuntos para os quais existe know how mas falta divulgação.

2-Em termos de géneros ou áreas temáticas, quais vão ser as principais apostas da editora?
R- Guias de campo da natureza de Portugal, ensaios e obras científcas relevantes em termos internacionais das ciências biológicas, como é o caso da colecção Planeta Darwin, que edita a obra integral de Charles Darwin em 20 volumes, livros temáticos, como a biodiversidade, as energias renováveis, floresta, cogumelos, etc., numa linguagem científica mas acessível ao grande público.

3-Para os próximos meses, que títulos ou autores têm em carteira para surpreender e conquistar os leitores portugueses?
R- Vamos editar de 3 em 3 meses uma obra de Darwin, editaremos a colecção em 12 volumes “Biodiversidade de Portugal”, que conta com a participação de investigadores nacionais, e editaremos também o primeiro volume da colecção “Guias da natureza de Portugal”, “Guia de Campo dos Cogumelos de Portugal”.
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Planeta Vivo na Internet

Caim levantado do chão

Há quatro ou cinco décadas, ainda em Portugal se catequizava as gentes com princípios e noções abandonadas a custo, por força da actualização do país, embora dificultada por todos os meios – políticos e religiosos, também, que nisto a igreja romana não esteve pelos ajustes. A Concordata dava-lhe corda larga, mas foi sempre uma situação excepcional de conúbio mais ou menos declarado que deu ao Vaticano a margem de influência que se sabe. Em Portugal como noutros países da mesma moldura religiosa.
O Inferno era até há poucas décadas aquela ideia que torturava os iletrados – sobretudo os pobres –, mas não só, porque a crença fanática nas chamas da punição reduzia muitos cidadãos alfabetizados ao nível do primário. E sobretudo as crianças.
Quem da terceira idade actual não se recorda das imagens de almas de rosto humano que se retorciam nas vascas do Inferno ou nas agonias do Purgatório? Devidamente patrulhadas por anjos fantasiados com asas, em ilustrações que davam o lustro dos melhores cetins pelos guardas celestiais que faziam umas horas a cuidar dos condenados em espera de melhor sorte. Os querubins, e outros das milícias, de que fala Saramago em outras e diversas circunstâncias.
A imagem, sim, esse instrumento poderoso que a Igreja usou até à usura, mesmo se foi alvo de polémica dentro do próprio sistema, com Constantino a dar-lhe força no embate definitivo da implantação e crescimento do catolicismo. E, na imagem, lá estavam adereços como os santinhos que os meninos aprendiam a venerar, a beijar, a desveladamente encadernar no máximo dos cuidados.
Foi crónico o conflito do povo com o clero, pleiteação típica do exercício do poder – muitas vezes pela palavra (e mão pesada!) do vigário, em claro excesso dos limites do seu ministério, chocando-se por isso na regulação civil ou tão-somente nos direitos intuídos pelos menos cordatos – e menos (ou nada) tocados pela fé ilimitada. Mas não era o padre representante do Criador à face do mundo? Não será então natural a pesada mão divina, em textos bíblicos, de modo a justificar o muita vezes livre arbítrio da decisão paroquial – quando não da própria hierarquia eclesial?
Vale a pena pôr mais na carta? Não, nem José Saramago precisou de levar a discussão para aspectos tão terrenos. Ele, nascido na segunda década do século passado, muito arrastou certamente, como incréu, desse enfrentamento com a Igreja da aldeia ribatejana onde nasceu e cresceu – a não muitos quilómetros dos acontecimentos de Fátima – e em que se muitos acreditavam, alguns contestavam.
Não terá sido abençoado pela fé, supõe-se, logo desde que o nascituro carecia dos sacramentos que o afastassem das chamas, as tais, do Inferno que pairava sobre a vida diária – e culminava nas tão glosadas confissões, com os seus absurdos. Imagine-se, a criança nascia em pecado… mais se a sua era família pouco tocada pela bênção do Deus bíblico.
Para ele, Saramago, que nasceu curioso de saber a vida, desbravá-la e moldá-la, o conflito com os princípios bíblicos seria inevitável, pois apesar dos presumíveis princípios ímpios dele e dos familiares certamente não deixaram as forças vivas de tentar impor-lhes as regras vigentes e apadrinhadas politicamente num país pio, sacristão, venerador e obrigado. Naqueles tempos, havia coisas que eram uma cruzada incontornável – e a igreja estava à frente.
Saramago, sabe-se, é um homem que se fez a si próprio – no sentido autodidacta, mas no que de mais construção temos nós. Certamente essa elipse de crescimento não poderá ter deixado de voltar ao ponto zero da catequese, mesmo que rejeitada. Esse debate que, afinal, o Homem, todo e qualquer, mesmo na recusa de Deus (de deus) não deixará de colocar-se – na proporção, é certo, da sua racionalidade, da sua consciência de ser, da sua dimensão humana, que ou foi criada por deus ou ele a criou. Exacto: na justa proporção em que não encontra(va) explicação para as suas origens, a vida, o universo. E a morte, ah, a morte, esse mistério que aterroriza e poderia culminar na ressurreição – a bênção concedida aos que tinham cumprido as linhas. Lembram-se? Ainda se catequiza essa ideia de um dia os mortos se levantarem das campas alavancados por um toque de clarins, que em algumas estampas eram soprados por rechonchudos e rosados anjos?
O que admira e assusta neste debate que o escritor mais uma vez suscitou? A canelada na Bíblia? As declarações subjacentes, ainda que as tomem por sementeira publicitária? A negação da lógica que subjaz ou preside a parábolas, alegorias e imagética que a prática religiosa dos católicos há muito renegou na prática e até na teoria? A própria, e mais funda, negação/contestação de Deus?
Caim foi o modelo escolhido pelo escritor, como poderiam ter sido outras figuras bíblicas. O que aqui está em causa é a dimensão moral do Deus, já nem exactamente o seu reconhecimento, que a Bíblia propõe e a Igreja fez executar durante séculos. Tem a história, as sucessivas negações da rectidão do criador, algo de extraordinário em termos de escrita? Não parece. Está lá o estilo de Saramago, a ironia, a escrita segura, directa, a alegoria quando se adequa, a afirmação directa quando tem de ser. Isto é, tudo o que dele fez o reconhecido autor.
Como quando resume a figura de Josué como “a crudelíssima pessoa que foi” e recorda que “naquela época as maldições eram autênticas obras-primas literárias, tanto pela força da intenção como pela expressão formal em que se condensavam”, pelo que “poderíamos tomá-lo como modelo estilístico, pelo menos no importante capítulo retórico das pragas e maldições tão pouco frequentado pela modernidade”.
Exemplos que poderão ferir susceptibilidades não escasseiam, se quem lê está na fila dos que crêem piamente nas palavras bíblicas e na moral imanente. A rematar o “maior prodígio de todos os tempos”, quando Josué conquistava cidades atrás de cidades e se aprestava a desbaratar os cinco reis amorreus, o autor reflecte: “durante quase um dia inteiro, o sol esteve imóvel, ali no meio do céu, sem nenhuma pressa de desaparecer no horizonte, nunca, nem antes nem depois, houve um dia como aquele, em que o senhor, porque combatia por Israel, deu ouvidos à voz de um homem”.
Injustiça divina, conclui Saramago, essa em que o Senhor apoia homens, os seus, contra homens, que a crer nas páginas bíblicas, foram igualmente sua criação, mas que deixaram o seu rebanho. Injustiças várias, que perpassam, como o arraso de sodoma e gomorra, em que os inocentes pagam pela medida dos perversos.
Essa dualidade não podia ser indiferente ao autor. A terra, a realidade, as gentes que ele conheceu, com quem viveu, testemunham que os textos bíblicos justificaram, apoiaram, consolidaram frequentemente a iniquidade social ao longo da História. Bem pode vir alguém lembrar na televisão que esses mesmos textos tantas revoltas e reparação de injustiças justificaram. Certo. Mas os teólogos da libertação, por exemplo, não passaram no buraco da agulha do Vaticano.
E os levantados do chão de Saramago não são gente que tenha levitado por obra e magias e crenças religiosas. Bem pelo contrário, a sua condição de “amorreus” terminou pela mão do homem, ser racional, político. Os “josués” que então não lograram o milagre do sol tinham merecido o geral apoio da Igreja, do clero, ao longo dos séculos.
Saramago lembra isso. E ele é um escritor comprometido, mais não está do que no seu caminho. Este Caim é que resolveu acompanhá-lo na viagem.
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José Saramago
Caim
Editorial Caminho, 16,91€

Laurentino Gomes | 1808

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «1808»?
R- Este livro é a investigação jornalística mais longa, profunda e exaustiva que fiz nos meus trinta anos de carreira profissional. Foram dez anos de trabalho, nos quais li ou consultei mais de 150 outros livros e fontes diversas sobre o tema. O objetivo é atingir um público mais amplo e levá-lo a refletir sobre as raizes do Brasil, profundamente plantadas em Portugal. Todas as virtudes e defeitos brasileiros já estavam presentes duzentos anos atrás, quando a corte de D João chegou ao Rio de Janeiro. Já havia naquele tempo muito corrupção, muito nepotismo, muita ineficiência nos negócios públicos e muita desigualdade social, em virtude da escravidão. Mas também estava nascendo ali o Brasil que temos hoje, grande, integrado, de dimensões continentais, com uma uma língua e uma cultura bem definidas e relativamente tolerante do ponto de vista racial, político e religioso. Somos a grande invenção de Portugal no mundo. Portanto, para o bem e para o mal, somos herdeiros diretos desse período. É como se fosse o nosso DNA, nosso código genético.

2- Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R- O livro nasceu de uma pauta de reportagem que nunca foi publicada na revista Veja. Em 1997, eu era editor-executivo da revista. Tales Alvarenga, o então Diretor de Redação, já falecido, pretendia publicar uma série de especiais históricos, que seriam distribuídos com a edição regular como brinde para seus leitores. O projeto incluiria o Descobrimento, a Inconfidência Mineria, a fuga da Família Real Portuguesa para o Brasil e a Independência. Desses três, apenas o primeiro foi publicado, no ano 2000. Quanto ao especial sobre D João VI, que estava sob minha responsabilidade, a revista decidiu cancelá-lo. O plano mudou, mas eu segui em frente, movido pela paixão que o tema e os personagens me despertaram.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Meu próximo livro será sobre a Independência do Brasil. O título, por razões óbvias, será “1822”, a ano em que nos separamos de Portugal. Já estou bem avançado nas pesquisa e espero lançá-lo em setembro de 2010. Pretendo mostrar que país era este que a corte de D. João deixava para trás ao retornar a Lisboa, em 1821. Em seguida, vou tratar do Grito do Ipiranga propriamente, em 7 de setembro de 182, das enormes dificuldades do Primeiro Reinado, da abdicação de D. Pedro, em 1831, sua volta a Portugal para enfrentar o irmão, D. Miguel, que havia usurpado o trono, e a morte em 1834, no mesmo quarto em que nasceu, no Palácio de Queluz. O planejamento inicial da obra prevê cerca de 25 capítulos que, provavelmente, se desdobrarão em outros seis ou sete até chegar a uma estrutura parecida com a do "1808". O estilo será o mesmo do "1808": capítulos curtos, pequenos perfis dos personagens e linguagem acessível.
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Laurentino Gomes
1808
Livros d´Hoje, 18,85€
Laurentino Gomes na Internet

Manuel Dias da Silva | A Gola do Tempo

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «A Gola do Tempo»?
R- “A Gola do Tempo” é mais uma etapa no meu percurso literário e, de certo modo, uma mudança de estilo, dentro duma evolução natural na vida de um autor.
Este livro, na essência, não é diferente dos outros, porque um autor escreve sempre o mesmo livro. Simplesmente, cada obra é vestida de forma diferente. Vamos mudando ao longo do tempo e escolhemos outras metáforas, mas, no fundo, é sempre algo de nós, umas vezes mais escondido do que outras, que está subjacente ao que se escreve. Um autor vê o mundo, e aquilo que o rodeia, através da sua personalidade e dos valores em que se apoia e acredita.

2- Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R- O que me motivou a escrever “A Gola do Tempo” foi o facto de ir vendo a rapidez como o meu pai ia definhando fisicamente. A certa altura, ele, que já era surdo, foi, sucessivamente, deixando de andar e, quase, de falar. E esta evolução começou a pôr-me a questão: o que pensará uma pessoa nestas circunstâncias?
Assim, foram surgindo os poemas, propositadamente datados, sendo o último do dia da sua morte, que formaram “A Gola do Tempo”. Direi que é um livro que radica no nosso interior, onde se alojaram angústias – “enganam-nos as imagens” -, incertezas – “há sombras que nos habitam” -, medos – “do desconhecido … / do silêncio … / de algum deus, / de olhar fulminante” - e se questionam as opções tomadas ao longo da viagem. “E se tudo não fosse mais que inquietação?”
Viagem na procura da utopia, e da perfeição - “Nos limites do espírito, / julgamos possível ainda? / encontrar a chave que abre / a porta obscura dos homens” -, onde deuses e mitos estão presentes, ajudando, ou prejudicando, “mesmo quando o infinito parece indecifrável”.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Neste momento não tenho nenhum projecto em curso. Depois de ter publicado, em 2008, o livro “O Som dos Lagares”, julgo importante parar, o tempo necessário, para libertar o espírito de determinada linha, forma e metáforas. Direi que, neste momento, estou num período de pausa, que poderá durar meses, anos, ou sempre.
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Manuel Dias da Silva
A Gola do Tempo

Cor. Sousa e Castro | Capitão de Abril, Capitão de Novembro

1- De que trata este seu livro «Capitão de Abril, Capitão de Novembro»?
R – O livro "Capitão de Abril, Capitão de Novembro" é a narrativa do percurso pessoal de um jovem capitão que, por razões geracionais e outras fortuitas, se vê envolvido, ora como participante activo, ora como observador previligiado, num conjunto de acontecimentos político-militares que marcaram a história de Portugal no ùltimo cartel do século XX.

2- De forma resumida, qual a principal ideia que espera conseguir transmitir aos seus leitores?
R – Gostaria que a partir da leitura do meu livro pudesse ficar clara a noção das dificuldades que se apresentaram nessa época , quer no plano pessoal, quer no plano institucional, a quem a todo o custo queria manter uma linha de coerência ético-política.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R – Por agora não estou a escrever, mas tenho em mente publicar no próximo ano um livro de ficção.
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Cor. Sousa e Castro
Capitão de Abril, Capitão de Novembro
Guerra e Paz

Fundamentalismo para principiantes


José Alberto Braga, também conhecido pelo seu pseudónimo JAAB (José Alberto de Araújo Braga!), nasceu em Braga e logo emigrou para o Brasil, talvez para aguçar o seu humor irónico… Multifacetado, trabalhou no teatro, rádio, televisão, dando particular relevo à cultura Portuguesa, pelo que fundou um jornal e duas revistas dedicadas a temas portugueses.
Raul Solnado disse dele que “José Braga é humorista. Um grande humorista!”, enquanto Jô Soares, depois de desistir de tentar descrever o seu trabalho, disse somente: “Só posso dizer que espero que vocês se divirtam tanto como eu me diverti ao ler o seu trabalho.”
Gostei especialmente da sua explicação de Burocracia: “É uma espécie de teia de aranha tecida pelo lado do avesso. Só que o meu amigo encontra-se invariavelmente do lado contrário.”
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José Alberto Braga (JAAB)
Fundamentalismo para Principiantes
Planeta Editora

Gótica

Especialista em grafopsicologia e escritora, Clara Tahoces é também investigadora dos temas insólitos que lhe fornecem a matéria para romances como o que aqui se apresenta, Gótica.
Esta sua obra, onde encontramos uma visão original dos vampiros, sem no entanto deixarmos de perceber uma série de características que se aproximam da ideia tradicional do vampiro, foi galardoada em 2007 com o Prémio Internacional de Ficção Científica e Literatura Fantástica – Minotauro.
É uma história em que viajamos para a frente e para trás no tempo, acompanhando sempre a personagem principal, Analisa, na sua luta interior contra a sua própria natureza. Uma boa leitura, sem dúvida, para apreciadores do género.
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Clara Tahoces
Gótica
Editora Bico de Pena

Chichen Itza: A Fonte da Juventude


São 454 páginas de aventura e emoção, levados pelo fervilhar da história de vida de 4 amigos que, originários de um bairro pobre da Sevilha do séc. XVI, e obrigados a fugir pelos seus actos marginais, vão viajar até à península do Iucatão, passando pela costa africana e Caraíbas. Sempre em busca da fonte da vida eterna… lá, em Chichen Itza, recentemente eleita uma das sete maravilhas do mundo… Vida eterna para um romancista que estudou auditoria e assim se revela neste seu primeiro romance?
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Renato Fontinha
Chichen Itza. A Fonte da Juventude
Planeta Editora

O Céu sobre Berlin


“O Céu sobre Berlin”. Assim se intitula o mais recente livro de Danyel Guerra. “(Pre)textos de Viagens” é o subtítulo desta colectânea de crónicas e “road stories” (estórias de estrada), encenadas nas cidades de Berlin, Bilbao, Guetaria, San Sebastián/Donostia, Vitoria/Gasteiz, Barcelona, Oviedo, Gijón e La Manga del Mar Menor.
“O Trabantáxi de Berlin” assume-se como o (pre)texto âncora da publicação, editada pelo editora Aleph, com produção gráfica de Estratégias Criativas. O croniconto evoca a travessia a pé, pelo autor, do Muro de Berlim. Quando estamos a menos de um mês da passagem dos 20 anos da queda (ou derrube) do “Berliner Mauer”, Danyel Guerra reflete sobre esse acontecimento, que simbolizou a ruína da chamada cortina de ferro e dos regimes socialistas de obediência soviética.
Outro (pre)texto genuinamente instigante do ponto de vista político-cultural será “Entrando por el cano”. Nele, o autor adopta o estilo típico do publicismo, polemizando sobre as relações, frequentemente equívocas, entre Portugal e o Estado espanhol.
“O Céu sobre Berlin” encerra, na contracapa, com um texto síntese de Fernanda Rodrigues dos Santos, que sublinha a pulsão cinemática instalada pelo autor nestas narrativas viajantes.
Danyel Guerra (aka Danni Guerra) nasceu na cidade do Rio de Janeiro, Brasil, num dia de Vénus do mês de Novembro, sob o signo de Escorpião. Radicado em Portogaia há vários anos, é licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Desde 1983 tem sido, nas horas (mal)pagas, redactor de jornalismo. Em 1987 publicou o “Guia de Verão/Porto/Roteiro Jovem”, edição do FAOJ-Porto. Mais recentemente, em 2004, deu à estampa, para o selo Armazém Literário, “Em Busca da Musa Clio”, ensaio biográfico sobre o árcade portuense Tomás Gonzaga. Pela mesma editora foi publicado, em 2008, o volume de cronicontos “Amor, Città Aperta”.
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Danyel Guerra
O Céu Sobre Berlin

Dietética do Cérebro


“Dietética do Cérebro” de Jean-Marie Bourre, nutricionista e neurossociólogo, aborda o grande órgão ainda pouco conhecido, tomando como ponto de partida as suas investigações sobre o ácido alfa-linoleico, que participa em grande medida na construção e funcionamento do cérebro. Com a evolução das neurociências e dos seus progressos consideráveis no conhecimento da arquitectura do sistema nervoso, o papel dos nutrientes ganhou estrelato, sobretudo pelo seu efeito na preservação estrutural e funcional do cérebro.
A obra detém-se na estrutura cerebral e alimentos ideais, na escolha das boas gorduras, vitaminas, proteínas, taninos e carotenóides, constituindo-se como “Bio-Diet-Ética” e guia prático na selecção de alimentos correctos. Editado pelo Instituto Piaget, o livro revela-se extremamente útil, sobretudo na escolha de cada nutriente e no seu preço, determinando o custo real e controlado de uma boa dietética para o cérebro.
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Jean-Marie Bourre
Dietética do Cérebro. A Nova Aposta
Instituto Piaget

Para salvar o Planeta

Com a cimeira de Copenhaga à porta, vale a pena ouvir o que os investigadores têm a dizer sobre o aquecimento global. Muito se tem dito e escrito sobre o tema e só não está informado quem não quer, tal é o volume de informação disponível nos mais variados suportes.
Portugal não fugiu à regra e entre as muitas obras publicadas, de autores estrangeiros ou nacionais, refira-se o didáctico “Como Arrefecer o Planeta”, de João Lin Yun, professor associado no Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e investigador na área da Astronomia e Astrofísica (em que é doutorado pela Universidade de Boston).
Em menos de centena e meia de páginas, João Lin Yun dá ao leitor as informações necessárias para compreender as razões do aquecimento global – e com uma clareza espantosa, provando que a ciência não tem de ser enfadonha nem incompreensível.
Depois de introduzir o problema das alterações climáticas (“a maior ameaça ao futuro da humanidade”), nos capítulos seguintes o autor desenvolve o tema com informação sobre o equilíbrio do planeta, aquecimento e arrefecimento (naturais) da Terra, efeito estufa ou fontes de carbono e respectivo mercado.
Em capítulos com títulos sugestivos como “As soluções”, João Lin Yun faz uma breve exposição sobre os vários tipos de energias renováveis, terminando ironicamente com a pergunta: “Afinal, como se arrefece o planeta?” A resposta é uma verdade de La Palisse: «A Terra tem uma única forma de arrefecer, a saída de energia para o Espaço, na forma de radiação infravermelha. Arrefece como um ferro eléctrico desligado (colocado no vácuo). Por isso, para arrefecer a Terra, temos de deixá-la arrefecer, não tapando as saídas de radiação infravermelha com as nossas emissões de gases com efeito estufa.»
Mas o mais interessante de todo o livro talvez seja a enumeração dos riscos para Portugal das mudanças climáticas, salientando-se, entre elas, as secas prolongadas alternadas com inundações severas, a deterioração da qualidade da água, a desertificação do Alentejo e o aparecimento de mais insectos e de doenças tropicais.
Prosseguindo o seu cunho absolutamente didáctico, o livro deixa vários exemplos práticos que estão ao alcance do cidadão comum e que podem contribuir para o arrefecimento global. O planeta agradece.
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João Lin Yun
Como Arrefecer o Planeta
Editorial Presença, 12,50€

Pedro Camargo | Neuromarketing


1- De que trata este seu livro «Neuromarketing»?
R- Trata-se de uma visão diferente da pesquisa de mercado e de algumas premissas de marketing, aconselhando o leitor a levar em conta os processos cerebrais para entender os gatilhos do comportamento de consumo do ser humano, mediante o uso de técnicas de imageamento cerebral. É um livro que questiona a utilização somente dos métodos ortodoxos na pesquisa de marketing (métodos behavioristas de observação do comportamento), questiona as premissas da racionalidade humana, questiona a profundidade das informações obtidas por estes métodos tradicionais, questiona o peso dado para as influências sociais e culturais no comportamento do consumidor, questiona fundamentalmente a nossa visão antropocêntrica de tal comportamento. Traz para o conhecimento do leitor, as novas perspectivas das ciências econômicas, como a economia comportamental, a neuroeconomia e o próprio neuromarketing. Mostra também as universidades, as pesquisas, as empresas e os pesquisadores que estão trabalhando com neuromarketing e por fim trata igualmente do aspecto ético no uso deste tipo de pesquisa.

2- De forma resumida, qual a principal idéia que espera conseguir transmitir aos seus leitores?
R- Quero transmitir que somos seres humanos, homo sapiens e não homo economicus, isto significa que temos comportamentos de consumo muitas vezes nada racionais, desde a escolha até a tomada de decisão. Portanto não há como entender o real comportamento do consumidor usando somente métodos de pesquisa de mercado tradicionais, com entrevistas e questionários ou mesmo focus group e a partir deste viés, ter a certeza de que chegou ao âmago ou ao cerne da questão. É preciso mais! Faz-se necessário buscar as informações anteriores ao próprio comportamento, subjacentes a ele, pois já se sabe, desde as pesquisas de Benjamin Libet que o cérebro decide milésimo de segundos antes que tenhamos consciência disso. Estas informações anteriores ao comportamento observável, são processadas nas várias áreas do cérebro e por isso o diagnóstico por imagem pode nos ser muito útil na busca pela verdade. O ser humano não sabe o que o levou a tal comportamento por motivos vários que alego no livro (escurecimento verbal, auto-engano, instinto, processos automáticos, memória) e, portanto, se responder a uma pesquisa, estará dizendo algo que seja condizente com seu modelo mental e não a verdade ou o real motivo do comportamento. Uma pesquisa quantitativa pode ser feita, sem dúvida alguma, na forma de observação (como prega teoria behaviorista), basta contar quantos compraram, já pesquisa que se diz ser qualitativa, não pode ser feita somente com uso dos métodos ortodoxos, pois o que se descobrirá, certamente não será o real motivo de compra.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R - Estou escrevendo um novo livro que deve estar pronto ainda este ano, no máximo no começo de 2010, que leva o título “Biologia do Comportamento do Consumidor”. Este tema que criei e registrei, é inédito nos estudo de marketing e de comportamento do consumidor e também muito interessante na medida em que levanta todos os aspectos biológicos subjacentes ao comportamento de consumo. Neste novo livro, vou além do neuromarketing, que é um método de pesquisa de marketing feita mediante o uso de equipamentos de diagnóstico por imagem e levanto outras questões físico-químicas corporais, que influenciam direta e indiretamente o comportamento de consumo, ligadas à genética, a biologia, a neuroquímica, a endocrinologia, ao sistema nervoso entérico e até à filogenia. É um livro que complementa o primeiro, no sentido de que trará ainda mais informações biológicas do comportamento de consumo do ser humano e muito curioso porque levanta informações ainda não pensadas pelo marketing, que tem o viés apenas das ciências sociais, esquecendo-se de que somos, antes de seres sociais e culturais, seres biológicos, imperfeitos em nossas escolhas e decisões e nem sempre conscientes de nossos atos. É uma visão diferente que leva em conta a etologia, a zoologia a biologia comportamental, a genética comportamental, a psicologia evolucionista e várias outras áreas. Para tanto tenho recebido a colaboração e o apoio de vários cientistas consagrados que me ajudam enviando informações fantásticas como: Frans de Wall, Bonie Blesser, Marco Iacoboni e alguns outros.
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Pedro Camargo
Neuromarketing
Edições IPAM

José Rodrigues dos Santos | Fúria Divina

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Fúria Divina»?
R-É uma nova aventura do Tomás Noronha, que desta vez nos leva numa viagem ao fundamentalismo islâmico e ao terrorismo nuclear.

2- Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R- Há duas ideias. A primeira é: e se a Al-Qaeda tem a bomba atómica? E a segunda é: e se o islão dos fundamentalistas for o verdadeiro islão? A resposta a estas duas perguntas é, como calcula, aterradora.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-Estou a escrever outras coisas.
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José Rodrigues dos Santos
Fúria Divina
Gradiva-23€
José Rodrigues dos Santos na Internet

O desatino dos anjos

É uma ficção, meio científica meio espírita, se é que há metades nesta área. E se é que há esta área. Daí a dificuldade de encarar cientificamente uma incursão em território tão especulativo, em que o mais concreto são as referências a um capacete e a um arsenal de meios pouco esclarecedores sobre a natureza da inventiva: meios computacionais e programas.
O objectivo dos dois cientistas (ele, psicofísico) que trabalham no projecto só lá para a frente a narrativa esclarece: transmitir a outrem as memórias de alguém, transformando o receptor numa espécie de médium, por meios tão materiais como o tal capacete e o código estabelecido informaticamente. Estes são os bons da fita, mais três protagonistas que acabam por se encontrar movidos por um sonho comum centrado numa capela escocesa.
Os maus aparecem da forma mais tradicional, com o assassínio dos dois investigadores, devidamente laureados com um Nobel, por via dos seus trabalhos “no domínio das neurociências”. Os maus pertencem, neste caso, naturalmente, ao mundo de uma agência americana que, vamos ver lá para o fim, já estava em roda livre e os defeitos dos seus procedimentos não podem ser atribuídos ao sistema.
O arrependido de entre os maus fica pelo caminho, ele que já estava a entrar no mundo dos que lograriam deixar a sua herança espiritual, uma espécie de sementeira da memória legada aos vindouros. E era isso, com toda a capacidade de influência e manobra que os da agência transviada tanto ambicionavam – que eles, “leigos”, lograssem materialmente, cientificamente, os êxitos de previsão e comunicação que até aí estavam reservados aos médiuns.
A história será fraca, com êxito reservado aos entusiastas desta temática. A aposta do autor parece residir na escrita, no ritmo, e tal terá sido conseguido, atendendo ao anúncio de que está a caminho uma adaptação cinematográfica. O ritmo, sim, pela rapidez, o capítulo curto, à Dan Brown – diga-se. Como se uma boa história vivesse exclusivamente disto. Não parece o caso, a história está mal apoiada “cientificamente”, admitindo que seria possível estar bem suportada, e por vezes estilística e estruturalmente parece uma aventura do “grupo dos cinco”.
E, no entanto, o autor, que começou no cinema como pirotécnico, é um homem empenhado na “comunicação das emoções”. E terá ficado contente com a obra, a avaliar pelo rol final de agradecimentos, a quantos estimularam o seu trabalho. Que seja por bem.
Mal, mesmo mal, as gralhas e erros ortográficos que caem no texto ao longo de todo o livro. Se as gralhas são lamentáveis, a ortografia é matéria que não devemos deixar introduzir-se nas cabecinhas, tanto mais se há o risco de os lapsos serem propagados a terceiros por uma qualquer via extra-sensorial (ou tão prosaica quanto este exílio angelical).
Médium, vá lá, analfabeto é que não – e aqui “serro” os punhos.
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Gilles Legardinier
O Exílio dos Anjos
Publicações Europa-América, 21,90€

Resta a água da colónia

A alguns rios bastaria o tumulto dos mitos que alimentam para que fosse de sobressalto a sua corrente, agitado o percurso, acidentada a história. Atropelam as nossas memórias as piranhas do Amazonas, as múmias do Nilo, as cheias do Mississípi, as valsas do Danúbio, o Rio Amarelo na orgia da cor, e por aí adiante.
O Congo (que por devaneio nacionalista/tribal já foi Zaire), esse, emerge das grandes matas de África, marco da colonização portuguesa, palco maior dos seculares horrores africanos, mapa de cobiça – sempre, pelos escravos primeiro, os diamantes e o ouro depois, as madeiras exóticas, o cobre, e o cobalto nos nossos dias.
O grande rio que pareceu limitar o continente à brevidade da costa acabaria por tornar-se a veia de comunicação essencial à exploração colonial que, ainda assim, no século XIX, apenas despertou os apetites do rei belga Leopoldo. Os exploradores como Livingstone e Stanley abriram o caminho, a vilanagem não tardaria.
Os nossos dias acordaram um jornalista inglês para a descida do Rio Congo, ele que cobria para o seu órgão todo o continente e que acabou por ali aterrar em serviço. A percepção dessa realidade de um país deixado nos braços de políticos corruptos, na agitação permanente e na inexistência de leis, nas doenças e na incerteza somaram-se a uma velha semente deixada pela mãe do próprio jornalista que ainda jovem, na década de 50 do século XX, por ali tinha viajado – em segurança, paz e conforto invejável.
Tudo somado, o jornalista fez-se aventureiro, leu muito, consultou gente que conheceu em trabalho no próprio Congo, planificou o que pôde com apoio da Internet, conseguiu que o seu jornal lhe desse cobertura. E fez-se ao caminho para o que não tardará a parecer ao leitor mais uma loucura do que uma hipótese séria de cobrir milhares de quilómetros por terra e rio, sem cobertura logística de praticamente nenhum tipo. Bem, na verdade, socorrendo-se do que no terreno ainda funciona: grupos de apoio disto e daquilo, forças da ONU, de ajuda humanitária, missionários ou do que deles resta (ou é possível).
E lá se fez ao terreno de todas as provações, mais numa viagem ao futuro do que ao passado, veja-se o paradoxo, quando o jornalista dá em pensar que afinal, neste país, a faixa etária que mais de perto viveu o desenvolvimento ali levado pelo século XX (sob a forma de colonialismo!) foram os velhos que ainda restam. Os outros, os mais jovens, já não têm memória das estradas e ferrovias que há muitas décadas passaram porventura pelas suas aldeias. É que ele vai encontrar carris, por exemplo, ao longo de uma vereda deixada pela selva e que percorre… numa motocicleta de pequena cilindrada.
Conta-lhe um grego de família emigrada, numa etapa da viagem em Kisangani: “Nasci aqui, no Congo. Quando os meus pais me levaram de regresso à Grécia, em criança, lá era mais atrasado do que aqui. E eu ansiava por voltar ao Congo, porque era mais desenvolvido do que a Grécia. Consegue imaginar?”.
Chegados aqui justificar-se-ia um suspiro de saudade… das colónias, não? Mas os antigos colonialistas não deixaram o chão que deu uvas. Hoje “crescem” ali as mesmas e outras matérias-primas que justificam todos os investimentos e corrupções. Eles continuam por lá, alguém compra os minérios, faz funcionar as linhas (não ferroviárias, que essas enferrujaram…) mais ou menos clandestinas de transporte, paga aos cleptómanos sanguinários de hoje como já subornou e alimentou os de ontem – os de sempre, aqui como em qualquer outro lugar.
É assim que um pouco desse país vai descendo todos os dias em direcção ao oceano que dissimula o sangue de todas as chacinas, ao Ocidente que tem a consciência suficientemente infinita para viver em paz no clamor de tantas mortes, aos consumidores que querem lá saber…
E por isso o ciclo se repete nos sucessivos golpes de Estado, em manobras infindáveis justificadas por jazidas que emergem nas bolsas internacionais, em discursos bem intencionados de políticos que não leram, não viram, não sabem. Nem querem saber que este mundo é tão estranho, tão diferente, que aqui “no Alto Congo, onde há cem anos um caçador belga podia comprar bilhetes de ferribote, em 2004 é tão impossível comprar uma Coca-Cola como ir à Lua”.
Até a Coca-Cola? Pois, esta gente alimenta-se de mandioca e bananas, bebe água do rio mal fervida quando é possível, come pequenos peixes que aparentemente é o que consegue apanhar. Pelos vistos, quando nos anos 60 o governo foi entregue às gentes de Mobutu, a que se seguiram outros iguais, e depois outros não menos piores, ninguém se lembrou das canas de pesca do aforismo chinês (ou do livrinho vermelho de Mao…). E, lembre-se, não é por a China estar ausente: uma boa parte do cobalto que hoje se escoa pelas frinchas da corrupção vai ser embarcada em Durban com destino à indústria que agrava a quota de carbono devida por Pequim.
Aqui chegados, alto lá que se calhar estamos a afundar-nos em demagogia. Claro que os povos africanos têm a sua quota de responsabilidade e Butcher não ilude a questão. “A crueldade e a ganância dos ditadores africanos devem ser criticadas, mas também é verdade que os povos africanos não foram capazes de trabalhar em conjunto para controlar os excessos dos ditadores. O poder do povo em África bate um infeliz recorde”, assinala.
O poder do povo ficou reduzido às águas da colónia que foi belga, e que hoje é apenas de um rio que se chama Congo. Vermelho, de sangue, diz Tim.
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Tim Butcher
Rio de Sangue
Bertrand Editora, 18€

Mário Zambujal | Uma Noite Não São Dias

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Uma Noite Não São Dias»?
R- Na sequência dos meus livros anteriores, "Uma Noite não são Dias" pretende, antes do mais, divertir um pouco e proporcionar prazer da leitura. Isto já não é ambição pequena. Desta vez procurei parodiar as evoluções da sociedade a partir de tendências que podemos já hoje observar.

2- Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R- Imaginar alguém que, repimpado no "esquisito ano de 2044", olha em volta , para a surpreendente vida desse seu tempo, mas observa também, com risonha crítica, os "atrasados" costumes da época que vivemos agora.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- De momento apenas vou escrevendo contos que talvez venham a ser reunidos em livro.Quanto a outros objectivos, um romance ou uma novela nascem e vão crecendo antes de se passar à escrita. Nesse sentido, comecei a magicar num tema que, por enquanto, se resume a algumas ideias ainda vagas.
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Mário Zambujal
Uma Noite Não São Dias
Planeta, 13,85€

António Alves Seara | Um Rio Chamado Ilusão


1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Um Rio Chamado Ilusão»?
R– Fora da minha principal actividade profissional (professor do 1ºciclo do Ensino Básico), fui director do quinzenário “A Voz do Mar” de Peniche durante mais de quatro décadas. Ao longo da vida fazia poemas de longe em longe quase sempre a propósito de qualquer coisa que tocava a sensibilidade. De vez em quando, publicava um no jornal que dirigia assinado sempre com pseudónimo. Jamais pensava vir a publicar um livro de poesia. Mas, um dia, vendo a minha neta, ainda só com oito anos, a tentar fazer um poema dedicado ao pai, achei piada e disse-lhe: -Olha o avô tem p’raí coisas dessas, vai procurá-las para, quando fores maiorzinha, tu leres. Verificando que tinha um conjunto razoável, por simples curiosidade, mostrei esses poemas a um grande amigo meu professor do Ensino Superior, historiador e poeta e a outros amigos professores do ensino secundário. Todos me “ordenaram” a publicação desses poemas. Assim nasceu o livro “Fragmentos de Silêncio”. Anos mais tarde quando, a pedido, procedia n’A Voz do Mar” a vários textos relativos a eventos do clube rotário de Peniche de que sou um dos fundadores fui encontrando algum desse material poético que outrora ia publicando assinado com pseudónimo. Fotocopiei-o e com outros poemas que fiz a seguir assim nasceu “Um Rio chamado Ilusão”. Esse “rio” mais não é do que a minha própria imaginação na qual, naturalmente, também nasceram os poemas que compõem o livro.

2- Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R– Pensei fazer apenas uma edição de autor para deixar como herança a familiares meus e alguns amigos. Todavia, a “Caminho das Águas Editora” de Caldas da Rainha mostrando-se interessada em conhecer esses meus poemas, aceitou assumir a edição dos mesmos em determinadas condições

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R– Ainda vou fazendo alguns poemas na perspectiva de fazer mais um livro o que já será muito difícil. É que já entrei na casa dos 80! De qualquer modo, continuo bastante ocupado: jornalismo, movimento rotário, fotografia (exposições), etc.
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António Alves Seara
Um Rio Chamado Ilusão
Caminho das Águas, 15,20€

MINOTAURO | António Sáez Delgado: «Ser uma biblioteca de referência da narrativa espanhola actual de qualidade»

Minotauro é a nova chancela das Edições 70. Aposta forte nos autores espanhóis. Tem um projecto claro para apresentar aos leitores portugueses. Ouvimos o seu director editorial, Antonio Sáez Delgado.
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1- Como descreve o projecto editorial que está na génese da Minotauro?
R- A Minotauro aposta num catálogo construído com base nos autores, obras escolhidas com um rigoroso critério de qualidade literária, fora de vogas passageiras. Pretende chegar a ser uma biblioteca de referência da narrativa espanhola actual de qualidade, com nomes imprescindíveis do panorama actual.

2- Em termos de géneros ou áreas temáticas, quais vão ser as principais apostas da editora?
R- A Minotauro publica narrativa, quer romance quer novela ou contos. Relativamente aos autores, tem duas linhas: uma de autores com uma extensa trajectória literária e com reconhecimento internacional; e outra de autores mais novos, com contrastado reconhecimento crítico que forma a aposta da Minotauro para o cânone da literatura contemporânea dos próximos anos.

3- Para os próximos meses, que títulos ou autores têm em carteira para surpreender e conquistar os leitores portugueses?
R- O lançamento da Minotauro conta com quatro obras: Contra Natura, de Álvaro Pombo, um extraordinário romance sobre as relações e o amor no mundo gay; Bingo!, de Esther Tusquets, uma novela irónica e, ao mesmo tempo, melancólica sobre as personagens que se encontram em volta do jogo do bingo; Crematório, de Rafael Chirbes, um retrato ácido da geração espanhola que fez a transição democrática cheia de ideais e acabou torturada pela corrupção urbanística; e Sem Necessidade, de Julián Rodríguez, um dos novos valores da narrativa espanhola, com uma aposta muito séria e definida por um estilo sóbrio e elíptico, com uma novela de reconstrução da memória ambientada em Portugal.
Nos próximos meses irão aparecer livros de autores como Belén Gopegui, Antonio Fontana, Félix Romeo, Antonio Orejudo ou Andrés Barba.
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http://www.minotauro.co.pt/

Carlos Santos | E Agora, Obama?

1- De que trata este seu livro «E Agora, Obama?»?
R- É uma visão prospectiva do que são os 4 primeiros anos da Presidência Obama. Incidindo sobre 4 vectores: política internacional, economia, energia & ambiente, e assuntos internos (educação e saúde nos EUA). Na vertente de Política Internacional, precisamente a que foi agora base do Nobel concedido a Barack Obama, é salientada a sua visão multiralista e o regresso dos EUA à comunidade das nações depois da Administração Bush. É também previsto e analisado o seu esforço de não proliferação de armamento: tanto a nível do escudo anti-missil que efectivamente suspendeu, como a nível do relacionamento com o Médio e Extremo Oriente.

2- De forma resumida, qual a principal ideia que espera conseguir transmitir aos seus leitores?
R- Procuro no essencial transmitir a materialização da mensagem de esperança do candidato Obama na constituição de uma equipa governativa, a sua Administração, e numa sequência efectiva de políticas (a nível externo, de segurança, de ambiente, etc.) que a traduzissem em algo de concreto. Aparentemente, a Academia Sueca terá julgado que essa nova abordagem à política internacional, com a reinserção dos EUA numa perspectiva multilateralista e do respeito pelo diálogo internacional, seria merecedora de uma recompensa imediata. Mesmo que os frutos das políticas perspectivadas no livro e que Obama tem arrojadamente vindo a cumprir não se traduza no curto prazo. O processo negocial com a Síria para condicionar o Irão, por exemplo, exige a espessura histórica do tempo.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- A figura de Lula da Silva, o Presidente cessante do Brasil exerce sobre mim particular fascínio. Tenho praticamente concluído um livro sobre a sua Presidência e a forma como apesar das extraordinárias dificuldades do tecido económico e social brasileiro foi capaz de repensar o lugar do Brasil no mundo, tornando-o numa das mais dinâmicas economias emergentes. Em poucas palavras, não só foram reduzidas as condições extremas de pobreza de parte da sociedade Brasileira como o Brasil se transformou de devedor em credor do FMI. Foi uma aventura de 8 anos fantástica.
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Carlos Santos
E Agora, Obama?
Esfera do Caos, 16,80€

A marca vitriólica do Barreiro

Há pouco mais de um século, a mão de um grande industrial lançou no Barreiro, margem Sul do Tejo, em frente de Lisboa, a semente do que viria a ser o maior empório fabril português. Assim nascia um conglomerado de empresas que marcaria a vida económico-financeira do país durante grande parte do século XX, quase sete décadas.
Assim nascia um conglomerado de empresas que durante grande parte do século XX marcaria a vida económico-financeira do país – e do Barreiro. Disso dá conta Jorge Morais
Foi um passo de gigante o que Alfredo da Silva então deu, atravessando o rio com a produção de adubos, que fabricava em Alcântara. Do lado de lá, aproximava-se do grande local de consumo desta sua produção – as terras cerealíferas do Alentejo – e ficava com uma matéria-prima essencial, as pirites dali provenientes, mais acessível pelo transporte ferroviário, uma mais-valia logística e económica.
O ácido sulfúrico, pois claro. As pirites são a base da síntese do ácido sulfúrico, que como o autor assinala foi o químico inorgânico que mais pesou na economia das nações, no século XX. Ele era usado na produção de fertilizantes, mas também nos decapantes, detergentes, ácidos, sulfatos, refinação do petróleo, papel.
As unidades do Barreiro fortaleciam-lhe também a posição nos óleos, que produzia em Alferrarede, um ramo de negócio que incluía o sabão e as estearinas. A nova posição estratégica garantia-lhe uma posição hegemónica no mundo das oleaginosas, a via para o monopólio, que passava igualmente pelo transporte fluvial e marítimo, tanto na distribuição dos produtos acabados como na recepção de matérias-primas de outros meridianos e latitudes. E, em crescendo, o estuário ali à beira, estava mesmo a pedir o lançamento de uma empresa de transporte marítimo, e quem diz isto por que não pensar em estaleiros? E, depois, tudo o resto que viria a constituir o universo CUF – Companhia União Fabril.
Pensar grande, pensar futuro, foi o que Alfredo da Silva fez, quando em 1907 adquiriu os terrenos de uma anterior fábrica de cortiça. Foi a partir desse espaço fundador que ele consolidou o grupo industrial que mais tarde passaria ao grupo familiar dos Mellos, sendo que um dos seus principais protagonistas no pré-25 de Abril e nos tempos que se seguiram, de tentativas de refundação e recuperação, José Manuel de Mello, morreu há ainda pouco tempo. Incensado, pela dimensão e significado do império cufista.
Claro que um aparelho industrial da dimensão referida polarizaria a vida da terra. O Barreiro dos anos 60, o eixo desta abordagem – talvez tempo da infância do autor, quando “viu” a vila com olhos de menino – fervilhava em torno dos turnos fabris, dos incidentes, ritmos, produções, vida associativa e social que a organização industrial proporcionava – e determinava.
Uma das ruas centrais da vila era a do Ácido Sulfúrico, ainda hoje existente, num espaço “civil” conquistado à adormecida e/ou aniquilada actividade industrial de há quase quatro décadas. Outras ostentavam nomes como o de Rua dos Superfosfatos, Travessa da Glicerina ou Rua da Pirite. Eram, na verdade, estes, pilares do fervilhar da terra.
Um quotidiano que o autor tão bem sintetiza na evocação da sirene do meio-dia, “a poderosa ‘buzina’ que ecoava por toda a freguesia chamando dez mil almas à pausa do almoço”. Como este aviso, eram os ritmos das fábricas que determinavam tudo o resto, nos seus 200 hectares que ocupava na fase final, tendo sob a sua alçada linhas férreas privativas, bairros de habitação, refeitórios, laboratórios, escolas, posto médico, bombeiros, etc..
Uma organização social, a do Barreiro, que obedecia a um figurino político-social herdado da segunda metade do século XIX e prevalecente na Europa até depois da Primeira Grande Guerra, assente, como recorda o autor, na figura do “patrão-pai”. A obra social lançada por Alfredo da Silva logo com o arranque da implantação do pólo industrial foi nessa linha.
Mas não era esse mundo, por si, uma garantia de paz. Alfredo da Silva já tinha provado o sabor (e revezes) das lutas operárias e políticas, sobretudo na sequência do sidonismo, que apoiou. E assim procurou refúgio em Paris, certamente espevitado pelas greves no Barreiro e dois atentados pessoais. O seu nome, esteve, de resto, lembra o autor, inscrito na lista negra da “noite sangrenta”.
Não é que, em 1907, o fundador da CUF desconhecesse as tradições do Barreiro, já não “uma pacata terra de pescadores e camponeses que repentinamente despertasse para o progresso tecnológico”. Não, Alfredo da Silva sabia “que não encontraria uma população dócil, acomodada ou subserviente, quando começou a contratar operários no Barreiro”. Mas acreditou no efeito atenuador da obra social que trazia para aplicar – e concretizou.
Os tempos menos pacíficos atravessariam, naturalmente, as longas décadas de crescimento do império da CUF. Os últimos anos antes do 25 de Abril de 1974 registariam focos de perturbação social, com a presença da GNR cada vez mais necessária à dissuasão dos contestatários. Assim aconteceu nos anos 60, e até antes: por exemplo, em 1943, pouco depois de D. Manuel de Mello, genro de Alfredo da Silva, assumir a presidência da CUF, as fábricas foram atingidas pela greve e o “Barreiro submetido à tutela militar”. Tudo isto, apesar de uma relação tensa com o salazarismo, que Alfredo da Silva já arrastara, com algumas vitórias, e que os herdeiros Mello assumiram e mantiveram. Com lucros.
Quando o 25 de Abril se apresentou como obra feita, o quadro já não era brilhante neste como noutros grupos industriais, portugueses e não só. Jorge de Mello é aqui evocado na sua recordação de que “a fase final do regime é uma corrida contra o tempo, procurando internacionalizar o grupo, explorando as suas possibilidades de abertura na sociedade portuguesa, sobretudo em direcção à Europa”. A crise do petróleo fazia-se um grande abanão, já tremiam as grandes economias mundiais.
O Barreiro ficou como é hoje, comido lentamente pelas nacionalizações, por essa crise que lhes era alheia. E paralisado, até hoje, o aparelho industrial que ocupava grande parte do seu território, uma mescla caótica de actividades que se cruzavam, enfrentavam e que muitos detestavam – apesar de delas dependerem economicamente. E até o característico smog barreirense, que tantos protestos alimentava, acabou de vez.
O definhamento das indústrias, sob a novel designação de Quimigal, mais o dos caminhos-de-ferro que alimentavam outro pólo, o das oficinas da CP, ditou o marasmo de hoje. A concentração industrial cedeu o passo a um dormitório de novas e velhas urbanizações, o desânimo tomou conta das antigas e novas gentes, a esperança até já reside na nova ponte que há-de atravessar o Tejo e atracar no Barreiro exactamente no ponto onde já houve CUF.
Paradoxos dos tempos. E, tudo somado, lembra o autor, resta hoje “no Barreiro uma memória benévola, temperada pelos senões que qualquer actividade humana comporta”. Uma memória benévola, diga-se, que cada vez mais se fez complacente no sentido de comprazimento – uma imagem de marca dos nossos tempos face ao passado, mesmo que amargo. Não é assim com o chocolate?
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Jorge Morais
Rua do Ácido Sulfúrico – Patrões e operários: um Olhar sobre a CUF do Barreiro
Bizâncio, 12, 15€

Alice Duarte | Experiências de Consumo


1-De que trata este seu livro?
R- Contrariando uma tendência existente e, até, ainda possivelmente dominante de olhar o consumo como mera resultante da produção capitalista e de perceber a mercadoria como algo intrinsecamente negativo, neste meu livro o processo de consumo é abordado enquanto processo de produção de identidades sem que também estas surjam reduzidas às das categorias sociais de classe ou status. As opções e actividades de consumo de 24 famílias da “classe média”, considerando não apenas os meros actos de compra mas abrangendo todas as suas decisões e actos anteriores e posteriores à compra propriamente dita, são analisadas enquanto meios de expressão e comunicação de construções de valor e do sentido do que cada um é em termos emocionais, morais, ideológicos.
Descortinando e compreendendo a diversidade de possibilidades de re-socialização das mercadorias levadas a cabo pelas respectivas apropriações criativas de consumidores concretos, evidencio o papel instrumental que o consumo pode ter na vida das pessoas. Trata-se de uma abordagem do consumo enquanto actividade prática, contextual e moral, cuja análise foi possível através de um dispositivo qualitativo de pesquisa assente num esquema intensivo de entrevistas e etnografia.

2-De forma resumida, qual a principal ideia que espera conseguir transmitir aos leitores?
R- a) Evidenciar como o consumo pode ser um meio precioso de expressão dos actores sociais, enriquecendo a visão simplista da questão normalmente veiculada pelos mass media e correspondente senso comum;
b) Fornecer uma caracterização qualitativa razoavelmente penetrante dos contornos culturais (sociais, mas também morais, ideológicos) orientadores das opções de vida das “novas classes médias” portuguesas.

3-Pensando no Futuro: o que está a escrever neste momento?
R-Estou a escrever outro livro igualmente sobre o consumo, mas em que o tópico central se desloca da identidade para as sociabilidades. Pela consideração do “consumo para os Outros” na forma de presentes, analiso o consumo enquanto canal de estabelecimento e manutenção de relacionamentos entre os actores sociais.
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Alice Duarte
Experiências de Consumo - Estudos de Caso no Interior da Classe Média
U.Porto Editorial

Deana Barroqueiro | O Espião de D. João II

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «O Espião de D. João II – Na Demanda dos Segredos do Oriente e do Misterioso Reino do Preste João»?
R- Este romance fecha um ciclo narrativo sobre o reinado de D. João II (e começos do de D. Manuel), com as grandes viagens dos Descobrimentos, concretizadas por Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e Pêro da Covilhã. N’O Navegador da Passagem, como pano de fundo das recordações de Bartolomeu Dias, está o reinado do Príncipe Perfeito e a luta contra todos os que representam um obstáculo ao seu grande projecto político para Portugal. N’O Espião de D. João II, com as missões de Pêro da Covilhã e a sua extraordinária peregrinação de seis anos, por três continentes, procurei mostrar o imenso sonho desse mesmo rei.
Este romance foi também fruto do desejo de fazer algo diferente dos dois livros anteriores, criando uma narrativa à semelhança de um romance de cavalaria, dado que a personalidade de Pêro da Covilhã – um herói solar, misto de Indiana Jones e James Bond quatrocentista – se prestava às mil maravilhas para essa construção.

2- Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R- Há em mim o síndrome de Joana d’Arc, que me leva a defender causas perdidas ou esquecidas, neste caso dar a conhecer figuras da nossa História e Cultura que são de há muito ignoradas, apesar da sua grandeza e do enorme contributo que deram, no seu tempo, para o avanço do nosso país e mesmo da civilização a um nível global.
Assim, em 2008, quando finalizava O Navegador da Passagem, sobre o injustamente ignorado Bartolomeu Dias (um grande Homem espoliado do seu sonho), já não consegui afastar do pensamento essa outra espantosa personagem que aí aparecia, embora fugazmente. Pêro da Covilhã era enviado, em 1487, com o albicastrense Afonso de Paiva, a descobrir por terra aquilo que o navegador Bartolomeu Dias iria demandar pelo mar: uma derrota para as especiarias da Índia e notícias do encoberto Preste João, o mítico imperador cristão do Oriente, cujo paradeiro a Europa buscava, em vão, há mais de duzentos anos. Apesar de tão espantoso feito, Pêro da Covilhã, o espião preferido de D. João II para as missões mais perigosas e secretas, não teve sequer o direito de ser conhecido pelo nome de família, mas apenas pelo do lugar que o viu nascer, sendo igualmente ignorado pela maioria dos portugueses.
Quis torná-los vivos, reais e próximos aos meus leitores, para que não os esqueçam.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Mudei de período histórico para dar continuidade ao projecto de D. Sebastião e o Vidente (2006), pois gosto de ter obras a conversarem ou a discutirem umas com as outras. Terminei esse livro com os prenúncios da anexação de Portugal pela Espanha, assim, no novo romance – que já vai adiantado, embora não esteja segura de o poder terminar em 2010 por ter um tema e também um estilo mais complexos – o poeta guerreiro, seu protagonista, dá a conhecer as consequências dos desastrosos reinados dos dois últimos Filipes para o reino de Portugal e os seus senhorios do Brasil, África e Oriente – sujeitos à cobiça e depredação das nações estrangeiras – que levam, por fim, à Restauração e subida ao trono de D. João IV.
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Deana Barroqueiro
O Espião de D. João II – Na Demanda dos Segredos do Oriente e do Misterioso Reino do Preste João
Ésquilo Editora

Para um balanço da cultura portuguesa

Homem de cultura, o autor propõe-se logo no título desta obra dissertar, em “cinco exercícios disciplinados”, sobre o tema de sua especialidade, na sua contemporaneidade. Não vêm do nada estes propósitos, porque o professor se tem desdobrado em actividades múltiplas, do trabalho de investigação e produção teórica à prática das iniciativas, de que são exemplo a gestão artística que desenvolveu à frente da Culturgest e a coordenação da área da criatividade e criação artística na Fundação Calouste Gulbenkian.
O primeiro exercício é modelar dos propósitos do autor, que partindo das diferentes formas de governar na área cultural aproveita para estabelecer alguns caminhos e limites de (ad)ministrar a cultura, propondo, por exemplo, uma revisão do conceito de cultura que considera “fulcral na constituição de um discurso simbólico”.
E assim propõe que se deixe de lado a ideia de cultura vigente (“uma espécie de depósito a que se vai buscar obras de culto ou chavões de identidades fabricadas”) para pensar “um sistema de inter-relações dos membros de um grupo – entre si, mas também entre as suas práticas e memórias – e não como um armazém ou um banco de dados”.
Não é que os arquivos estejam deitados para trás das costas. Não, pelo contrário, “uma política cultural de esquerda actual e cosmopolita deve proteger e tratar com particular cuidado e atenção os arquivos” nas suas diversas manifestações. E escreve-o com o cuidado de esta ser à esquerda uma nota distintiva, entre outras.
A não perder, a decomposição em três ciclos da história da cultura em Portugal durante as últimas quatro décadas: de 25 de Abril de 1974 até ao final da década de 70, período que crisma de “a cantiga é uma arma”; o segundo ciclo, a primeira metade da década de oitenta, aquele em que se pretende “‘ter’ uma cultura como as da Europa e que quer ser ‘desesperadamente moderno’”; o terceiro ciclo, 1986-1998, abriga-se num slogan: “Já somos internacionais. Falta sermos cosmopolitas!”.
E é este último período que remete para o título do livro, dando passagem a estes nossos novos século e milénio, com a procura de uma “escala justa”.
Porque, recorda o autor, verificou-se um salto comunicacional nas últimas décadas do século XX, com novos meios materiais que permitem o do “it yourself”, que disputa lugar num tempo de “conexão em tempo real e permanente à escala global”.
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António Pinto Ribeiro
À procura de escala – cinco exercícios disciplinados sobre cultura contemporânea
Livros Cotovia, 12€

Os caminhos do homem

É natural que cada um, ao cabo de muitas leituras, experiências e reflexões acabe por sujeitar o acervo de conhecimentos assim constituído a um trabalho de síntese, de balanço, de busca ou consolidação do sentido da vida, dos valores que a orientam, do que a condicionou ao longo da evolução do Homem – e do patamar a que chegou/chegámos.
A Humanidade surge assim, em suma, como tema de uma obra que, a avaliar pelo currículo do autor, deveria incidir sobre “economia do desenvolvimento, sobre sistemas de informação, ou, por devaneio, um relato de viagens”, como preconiza no prefácio da obra Emílio Rui Vilar – sim, o ex-ministro dos primeiros governos constitucionais. E apresentador e apresentado partilham actualmente responsabilidades no Conselho de Auditoria do Banco de Portugal.
A surpresa sobre a temática de “A Humanidade, essa desconhecida” justifica-se com o facto de o seu autor, Rui Conceição Nunes, ser economista de formação, “professor de economia de muitas gerações de estudantes”, e ter tido “intervenção cívica e governativa”. Foi, por exemplo, secretário de Estado do Planeamento do IV Governo Constitucional, com Jacinto Nunes a ministro.
Daí que o prefaciador se revele espantado com esta longa interrogação sobre a trajectória da Humanidade, numa obra em que se traça “um fresco de multi-imagens dessa linha de claros e escuros, de grandezas e misérias, de barbárie de generosidade, de avanços e recuos”. Em suma, e citando George Steiner, “a complexidade trágica da vida humana”.
O autor, ele mesmo, recorre ao paralelo, por antagonismo, levantado por Alexis Carrell, em “L’Homme cet inconnu”, em que propunha, recorda, “a eliminação dos que não obedeciam a padrões determinados a priori”. “Essa não é, actualmente, a ideologia dominante quanto ao direito a existir, ressalva o autor.
Muitas são as questões levantadas por Rui Conceição Nunes ao longo de una viagem pela história (em grande parte) das ideias, da civilização, da política: “a herança greco-romana, o Cristianismo, a expansão árabe, as descobertas, a ética protestante, o Renascimento, a independência da América, a Revolução Francesa – e mesmo a revolução bolchevista, o nazismo e tudo o mais que moldou a civilização actual – no bom e no mau”.
É um livro de histórias e não de história, eis como nos é apresentado este trabalho. Sem uma moral evidente, como reconhece o autor ao confessar que “não é possível fazer um juízo definitivo sobre se os factos históricos (…) foram ou não benéficos para a Humanidade”. É que, reconhecidamente, “não é possível identificar de uma forma perfeita e eterna o que é bom ou mau” e, por isso, “em muitos casos, os ‘inimigos’ da Humanidade acabaram por lhe fazer bem”.
Talvez se aplique aqui o velho princípio de que tudo está bem quando acaba bem. E isso, o porvir, é que não cabe neste trabalho, esse é um caminho claramente recusado.
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Rui Conceição Nunes
A Humanidade, essa desconhecida
Bond, Books on Demand, 19€

Beja Santos | Quem Mexeu no Meu Comprimido


1- De que trata este seu livro «Quem mexeu no Meu Comprimido»?
R– O medicamento tem um desempenho fundamental na prevenção da doença e no seu tratamento. Não se entende o paradigma da saúde (auto-cuidados, culto da forma, adopção de estilos de vida saudáveis, etc.) sem o bom uso do medicamento. Vivemos um tempo que exalta a autonomia do indivíduo e a sua co-responsabilização na área da saúde. Para haver sucesso, a cultura do medicamento deverá fazer parte da educação e das escolhas criteriosas dos doentes crónicos e dos utentes de saúde em geral. Este livro procura preencher essa lacuna nas seguintes dimensões: propiciar noções elementares sobre o papel do medicamento na nossa saúde e no universo do consumo; procurar inserir o bom uso do medicamento num contexto amplo dos auto-cuidados, da literacia em saúde e dos direitos dos doentes e dos consumidores, especialmente no que toca à informação e à educação; ensinar o doente e o utente de saúde a tirar partido de todas as potencialidades que são devidas ao aconselhamento farmacêutico; reflectir sobre os novos desafios nas relações entre o doente e o farmacêutico, com o objectivo de melhorar a qualidade de vida e obter mais ganhos em saúde; convidar os formadores a usar o medicamento nas aulas de saúde e em todos os currículos orientados para a aprendizagem da cidadania. É um livro de divulgação, faço votos para que outros desenvolvam e aperfeiçoem estas temáticas, espero que outros pensem no aconselhamento do médico e do enfermeiro.

2- De forma resumida, qual a principal ideia que espera conseguir transmitir aos seus leitores?
R- A principal mensagem deste livro de divulgação é a seguinte: tens tudo a ganhar em seres exigente, em termos de promoção de saúde, e saberes mais sobre o medicamento, usá-lo para tirar o melhor proveito, saberes questionar e pedir conselho ao teu farmacêutico, ele não está no balcão da farmácia para te dispensar mecanicamente medicamentos, ele é um técnico do medicamento, os medicamentos devem ser dispensados com conselho, a educação do consumidor e dos direitos dos doentes exigem uma ampla e persistente discussão sobre o uso do medicamento e o aconselhamento farmacêutico.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Estou a meio da redacção da “Mulher Grande” (MINDJER GARANDI), narrativa de uma heroína anónima com incidências familiares. Trata-se das recordações de uma nonagenária, desde a I República à actualidade. Teve uma existência de privilégio, soube ultrapassar todos os vagalhões do sofrimento e da contrariedade, é a portuguesa típica da adaptação (à vida tropical, às novas profissões, aos imperativos da solidariedade). Era a história de amor que me faltava para agradecer as coisas boas que a vida me deu nas três mulheres que, na infância e adolescência, me ajudaram a ser quem sou.
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Beja Santos
Quem mexeu no meu Comprimido?
Temas e Debates

Oxford, cenário de Intriga

Veronica Stallwood prossegue a sua saga policial que tem Oxford como pano de fundo. Depois de “Mistério em Oxford”, “Morte em Oxford”, “Luto em Oxford” e “Fraude em Oxford” chegou recentemente às livrarias portuguesas o quinto romance da autora, “Intriga em Oxford”.
Stallwood insiste na receita que lhe tem granjeado sucesso: a mesma personagem principal – a escritora de romances históricos Kate Ivory –, o ambiente familiar, a cidade de Oxford como pano de fundo e, claro, suspense do princípio ao fim, mantendo os leitores na expectativa até à última página.
Em “Intriga em Oxford”, Kate Ivory parte em digressão por livrarias do interior do país para promover o seu novo livro, juntamente com um outro escritor, Devlin Hayle. E se o companheiro de viagem parece atrair todo o género de problemas dado o género de indivíduos que o persegue, Kate acaba por ter muito mais com que se preocupar do que zelar pela vida do seu exasperante colega.
E é precisamente durante a digressão que um terrível acontecimento vai ensombrar a sua vida e pôr em causa o ténue equilíbrio que une o invulgar trio que gira à sua volta: um polícia, um bibliotecário e um adolescente problemático.
Mais uma vez Veronica Stallwood leva o leitor a entrar num jogo complicado de histórias cruzadas que só no final se encontram.
Apenas uma certeza: o leitor fica ansiosamente à espera do próximo livro.
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Veronica Stallwood
Intriga em Oxford
Publicações Europa-América, 20,51€

Os olhos dos estrangeirados

A década de 60 foi uma sangria em Portugal. A maioria das pessoas nem se aperceberia do clima de “claustrofobia democrática” em que se vivia, embora muitos dos que melhor a suportavam e até apoiavam tenham passado sobre as brasas… até hoje. Mas esses são outros voos de outras aves.
O que interessa para aqui é o ambiente sentido sobretudo pelos pobres, muitos e muito pobres, que passadas décadas nada mais tinham visto do que promessas madrastas de uma mãe pátria avarenta, prepotente, arrogante, apesar do que exigia em troca. Empurrados por esta vida desataram, pouco a pouco, a procurar sítios onde empurrar a vida – a Europa, claro, que apesar da exiguidade de passaportes se alcançava a pé, com documentos falsos, como era possível. “A salto” se chamava ao processo de migração clandestino.
Por outras paragens andavam milhares, muitos e cada vez mais jovens, numa guerra em que não tiveram escolha. Era o outro lado da sangria, uma lavra de morte que exauria forças, meios e expectativas. E que pedia sempre mais braços, mais armas, mais dinheiro. E que lançava as labaredas de um desgosto nos meios mais esclarecidos, nas burguesias, nas universidades, na própria tropa – que curiosamente abria os olhos, cansada da guerra. Afinal, a claustrofobia atingia instâncias dos menos pobres e até razoavelmente instalados.
Destes jovens com mais meios e mais sedentos de aventura e novos mundos, muitos acabaram por fugir, mais ou menos clandestinamente, mais ou menos desiludidos, com razões politicamente fundadas ou apenas levados pelo cansaço, a desilusão, o desgosto. Na verdade, a Mocidade Portuguesa não os convencia… a todos. Mas, não se iludam, muitos sim. Outros voos de outras aves, também aqui.
Claro que quando o 25 de Abril possibilitou o regresso de toda essa gente, foi uma agitação. Os guerreiros à força desataram a querer o regresso a toda a brida e – não só por isso, mas também – foi o fim da guerra a toda a velocidade. Daí a “entrega” das colónias, porque quem queria mais vagares não tinha a pressa da tropa. Uma questão de velocidades.
Fronteiras abertas, os emigrantes por razões económicas não terão sentido a febre do regresso – afinal, eles fá-lo-iam logo que tivessem atingido o tecto das ambições. Os outros, os que tinham formação política ou lá próximo, esses, certamente encontrariam razões para se reinstalarem no seu país natal. A darem uma força ao regime democrático, influenciando decisões, entrando na máquina do poder, eles que tinham logrado formação de excelência, em muitos casos.
Curiosamente, muitos vieram cheirar os novos ventos políticos, alguns encontraram quanto queriam, dedicaram-se à nova política, adaptaram-se. Construíram carreiras. Mas, sabe-se, muitos nem fizeram questão de vir ver. E outros viram e rapidamente fizeram meia volta.
Destes, dos que nem aceitaram o desafio ou desistiram, quatro tinham começado a construir novos caminhos nos países de acolhimento, como refugiados políticos tinham tido boas oportunidades. As suas inteligências, boa preparação e desempenho elevado abriu-lhes portas, criou-lhes verdadeiros centros de interesse.
Encontraram noutros países o ambiente, a qualidade de vida, a vida política, a todos os níveis, que Portugal sempre lhes negara. Que, diz a História, na sua leitura, nunca proporcionou. E Portugal, os portugueses, já não brilhavam no fundo do túnel da política que lhes tinha indicado o caminho da deserção – não, já, da vida militar, mas de tudo. Isto é: não valia a pena o regresso, o país não tem cura.
É um livro imperdível por quanto nos faz repensar aqueles anos em que cada um destes quatro se fez à fuga. A situação de um deles, então jornalista, chegou mesmo a dar brado na própria Assembleia Nacional pelo tratamento militar que lhe foi dado, incorporado sob regime disciplinar. Impregnado de actividade política, acabou como alto quadro da UE.
Outro, partiu cedo, talvez menos politizado, mas o desencanto do mundo portuense à volta não lhe deu margem. Cientista feito, estabeleceu-se na investigação universitária belga, abriu caminhos que lhe deram a satisfação de uma vida. Regresso? Ora, ora…
Outro, foi de militância funda, andou pela clandestinidade do Partido Comunista, desiludiu-se da disciplina interna, das relações, contestou… acabou excluído. Era um duplo sinal de que pouco mais teria para fazer por cá. Lá está também na Bélgica, professor e investigador na área da psicologia cognitiva. Também ficou bem com a vida de Bruxelas.
Por fim, um poeta, homem que começou por ligar-se à ONU, depois às instâncias europeias, politólogo, professor.
Encontraram-se todos nas estradas de Bruxelas, sobretudo. Reconheceram-se mutuamente valor, ajudaram-se, e perceberam esse laço de união no espírito crítico, por vezes ácido, contundente, com que vêem o Portugal resultante da revolução de 1974. Algo que se traduziu na recusa de voltar, no desinteresse, na perspectiva de inutilidade.
Um quadro que não é partilhado de igual modo e com igual intensidade por todos os quatro protagonistas deste périplo pelo passado – estrangeirados, como se dizem. Ao longo de quatro jantares arrebicados e carregados de simbólica, em que por vezes perpassa o desgosto final por não terem “podido” – ou “querido” – voltar, estes ilustres portugueses ajudam-nos a reflectir sobre o Portugal das últimas quatro décadas.
Ferem-nos, porque nos desprezam como colectivo, pondo-se à margem, reconhecendo-se elitistas, vendo-nos do alto da Europa. Às vezes andam por ali o remorso, a farpa também ao país de acolhimento, aos hábitos dos outros, ao seu modo de ser e de viver. Mas, no conjunto, estes estrangeirados não nos têm em muito boa conta. E talvez tenham razão. É ler e perceber porquê.
Então o Godinho, o Godot feito personagem central de uma história em que aparece uma única vez? Sim, aparece numa esquadra, e mal, é um retrato nada favorável: corrupto, cheio de estratagemas, desregrado… um português, o português? Relapso, excrescência de uma tropa fandanga recrutada num universo de feios, porcos e maus.
Por fim, a curiosidade de o livro ter sido escrito e impresso de acordo com as normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. Opção determinada, bem ponderada. O tema é, aliás, debatido no último jantar, aproveitando-se para cilindrar quantos, em Portugal, atacaram a entrada em vigor do acordo.
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Amadeu Lopes Sabino, Jorge de Oliveira e Sousa, José Morais, Manuel Paiva
À espera de Godinho – Quando o futuro existia
Bizâncio, 15€

Manual clássico de bem governar

Já lhe chamaram o grande educador da Europa. É o resultado de uma obra em que perpassam os grandes valores do Homem, os do seu tempo e do tempo de sempre. E que, por isso, também devem tocar-nos nos dias de hoje – de tanta confusão política, ideológica, moral.
Há solução? Aconselha Plutarco alguém que a razão “incita a fazer política” e que pede “instruções políticas”, em primeiro lugar a colocar “no fundamento da acção política” uma orientação cujo princípio assenta no discernimento e na razão.
Dito isto, o filósofo desaconselha que a opção resulte de “qualquer disputa ou por falta de outras actividades”, uma vez que observou haver quem, sem nada de interessante para fazer em privado, se virasse para os assuntos públicos “usando a política como um passatempo”.
E há os que, uma vez nela embarcados por acaso – como no caso de um barco – acabaram por enfadar-se mas não conseguem sair facilmente e “já em alto mar, olham ao longe, nauseados e maldispostos, mas são obrigados a ficarem e adaptarem-se às circunstâncias”.
O problema, comenta, é que os assim feitos navegadores da política acabam a denegri-la, condenando-a e deplorando-a, “ou porque caíram em descrédito enquanto esperavam a glória, ou porque se debatem com situações perigosas e tumultuosas”.
Dos motivos para entrega à vida política afastado está, claro, o interesse ou o lucro, coisa que Plutarco exemplifica com a “ceifa de ouro” que Estrabocles e Dromoclides usavam para brincar com a tribuna.
Estas e outras palavras que o leitor descubra são de todos os tempos. Como a questão dos amigos, dos benefícios particulares, dos favores que “não atraem a inveja”, os “honestos e generosos” que não lhe repugnam. Condena, isso sim, “as petições indignas e insensatas”, que devem ser recusadas com suavidade, explicando com cuidado que são indignas pelo seu valor e reputação.
Bom, para resumir, Plutarco legou-nos um manual de boas maneiras e decência para orientação de todos e dos que à causa pública se dedicam.
Que fique mais uma máxima em vésperas destes sufrágios que mobilizam as atenções: “Nem sempre são as rivalidades sobre as coisas comuns que acendem a disputa na cidade, mas muitas vezes dissensões vindas de assuntos e conflitos privados que, passando para o plano público, semeiam o distúrbio por toda a cidade.”
O que estes gregos sabiam, não é?
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Plutarco
Conselhos aos políticos para bem governar
Publicações Europa-América, 14,90€

Confissões


Arlyn uma jovem de dezassete anos, romântica que acreditava que o seu príncipe encantado ia surgir na curva do caminho. Aconteceu, só que se era o oposto do que havia sonhado. Desse casamento nasceu um rapaz (Sam) a quem o pai nunca ligou e que criou com a mãe uma fortíssima ligação que era de todos a única a compreendê-lo.
Perdeu a mãe muito cedo, o que o tornou mais revoltado para o que ajudou o consumo de drogas. Era um artista espectacular mas os seus desenhos eram estranhos compatíveis com a sua estranha personalidade que para muitos não passava de um louco. Só a sua meia irmã Blanca o compreendia e amava sem condições. Uma família que se foi destruindo pouco a pouco sobrando poucos que seguiram o seu caminho. Um livro que nos prende da primeira à ultima página.
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Alice Hoffman
Confissões ao Luar
Asa, 13,50€

Numa festa de anos


Este livro relata-nos a vida de um jovem nascido numa aldeia da Grécia .
Pobre mas com sonhos megalómanos sempre se convenceu que havia de conseguir possuir um Império, emigrando para Buenos Aires na esperança de o conseguir com a sua tenacidade, inteligência e não olhando a meios para o conseguir usando de muitos ardis. Conseguiu infiltrar-se nos meios onde só alguns entram. Contudo, havia um sonho que ele ainda não tinha alcançado: a arístocracia, casando duas vezes no intuito de o conseguir.
A Festa de Anos foi uma das muitas que realizou, mas a vida foi cruel com ele. Um livro que se lê com muito interesse da primeira à última página.
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Pano Karnezis
Festa de Anos
Bizâncio, 12,50€

Mistério em Lisboa


Uma jornalista encontra-se por acaso em Londres para cobrir um julgamento sobre um dentista Canadiano acusado de ser um assassino em série. Estava sentada num banco de jardim, fazendo dois artigos que seriam enviados para o jornal conforme o veredicto que nesse dia os jurados iriam decidir. Um senhor idoso sentou-se no banco a seu lado e meteu conversa. Ela queria acabar o trabalho pelo que não lhe dava jeito a intromissão. No entanto, o senhor foi dizendo que se ela estivesse interessada lhe contaria uma história sobre um homicídio ocorrido há anos mas que ainda merecia que fosse feita justiça. Ela levantou-se e ele pôs-se logo de pé para estender a mão para a cumprimentar. Depois, como forma de despedida, mandou cumprimentos para a avó e comentou que ela tinha os olhos iguais aos dela. Ficou intrigada mas não teve tempo para mais nada, uma vez que ele atravessou a rua e um carro a alta velocidade o atropelou tendo morte instantânea. A partir daí começou a interessar-se pelo caso. Isso levou-a a Lisboa e ao tempo da Segunda Guerra Mundial. Lisboa era naquele tempo um viveiro da espionagem. Começou pelo fio condutor das informações que ia colhendo. Mas quando estava perto das pessoas que lhe poderiam dar qualquer ajuda por uma razão ou outra apareciam mortas. Mas não desistiu, colocando em risco a sua própia vida. Um livro que se lê com muito interesse pela aventura que nos proporciona.
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Emma Cole
Tudo o que é Secreto-Um Mistério Em Lisboa
Bertrand Editora, 19,95€

Numa época de medo


É um romance que nos envolve de forma apaixonante do primeiro ao último capitulo. Retrata-nos na perfeição o clima que se vivia na corte. Era uma época de medo e insegurança que sagrava em tudo e em todos que de alguma forma estavam ligados a ela. Tudo começa com a viagem que o Monarca e toda a sua vasta comitiva realizam ao norte de Inglaterra depois de uma tentativa falhada de uma conspiração em York. O Rei tenta mostrar todo o seu poderio para acalmar e tornar submissos todos os revoltosos.
A trama desenvolve-se muito à volta de um personagem, o advogado Matthew Shardlake que parte a mando do Arcebispo Cranmer acompanhado do seu assistente Jack Barak
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C. J. Sansom
O Soberano-Intriga na Corte
Edições Asa, 18€

Duas histórias de amor


"A Terra Será Tua" é um romance histórico de leitura aliciante que nos narra os dramas, amores, traições, vinganças, tramas, invejas e toda uma série de sentimentos.
Tudo o que no silêncio das cortes se tecia para se ser considerado cidadão de Barcelona, um alto cargo que abria muitas portas. São-nos contadas duas lindas histórias de amor de duas jovens com finais diferentes.
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Chufo Lloréns
A Terra Será Tua
Bertrand Editora, 21,95€

Romance em Paris

O seu nome não é desconhecido, mesmo para quem nunca leu um livro da sua autoria. Afinal, Danielle Steel já vendeu qualquer coisa como 550 milhões de livros em todo o mundo.
Os livros da “rainha do romance”, como é considerada por muitos, são normalmente best-sellers – e não é difícil perceber porquê. As suas personagens correspondem ao estereótipo socialmente correcto: os homens são fortes, ricos, bem vestidos; as mulheres são frágeis mas com enorme força interior, elegantes, bonitas, bem vestidas… e seja qual for o enredo, com mais ou menos drama, uma certeza há: um final feliz.
“Cinco Dias em Paris” não foge à regra. Ele é um sensual e bem sucedido homem de negócios que dirige a empresa do sogro, com uma carreira brilhante e uma família feliz (ou pelo menos assim pensa); ela é a bonita, delicada e discreta mulher de um senador norte-americano, com a alma destroçada por uma tragédia. E Paris é a cidade do amor…
Recomendado a quem gosta de histórias cor-de-rosa.
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Danielle Steel
Cinco Dias em Paris
Bertrand Editora, 16,91€

Thriller com sabor a policial

Seguindo um filão que parece ter vindo para ficar, “O Perito”, estreia literária de Robert Finn, é apresentado como sendo «melhor do que “O Código da Vinci” e que “A Regra de Quatro”», nas palavras de Andrew Taylor (autor de “The American Boy”) que a editora imprimiu na capa do livro.
Afirmá-lo é, no mínimo, um exagero. Dentro do género, o livro tem uma trama bem urdida, intensa, com algumas boas soluções, e é capaz de prender o leitor ao longo das suas quase 400 páginas. Mas não mais do que isso.
A história de um perito de uma seguradora chamado a investigar o roubo de uma misteriosa caixa de um misterioso (e assustador) cliente – cuja indemnização poderá levar a empresa à falência – que para resolver o imbróglio recorre à ajuda de uma historiadora não é, convenhamos, de uma criatividade sem limites. E o facto de a caixa ser um objecto de culto para uma violenta seita com poderes sobre-humanos também tem um certo sabor a “déjà vu”.
“O Perito” é um “thriller” bem escrito e divertido, com laivos de policial – o que nos tempos que correm é já uma boa recomendação.
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Robert Finn
O Perito
Publicações Europa-América, 23,91€

Pedro Quedas | Escolhas


1 – O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Escolhas»?
R – Bem, é o meu primeiro livro a ser publicado, pelo que espero que, no contexto da minha obra, seja apenas um entre muitos. Nunca quis fazer mais nada na minha vida que ser escritor e gostava de continuar a viver o meu sonho só mais algum tempinho. Tematicamente, este livro representa o nascimento de algo que eu penso vir a tornar-se uma marca inevitável na minha obra – a minha transferência diária de traumas pessoais recalcados para uma escrita que oscila entre amor ardente, sarcasmo latente e tristeza omnipresente.

2 – Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R – A origem deste livro é tanto cultural como pessoal. Cultural, porque o meu estilo se apoia em doses generosas de Stephen King e Raymond Chandler, tanto na abordagem de temas como o conflito interior transcrito para o papel como no fascínio pelo conceito do “serial killer” e pelo acto de matar. Pessoal, porque a personagem principal sou eu, e porque, apesar de toda a sua mentira factual, o meu livro não deixa de ser um diário bem preciso dos meus sentimentos. Pelo menos aqueles mais negros e menos socialmente aceites...

3 – Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R – Neste preciso momento estou envolvido num trabalho que me liga à minha segunda grande paixão – o cinema. Depois de ter escrito duas curtas-metragens para amigos envolvidos na área, estou agora a meio de uma longa-metragem que será filmada pelo meu irmão mais novo, Paulo Quedas. Também estou a co-escrever, com o meu amigo e companheiro de escrita Pedro Silva, uma série de comédia que se chama “A Porra do Deserto”, na qual também participo como actor (se alargarmos essa definição a qualquer pessoa que fale em frente a uma câmara...). Aparte estes “desvios” criativos, estou com cerca de 40 páginas escritas naquele que será a sequela do “Escolhas” e estou também em fase de pesquisa e “pré-produção mental” da minha primeira incursão no mundo da ficção científica. Isto se descontarmos os contos de invasões extra-terrestres que eu escrevia durante as aulas de gramática na primária.
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Pedro Quedas
Escolhas
Livros do Brasil

Nem só de CIA vivem os americanos

Os tenebrosos mundos das forças criadas e mantidas como sustentáculo de actividades sombrias, pantanosas e tantas vezes criminosas dos Estados têm sempre surpresas para oferecer-nos. É o caso desta organização, RAND, que o título da edição americana comporta e caiu na versão portuguesa, talvez por via dessa obscuridade que tornaria tudo menos aliciante e até chocante.
Pois este acrónimo existe, lá está ele numa rápida e superficial visita ao Google, plasmado num texto afinal esclarecedor publicado pela Wikipedia em versão inglesa (http://en.wikipedia.org/wiki/RAND): corresponde à Rand Corporation, um “global policy think tank”.
Na capa da edição portuguesa de “Os soldados da sombra – Ascensão e afirmação do império americano” assinala-se que o New York Times sintetizou o livro assim: “A história do obscuro grupo de intelectuais que moldou o mundo moderno.”
Já o autor explica que a designação resulta da contracção de “research and development”, pesquisa e desenvolvimento, sendo que os seus detractores optaram por atribuir-lhe outras funções: “pesquisa e nenhum desenvolvimento”. Mas não deixa de ter envolvimentos, no mundo da política – e, portanto, da economia, das guerras, das fomes, etc. – ou não fosse por isso e para isso que foi constituída.
Má vontade, dir-se-á, porque o trabalho constatou, entre outros factos, que a RAND ajudou, nos anos 50, a Administração americana, nas mãos de Eisenhower, a enfrentar a ameaça de guerra termonuclear com a então União Soviética; na década seguinte, o envolvimento norte-americano no Sudeste Asiático foi lá buscar cabeças para os “principais cargos políticos”. Mais, o autor entende que a estrutura reduzida do governo de Reagan, nos anos 80, e a sua política intervencionista serão resultado das actividades do “think tank”. Muito se pensa por ali!
Indo ao campo prático, o autor, que obteve uma autorização da própria RAND para sobre ela escrever, regista que, por exemplo, no final dos anos 50 um engenheiro da organização desenvolveu o conceito de “packet switching”, ou rede de comutação de dados, que se revelaria básico na concepção e funcionamento da Internet.
Nos últimos 60 anos, recorda a Wikipedia, mais de três dezenas de vencedores do Prémio Nobel tiveram ligações com a organização em algum ponto das suas carreiras. Quanto às áreas de trabalho correntes, aí estão as políticas juvenis, a justiça civil e criminal, a educação, o ambiente e a energia, a saúde, a política internacional, os mercados de trabalho, a segurança nacional, as infraestruturas, a política de informações, gestão de crises e preparação para desastres, etc. Um mundo que, como se vê, dá para intervir em tudo, em todo o lado, em qualquer oportunidade.
Na governação da RAND estão representados vários grupos de interesses, encontrando-se aí, por exemplo, o nome de Francis Fukuyama; entre os eméritos, Frank C. Carlucci; no quadro dos que por lá passaram temos Walter Mondale, Condoleezza Rice e Donald Rumsfeld.
Para terminar, foca um exemplo do trabalho desenvolvido por estes cérebros: foi um consultor da RAND, Vernon L. Smith, prémio Nobel da Economia em 2002, quem estabeleceu a base teórica da desregulação dos mercados energéticos nos Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia. Um outro colaborador, William Vickrey, também ele Nobel da Economia em 1996, em partilha com James A. Mirrlees, forneceu o fundamento da subida dos preços cobrados pelas companhias de electricidade, telefones e transportes aéreos durante os períodos de maior uso. E no seu palmarés está a criação da portagem rodoviária urbana, actualmente tão em voga.
Como se ilustra, entre cabeças pensadoras, punhos de dinamite, e arsenais de todo o tipo, Estados não-párias como os EUA têm as suas reservas bem constituídas e oleadas, para o que der e vier.

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Alex Abella
Os soldados da sombra – Ascensão e afirmação do império americano
Editorial Bizâncio, 16€

Ribeirinho Leal | Motivos Alentejanos


1- De que trata este seu livro «Motivos Alentejanos»?
R- Este livro procura dar a conhecer usos e costumes alentejanos, muitos já desaparecidos e outros em vias de extinção.

2- De forma resumida, qual a principal ideia que espera conseguir transmitir aos seus leitores?
R- Procure fazer passar a mensagem de que um Povo só poderá construir um futuro melhor se o alicerçar no passado e o consolidar no presente.
É preciso conhecermos as nossas raízes, o que foi o viver das gerações que nos precederam no encadeado das gerações.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Tenho pronto para um dia reeditar as “Histórias do Arco da Velha”, colectânea de historietas por mim vividas e partilhadas durante 50 anos.
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Ribeirinho leal
Motivos Alentejanos
Colibri

_____________Diga não ao cruel comércio de morte______________